Alberto Manguel | "O livro é sempre um inimigo simbólico"

Por: Luís Osório a 2022-12-05

Alberto Manguel

Alberto Manguel

Alberto Manguel (1948, Buenos Aires) cresceu em Telavive e na Argentina, e adotou a nacionalidade canadiana em 1982. Aos 16 anos, trabalhava na livraria Pygmalion, em Buenos Aires, quando Jorge Luis Borges lhe pediu que lesse para ele em sua casa. Foi leitor de Borges entre 1964 e 1968. Em 1968, mudouse para a Europa. Viveu em Espanha, França, Itália e Inglaterra, ganhando a vida como leitor e tradutor para várias editoras. Editou cerca de uma dezena de antologias de contos sobre temas tão díspares como o fantástico ou a literatura erótica. É ensaísta, romancista premiado e autor de vários bestsellers internacionais, como Dicionário de Lugares Imaginários, Uma História da Curiosidade, A Biblioteca à Noite, Embalando a Minha Biblioteca, Com Borges, Uma História da Leitura e Um Diário de Leituras (publicados pela Tinta da china entre 2013 e 2022). Publicou em Portugal, em estreia mundial, o Livro de Receitas dos Lugares Imaginários (2021) e Guia de Um Perplexo em Portugal (2022). Foi diretor da Biblioteca Nacional da Argentina entre 2016 e 2018. Recebeu o Prémio Formentor das Letras em 2017. Atualmente, vive em Lisboa, onde dirige o Espaço Atlântida.

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“Espero sinceramente que Portugal seja o último capítulo da minha vida.”


Conversei com Alberto Manguel numa sala ampla com vista para uma rua movimentada de Lisboa. Havia barulho de crianças, turistas e elétricos. A sua sala, ao contrário do que eu imaginava, não tinha livros. Só quadros e um piano a um canto. Perguntei-lhe pelo silêncio antes de lhe fazer a primeira pergunta. Depois deixámos a conversa correr e Manguel provou a razão de ser considerado o mais extraordinário entre todos os bibliófilos no mundo. 

Senti que era mais do que um homem, mais do que um intelectual ou um autor de referência, mais do que o adolescente que lia para um Jorge Luís Borges já cego, mais do que o viajante que nunca se sentiu em casa em casa alguma, mais do que o antigo diretor da mítica Biblioteca de Buenos Aires. Ou até mais do que a criança que cresceu na companhia de uma ama que lhe ensinou o valor do conhecimento e da literatura. 

Quando começou a responder às minhas perguntas parecia carregar a história do mundo, a história da literatura, a história da condição humana. Num certo sentido, Alberto Manguel é um oráculo do que somos, traz em si uma biblioteca mental que está, confessou-o a certa altura, praticamente cheia. 

Falou da morte, do que espera que ela seja quando chegar. Falou da guerra e da importância e do poder dos livros. Falou do regresso dos fascismos. Falou de Deus que considera um personagem esmagador, o melhor dos elogios que poderia fazer. Falou da esquerda e da direita, escolheu os autores com quem gostaria de jantar e também os que amando como escritores detestaria conhecer. Falou claro está da mentira da verdade.  


 

A ficção supera a realidade muitas vezes. Em alguns casos, antecipa-a. Fahreneit 451 é um dos exemplos mais impressionantes. Lemos a distopia de Bradbury e torna-se impossível não pensar no que estamos hoje a viver. 

Temos a tendência para achar isso, mas é um livro sobre todos os tempos. A história da leitura prova-nos, a história que leva o ser humano a queimar livros prova-nos, desde o tempo da Suméria e da Mesopotâmia, que o livro é sempre um inimigo simbólico. Hoje existe também a ideia de que somos mais civilizados, mais conhecedores dos direitos humanos, mais apaixonados pela liberdade do pensamento, mas nem isso é certo. 


Nada certo. 

Como não é certa a ideia de que a história está condenada a progredir, a avançar. É uma ideia absolutamente falsa; como a literatura aliás demonstra, o pensamento humano é um pensamento em espiral. Regressamos agora ao fascismo, um regresso que pensávamos totalmente impossível depois do que aconteceu na Segunda Guerra Mundial. Só que não, o que observamos todos os dias vai ao encontro desta ideia de espiral, matamos e fazemos renascer ideias. Por isso, voltando atrás, a destruição dos livros existiu sempre. 

 

“Hoje existe também a ideia de que somos mais civilizados, mais conhecedores dos direitos humanos, mais apaixonados pela liberdade do pensamento, mas nem isso é certo.” 

 

Porquê? 

Porque os livros representam a liberdade do pensamento. A liberdade de cada um poder pensar. Mas atenção, não é apenas a extrema-direita que queima os livros, também a esquerda o faz. Aliás, está a fazê-lo em muitos lugares e com diferentes pretextos. O pensamento liberal é um obstáculo para os extremismos de direita e de esquerda. Estamos a ver nos Estados Unidos uma “queima” de livros semelhante a vários momentos da história, livros que deixaram de poder ser ensinados, livros proibidos por novas censuras. A Metamorfose de Ovídio tem mulheres violadas e por isso não pode ser ensinado, lido, pensado. 

 

“não é apenas a extrema-direita que queima os livros, também a esquerda o faz. Aliás, está a fazê-lo em muitos lugares e com diferentes pretextos.”

 

Uma espécie de ditadura do politicamente correto.

Não diria isso porque os dois termos são falsos. Parece-me ser um cliché definir estas novas formas de censura como a consequência de um pensamento politicamente correto. Não é correto e não é político. 

 

Até que ponto é este tempo uma antítese do que um escritor (um criador) precisa? Alguém que escreve ou lê precisa de silêncio e de desafiar uma ideia de profundidade, mas este tempo é de ruído permanente e de superfície. 

Sem dúvida, não poderia concordar mais. Os valores da leitura, os valores da escrita também, são contrários aos deste tempo. O comércio é a essência e nessa essência predomina o que é imediato e fácil. A leitura leva tempo e é difícil, difícil no sentido positivo, a dificuldade tem uma conotação negativa. 

 

E com um outro problema. Cada vez mais os leitores optam por obras, por textos, que vão ao encontro do que já conhecem, do que já pensam sobre o mundo.

Para o mercado, o consumidor não pode ser uma pessoa que reflete, tem de ser estúpido e a nossa cultura é cada vez mais a educação da estupidez. As crianças veem o mundo com grande inteligência e curiosidade e os nossos sistemas educativos consistem em travar essas duas qualidades primordiais. Sem isso, o sistema capitalista não poderia funcionar da mesma maneira. 

 

“Para o mercado, o consumidor não pode ser uma pessoa que reflete, tem de ser estúpido e a nossa cultura é cada vez mais a educação da estupidez.”

 

Como saímos deste lugar em que a problematização não é bem-vinda, em que parecemos ter o horror pelo vazio, pela dúvida, pelo sonho até? 

Não faço a menor ideia. Em todo o momento da história o ser humano encontrou obstáculos e arranjou forma de ultrapassar os obstáculos com a força da imaginação. 

 

O que me está a dizer é que a imaginação é um instrumento de sobrevivência. 

Também é, claro. O ser humano usou-a para conseguir imaginar novos caminhos, soluções. Mas o problema é o que vamos imaginar para sair da situação em que vivemos agora, esse é o ponto. Talvez os escritores estejam a imaginar soluções, quem sabe? Mas um escritor é sempre uma cassandra, o que está a dizer, regra geral, não é percebido pelos seus contemporâneos, só depois, só no futuro é que o mundo percebe que o caminho já estava aplanado para que o pudéssemos compreender. Espero que possamos ler os sinais a tempo. 

 

E que tenhamos a arrogância de apostar em livros, projetos, ideologias que possam dar às pessoas o que elas precisam e não apenas o que elas querem. Arrogância no sentido de que nunca sabemos realmente do que elas precisam. 

Sim, mas continuamos a contar histórias. Algumas sobre as sociedades futuras, outras construindo a partir do que já aconteceu, mas está tudo a acontecer no mesmo plano. É uma astrofísica de um tempo que não tem passado, presente ou futuro. Um tempo que inclui todos os tempos, sempre. A literatura pode representar esses universos e tempos paralelos. Nós escolhemos, é verdade. Mas na maior parte do tempo estamos a escolher o que nos oferece mais segurança, não o que nos diz para termos atenção ou o que nos inquieta com perigos ou ameaças. 

 

Não é tão clara hoje a procura artística, criadora, literária. No século XX, existiram vários movimentos culturais que tinham o objetivo de transformar o mundo, de o virar do avesso. 

Não se nota por não termos a distância, mas existem. Estamos sempre a imaginar novos caminhos, a imaginar soluções e descrições do nosso universo. Por vezes, vemos as raízes filosóficas. Por vezes, reconhecemos figuras que encorporam essas raízes. Por vezes, percebemos o quanto a ficção, os romances e as ideias são contaminadas por essas raízes e figuras. A relação entre o pensamento filosófico e a ficção é algo que foi já descrito por Platão, que nos disse que a ficção não pode fazer um relato fiel da realidade por não passar de um artifício. Mas este é também um tempo com enormes potencialidades, um mundo tecnológico que faz nascer novos instrumentos com muitas ficções, muitas histórias que descrevem os perigos e as vantagens de um mundo novo. Não deixa de ser um novo diálogo entre a ficção e a realidade, não se esqueça de que a atual revolução tecnológica é alicerçada na visão de (William) Gibson, que em Neuromancer e noutros livros, inventou os conceitos de cyberspace ou de Inteligência Artificial, que passaram a ser familiares e correntes entre a comunidade científica.   

 

Estava a ouvi-lo e a pensar que combatemos numa guerra que também é cultural. E se também é cultural não deixa de ser um território em que os criadores matam e morrem com o que escrevem, pensam, cantam, pintam.

O estado de guerra é o estado normal da humanidade. Sempre estivemos em guerra, os momentos de paz são muito raros. E mesmo na Europa do pós-guerra, a Europa que fala do mais longo período de paz, não leva em linha de conta as guerras que continuaram a acontecer um pouco por todo o lado. É uma ideia falsa, os ingleses definem isso como “wishful thinking”, mais um desejo do que uma realidade. O que deve então fazer um escritor num estado de guerra? 

 

“O estado de guerra é o estado normal da humanidade. 
Sempre estivemos em guerra, os momentos de paz são muito raros.”

 

O que no escritor é original e verdadeiramente único nesse combate?

O escritor está em diálogo com a sua obra, esse diálogo é que é determinante. Rimbaud testemunhou a guerra, os seus olhos viram o que viram, mas não escreveu sobre isso, escreveu a partir do seu centro, a partir das suas perguntas sobre certos temas existenciais, mas nós ao lê-lo podemos entender a angústia do seu tempo (e do nosso), podemos pensar ao lê-lo sobre os nossos problemas éticos e sociais.

 

O poder da literatura, o poder que tem sobre o tempo.

A literatura não é um dogma, a literatura não é um discurso político, a literatura depende da ambiguidade para poder ser lida de geração em geração. Não conhecemos verdadeiramente a situação política e social da época de Gilgamés, mas podemos ler e compreender o poema de Gilgamés com os olhos do nosso tempo, o conflito de civilizações e a condição humana estão lá e os nossos olhos conseguem ler e compreender. O diálogo com os mortos, a questão do poder absoluto ou a empatia como modo de prevalecer e sobreviver são questões que encontramos em Gilgamés. 

 

Falou de vários conceitos que prevalecem, várias palavras, estados, ambições. A “felicidade” é uma palavra corrente e sempre presente, mas diabolizada pelos criadores, qualquer possibilidade de alcançar a felicidade enquanto estado permanente representaria a morte da criação. 

É como na canção de Vinicius de Moraes: “Tristeza não tem fim/Felicidade sim”. Desde o Livro de Job que nos perguntamos, que nos interrogamos, que nos definimos pela interrogação. Porquê aqui, porquê agora, porque nos aconteceu isto e aquilo, o que fiz para merecer isto, porquê. O nosso universo é antropomórfico, um universo que sente, reflete, que tem uma relação connosco, com o que somos. Mas o universo nada tem que ver com isso, nada tem que ver connosco, é uma entidade totalmente impessoal, o universo nasceu, continua e talvez acabe sem sequer olhar para o nosso destino. O diálogo com o universo foi uma invenção nossa porque o universo não terá certamente qualquer interesse nestes pequenos bichos que vivem num lugar perdido na Galáxia. 

 

Há umas semanas, numa conversa com cientista Manuel Sobrinho Simões, falávamos dos vírus que não são seres vivos, mas que se comportam como se existisse algures no que são um modo qualquer de inteligência. 

Estamos estruturados para comunicar através da linguagem e é por isso que atribuímos linguagem a tudo. Falamos do temperamento da natureza e do indizível do único modo que conhecemos e sabemos. Mas a natureza não se exprime através da linguagem. 

 

O que criamos então?

Metáforas que nos ajudam a contar uma história. Recebemos no nosso cérebro impressões fragmentárias do mundo, impressões sem coerência, impressão de cor, de frio, mas no meu cérebro estou a fazer uma narração de tudo isto. Digo que é azul, que é uma cadeira que serve para uma pessoa se sentar e assim sucessivamente. Construímos essa narração para dar uma coerência a nós próprios e ao universo, uma coerência que o universo não tem. 

 

Sempre o nosso modo de olhar, os fragmentos que saem de cada um dos olhares. Na minha narração está sempre a forma de contar de John Ford. Em O Homem que Matou Liberty Valence, Ford repete no final uma das primeiras cenas do filme, colocando a câmara/olhar noutro lugar, e só aí percebemos que a verdade era oposta a que imaginámos desde o primeiro momento. 

Por isso é que a literatura policial é um modelo de toda a literatura.

 

No seu Dicionário de Lugares Imaginários, que escreveu com Gianni Guadalupi, existe uma tentativa de encontro com a pureza daquilo que somos, a qualidade de conseguirmos ver o que não existe. 

Mas sabe uma coisa? Eu não escolheria viver em nenhum desses lugares, são todos terríveis. Éramos muito jovens quando fizemos esse livro, tínhamos tempo para ler milhares de páginas, tempo para procurarmos detalhes em romances. Esses lugares não representam um modelo para uma sociedade ideal, uma sociedade em que eu realmente gostasse de viver. 

 

Leia aqui a segunda parte da entrevista.

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