Alice Vieira | " Ter 78 anos dá-me uma grande vantagem: posso fazer o que eu quero e não tenho de dar satisfações a ninguém"

Por: Marisa Sousa a 2021-11-23

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Se Perguntarem por Mim Digam que Voei
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Em Se Perguntarem por Mim Digam que Voei, Joana Ofélia (a única personagem cujo nome real Alice Vieira decidiu manter), à pergunta “É por essa janela que costuma voar?”, responde: “Qualquer janela serve. (…) Basta olharmos através dos vidros, e somos mais livres do que pássaros”. Alice Vieira também passa os dias a voar. Conversar com ela é quase uma vertigem. Os seus 78 anos são um pormenor administrativo, facilmente esquecido quando somos enredados, sem pré-aviso, na sua gargalhada desarmante. Lemo-la na escola, aprendemos a respeitar o património imaterial que o seu nome carrega e, hoje, é sobre a arte de viver que conversamos. Arte que domina com a urgência de quem ainda tem quase tudo por fazer.


 

“Sempre amei por palavras muito mais do que devia,

são um perigo as palavras,

quando as soltamos já não há regresso possível (…)”

ALICE VIEIRA, IN O QUE DÓI ÀS AVES —

 

Que memória guarda da primeira coisa que escreveu?

Com 15 anos, escrevi uns textos para o suplemento juvenil do Diário de Lisboa. Recebi uma resposta a dizer que aquilo era muito mau e estavam cheios de razão. Sugeriram que continuasse a escrever, que não desistisse e que lesse muito, porque só depois de ler muito é que escrevemos bem. Continuei a escrever e, um dia, integraram um poema que eu tinha enviado — chamava-se Lisboa às seis — numa reportagem que dois jornalistas tinham escrito sobre Lisboa. Mais tarde, perguntaram-me se não queria lá ir; fui, gostei muito daquilo e fiquei lá. E foi assim que entrei no mundo dos jornais.

Entretanto, escrevi o Rosa, Minha Irmã Rosa, mas nunca com a intenção de que aquilo fosse um livro, porque o escrevi com os meus filhos, para eles estarem um bocadinho calados (risos). Quem lê o livro fica a conhecer tudo, porque aquilo é a nossa família com outros nomes.

 

“Dizem que há coisas de que só se deve falar aos adultos porque só eles são capazes de entender. Não estou muito certa disso. Às vezes penso que há coisas que só mesmo as crianças são capazes de entender e aceitar.”

ALICE VIEIRA, in ROSA, MINHA IRMÃ ROSA —

 

E escreveu-o em vinte dias.

Pois foi, estava de férias do jornal. Entretanto, recebi um telefonema e informaram-me de que tinha ganhado um prémio. Eu perguntei: “Mas qual prémio?”. Sem eu saber, o meu marido tinha enviado o livro para um concurso. Depois, já sabe como é: um livro que ganha um prémio toda a gente compra, toda a gente lê. Mas eu nunca quis ser escritora, até hoje. Se os meus patrões — eu espero que eles não leiam isto (gargalhada) — me dissessem: já tens mais de 80 livros publicados, podes parar, eu parava logo. Por outro lado, se eu não tivesse jornais onde escrever, já seria muito complicado. Neste momento escrevo para seis jornais.

 

“NUNCA QUIS SER ESCRITORA.”

 

Teve uma infância difícil (não esconde que a sua mãe a deu, com apenas 15 dias de vida). Não esmoreceu sequer quando, há 30 anos, um médico lhe disse que tinha dois anos de vida. Gosta de citar um provérbio chinês: “Se tem solução, porque te queixas? Se não tem solução, porque te queixas?”. Um amigo apelidou-a de militante do otimismo e a sua gargalhada contagiosa é por demais conhecida.

Acredito que foi a infância má que eu tive que me deu este otimismo. Ainda hoje me lembro de que quando, em miúda, as tias velhotas, que me criaram, me chamavam, e nunca era para nada de bom, eu cerrava as mãos e dizia a mim própria: elas matar, não me matam, portanto, vamos lá ! (risos) Sou realmente sempre muito otimista.

 

“ACREDITO QUE FOI A INFÂNCIA MÁ QUE EU TIVE QUE ME DEU ESTE OTIMISMO.”

 

O que não a quebra fortalece-a?

O Goethe dizia: “Tudo o que não me mata torna-me mais forte”. Em Portugal, temos uma frase melhor: “Tudo o que não mata engorda” (gargalhada). Todas as dificuldades por que vamos passando, e eu tenho tido várias, servem para nos dar mais força. Quando tive cancro e fiz a mastectomia — naquela altura, fui eu, a Simone de Oliveira e a Manuela Maria; tivemos as três ao mesmo tempo —, passados uns tempos, fomos convidadas para todas as estações de televisão e eu até já dizia: lá vão as cancerosas de serviço (risos). Ainda estamos vivas. A Manuela Maria dizia que nunca pensou que ia morrer. Comigo aconteceu o mesmo, mesmo quando o médico me disse que eu tinha dois anos de vida: nunca pensei que ia morrer.

 

É fundamental não baixar os braços?

Sim, isso para mim é fundamental. Tive amigas que tiveram cancro na mesma altura, ficaram tão deprimidas e, uns anos depois, morreram. Eu reajo bem às coisas más. Às coisas boas, ainda reajo melhor (gargalhada)… quer dizer… por acaso, agora não estou a reagir muito bem aos resultados das eleições, mas adiante… (gargalhada).

 

A escassez de mulheres, e concretamente de mães, nos seus livros está relacionada com ausência com que a sua mãe a marcou?

Eu nem dava por isso, mas realmente nos meus livros há poucas mães. Há madrastas, tias — há tias que nunca mais acabam! O meu filho, quando era pequeno e já tinha lido não sei quantos livros meus, um dia disse-me: “Mãe, nos teus livros há tias a mais” (risos).

 

Afirma que a sua vida começou no célebre 31 de agosto, dia em que entrou no Diário de Lisboa. Por que motivo este momento representa o fim de um ciclo e o início da vida?

Ainda hoje consigo ver-me perfeitamente a entrar no Diário de Lisboa: lembro-me de estar a subir aquelas escadas, de sentir o cheiro a chumbo e de dizer para mim própria: esta é a profissão que eu quero, é isto que quero fazer. Depois, olhei para o senhor que estava no topo das escadas [Mário Castrim] e disse: aquele é o homem que eu quero. Estive lá muitos anos, foi lá que aprendi tudo, passava lá a minha vida toda. O padrinho da minha filha era o chefe da tipografia e quando não tinha com quem a deixar, e tinha de trabalhar, deixava-a com o padrinho (risos). Ela hoje também é jornalista. Quando fui viver com o Mário Castrim, saí de lá porque achei que marido e mulher no mesmo trabalho dá sempre disparate. Fui para o Diário Popular, depois estive muitos anos no Diário de Notícias, agora estou nos jornais online e ainda escrevo para o Sol.

 

Voltando um pouco atrás, de que forma é que ter vivido em Paris — onde privou com Jorge Amado e Pablo Neruda —, com pouco mais de vinte anos, marcou a sua vida?

Foi a minha universidade. Saí de casa sem saber para onde ia. Lembro-me de ter chegado ao aeroporto de Orly e pensar: para onde é que eu vou? Lembrei-me de que a minha prima, a Maria Lamas, morava no Quartier Latin...

 

Não tinha nada combinado?

Nada ! Fui ter com ela a um hotel muito “mixuruca”, onde só havia emigrantes e exilados. A dona daquilo era extraordinária; quando não tínhamos dinheiro para pagar, trabalhávamos; éramos nós quem arrumava e limpava os quartos (gargalhada). A minha prima era uma mulher extraordinária, muito ativista, feminista, e conhecia toda a gente. Foi assim que conheci o Jorge Amado, a Zélia Gattai, o Pablo Neruda… lembro-me de olhar para o Neruda e pensar: Eu estou a falar com o Neruda (gargalhada). Foram tempos extraordinários ! Depois do maio de ‘68, percebi que, se queríamos mudar alguma coisa, tínhamos de ser nós a fazê-lo. Tinha de vir para Portugal e lutar por aquilo que eu queria.

 

 

“DEPOIS DO MAIO DE ‘68, PERCEBI QUE, SE QUERÍAMOS MUDAR ALGUMA COISA,

TÍNHAMOS DE SER NÓS A FAZÊ-LO. TINHA DE VIR PARA PORTUGAL E LUTAR POR AQUILO QUE EU QUERIA.”

 

Voltemos aos livros. Que leituras marcaram a sua vida?

As velhas tias que me criaram deixavam-me ler tudo — era uma forma de eu estar sossegada (risos). Li o muito bom e o muito mau. Um dos escritores que me marcaram mais — até tenho ali a fotografia dele ali na minha parede — foi o Érico Veríssimo. Todos os livros dele me marcaram. Um deles, As Aventuras de Tibicuera, é lindíssimo; li vezes sem conta e sabia passagens de cor. O Clarissa, também do Veríssimo, foi um dos livros da minha vida. Foi o primeiro livro em que percebi que não era preciso ter uma grande história para escrever um grande livro.

 

O que é preciso para se escrever um grande livro?

Emoções, sensações.

Afirmou que, com os seus netos, é “uma avó um bocado maluca”.

(risos) Uma das coisas que costumávamos fazer, quando os meus netos eram crianças — eles sempre foram um bocadinho politizados —, era os telejornais a fingir. Eu colocava o banco do piano em cima da mesa, para imitar o retângulo da televisão, e eles faziam os telejornais, alguns com muito êxito. Num deles, a minha neta mais nova imitava a mãe do Pedro Passos Coelho e dizia: “Eu sou a mãe do Passos Coelho e só queria dizer que não foi essa a educação que dei ao meu filho” (gargalhada).

 

Que idade tinha ela nessa altura?

Cinco, seis anos. Era de morrer a rir! Havia também a Rainha Santa Isabel, que dizia: “Eu quero lá saber de rosas, eu quero é o Expresso” (gargalhada). Fizemos tantos disparates…

 

 

Tudo improvisado?

Tudo. O professor João dos Santos, que era um grande psiquiatra, dizia que é muito importante haver uma geração de permeio. Ainda hoje, conto coisas à minha neta mais velha que não conto aos meus filhos, e ela também. Um dia, estava a ler-lhe uma história, na cama — ela tinha oito ou nove anos —, e a meio da história ela perguntou: “Avó, que idade tinhas quando fizeste sexo pela primeira vez?”. Decidi falar com ela, de forma que ela percebesse. Tivemos uma ótima conversa e, no final, ela disse: “Agora podes continuar a ler”.

 

Que lições valiosas aprendeu com as crianças que nunca poderia ter aprendido com adultos?

Aprendi aquilo a que elas dão valor e aquilo que elas não valorizam nada. Às vezes, têm muita razão. Dizem-me muitas verdades sobre os livros que escrevi. Visito muitas escolas e oiço coisas extraordinárias; ensinam-me imenso. Muitos deles passam a escrever-me regularmente. Ainda hoje, me correspondo com adultos que me escrevem desde que nos conhecemos, numa escola, quando eram crianças.

 

Continua a responder a todos os que lhe escrevem?

A todos. Passo tardes e tardes só a responder a correio.

 

Por e-mail?

Qual e-mail?! Uma vez, enviei um e-mail a uma pessoa que me escreveu e ela respondeu: “Gostei muito do e-mail, mas quero a carta” (risos). Comigo os Correios nunca vão à falência.

 

De entre todos os livros que escreveu, há algum pelo qual sinta uma predileção especial?

Não, eles são todos muito diferentes. Gosto de uns por uma razão e de outros por outras razões. Rosa, Minha Irmã Rosa foi o primeiro… Gosto muito de escrever romances históricos: gostei muito de escrever Diário de um adolescente na Lisboa de 1910, apesar de ter dado muito trabalho por exigir imensa investigação. Gosto de saber que é muito lido nas escolas. Nunca percebi, por exemplo, porque é que na Rússia o meu livro mais popular é A Espada do Rei Afonso, que é sobre o primeiro rei de Portugal. Um dos mais traduzidos é Os Olhos de Ana Marta — até em chinês está traduzido.

Sou muito, muito exigente. Depois de terminados os livros, e antes de os enviar para a editora, se volto a ler e penso isto não está mal, mas eu sou capaz de fazer melhor, coloco tudo no lixo e começo de novo.

 

Não aproveita nada?

Nada!  Começo tudo do princípio e nunca me arrependi. Às vezes, ligo para a editora e ela começa logo por me dizer: “Não me digas que deitaste fora!” (gargalhada).

 

É uma pessoa de pessoas, que precisa de companhia, de ruído, de agitação, da vida lá fora. Como foi que viveu o tempo suspenso durante os confinamentos?

Foram horríveis. Eu estava, e ainda estou, a ser acompanhada por uma psiquiatra… a morte do meu segundo marido tinha-me abalado muito… veio o primeiro confinamento e passou-me tudo! (gargalhada) A médica nem quis acreditar. Enchi-me de tanta coisa para fazer, que não tinha tempo para pensar noutras coisas: eram artigos para os jornais, o romance que comecei a escrever com o Nélson Mateus, os Zooms para toda a parte… Eu era uma naba nestas coisas, mas agora é Zooms, Skypes, videochamadas (gargalhada). Isso ajudou-me a não ter depressões. Tenho cinco amigos que estavam muito deprimidos e eu falava com eles diariamente, para os animar. Custava-me, obviamente, estar sempre fechada em casa, porque eu preciso de conviver…

 

Leia aqui a segunda parte da entrevista.

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