Cinquenta anos após a Independência de Angola, permanece a reflexão sobre o legado do colonialismo, os desafios da construção nacional e o papel da cultura na preservação da memória coletiva.
Entre a herança colonial, a guerra civil e a afirmação de múltiplas vozes culturais, Angola construiu uma literatura de resistência e de memória, com nomes como Agostinho Neto, Pepetela e Manuel Rui a tornarem-se referências incontornáveis.
É neste contexto que o nosso blogue Somos Livros conversa com o escritor, poeta e docente José Luís Mendonça. O autor de Angola, Me Diz Ainda aborda nesta entrevista as transformações da sociedade angolana desde 1975, o impacto do colonialismo na educação e na identidade nacional, o papel dos escritores na reconstrução da consciência coletiva e os desafios que ainda marcam a consolidação da liberdade e da memória histórica.
1. Olhando para trás, que mudanças imediatas trouxe a independência para a vida quotidiana em Angola?
Uma enorme mudança. A partir de 11 de Novembro de 1975, extinguiu-se por completo uma certa discriminação racial que estava a ser oficialmente mitigada desde 1970, mas que não tinha desaparecido por completo das relações inter-subjectivas. É claro que persistia um nível muito diminuto de racismo estrutural, próprio de todas as sociedades humanas, mas que era combatido, se manifesto. Esta foi a primeira grande mudança que fazia parte do discurso dos três movimentos e que já tinha sido implantado pelos jovens revolucionários dos Comités de bairro, logo após o 25 de Abril de 1973.
A vida do dia-a-dia mudou drasticamente com a ocupação dos territórios antes dominados pela elite colonial. Casas, apartamentos, viaturas, bens continuaram a ser apropriados pelos populares, principalmente militares e pela nova Administração angolana, esta, através das chamadas nacionalizações. A reviravolta na Economia, com estas nacionalizações desencadeou o colapso do sistema económico, agravado pela expulsão dos colonos. A agricultura entrou em decadência, o comércio idem, a importação ficou agravada pelo bloqueio ocidental e este cenário deu origem à escassez de alimentos e à penúria, que era mitigada pela cooperação com os países do Leste e com Cuba. Os hábitos alimentares mudaram. Pela primeira vez, começou a comer-se ovo em pó em Angola. O vinho praticamente desapareceu da circulação e os bens alimentares passaram a ser racionados, através de um cartão de abastecimento.
Tudo isto agravado pela insegurança criada pelos disparos de armas nas capitais do novo país. Depois de 1977, o recolher obrigatório imposto durante dez anos trouxe à vida quotidiana dos angolanos um estado de medo e insegurança. Em vez da esperada euforia, a independência instaurou o medo, a incerteza e a fome. São estas características que estão plasmadas no meu primeiro romance O Reino das Casuarinas. Os deficientes mentais que fundam o reino correspondem à avassaladora transformação operada ao nível das almas dos angolanos.
2. Perante o impacto do colonialismo, a consequente guerra civil, e a forma como estes acontecimentos afetaram as comunidades do interior — muitas vezes forçadas a deslocar-se ou dizimadas —, de que maneira considera que a fragmentação social moldou a cultura, a literacia e a identidade do povo angolano?
A nível da Cultura, a pós-colonialidade instaurou um discurso e uma imagética designada pelas forças dominantes como revolucionária. O discurso literário aportava da guerrilha o modelo do realismo socialista. A União dos Escritores Angolanos (UEA) iniciou a publicação de obras dos escritores-guerrilheiros. Algumas dessas obras não possuem nenhum valor estético. No meio dessa euforia revolucionária, saíram, entretanto, obras geniais desconhecidas do grande público, como As Aventuras de Ngnga, de Pepetela, ou Sagrada Esperança, de Agostinho Neto. Manuel Rui lança Sim, Camarada, uma colectânea de contos de pendor socialista. Um autor que se manteve distante dessa elucubrações marxistas foi Ruy Duarte de Carvalho.
Quanto à literacia, inaugurou-se em Angola um movimento de alfabetização, que abrangia até os quartéis e os bairros periféricos, e as populações do campo.
A identidade dos povos de Angola começaria a sofrer uma metamorfose, que começou pela forma de tratamento comunista. O professor passou a ser chamado de “Camarada professor”, o mais alto mandatário de “Camarada Presidente”. Só escapou a essa orgia de tratamento comunista o pai e a mãe de família e o nome de Deus. Os jovens revolucionários pugnavam por pela divulgação da História de Angola e de África. Já antes da entrada dos movimentos de “libertação”, em 1974, os jovens entusiastas dos Comités de bairro imprimiram fascículos em stencil com essas novidades, que incluíram a disseminação de textos marxistas-leninistas. Luanda, a capital, conheceu um movimento cultural e ideológico nunca antes visto. Os músicos, que antes se dedicavam a cantar as cenas familiares e comunais, os óbitos, os namoros, os makixi (monstros rurais), foram reorientados pelos revolucionários a compor letras de ódio contra os “lacaios do imperialismo”, tanto em português como em quimbundo. Na verdade, os primeiros dois anos da independência e o ano que a antecedeu merecem um estudo profundo pelo grau de inseminação do sentimento socializante e de luta contra o capitalismo e o imperialismo norte-americano. Só mesmo dois anos. Em 1977, todo esse movimento dos Comités, cujos mentores já estavam presos desde antes de Novembro de 1975, acabou definitivamente. Até a música vernácula baseada no Semba, dos três grandes ícones da canção popular luandense – David Zé, Urbano de Castro e Artur Nunes, mortos no 27 de Maio – foi terminantemente proibida de tocas nas rádios, durante os dez anos em que durou o recolher obrigatório em Angola. Hoje, o Semba é um ritmo em quase extinção.
Em termos gerais, a tentativa de fundar uma nova formulação identitária, baseada no mito “Um só Povo, uma só Nação” não resultou, porque se esqueceu que Angola é, desde o século XVI uma fundação da língua portuguesa, consolidada apenas no século XX, com as conquistas dos reinos e povos do Leste e do Sul/Sudoeste. Os intelectuais do período do nacionalismo, os do período da guerrilha e os do pós-colonialismo não alcançaram esta ontologia da angolanidade, enquanto ficção da língua portuguesa. Daí terem inventado outra ficção: “Agostinho Neto, Fundador da Nação Angolana”. Nessa euforia revolucionária, apelou-se aos cubanos para retirar a maior estátua existente em Angola, no Kinaxixi, a chamada Maria da Fonte que não era outra coisa, senão o monumento aos heróis da I Grande Guerra, que até homenageava os soldados negros angolanos que lutaram contra os alemães no extremo Sul de Angola. Os cubanos não conseguiram remover a enorme estátua e dinamitaram-na. Os dirigentes e os intelectuais que os rodeavam, imbuídos do marxismo-leninismo, nem se deram conta de que o maior e mais amplo monumento da colonialidade continua presente em cada um de nós: a Língua Portuguesa. Ao decretarem a língua de Camões como única língua oficial, deram um golpe de misericórdia nas línguas de origem bantu e Koi-San, pois algumas delas, como o quimbundo, estão em declínio paulatino, principalmente em Luanda.
3. Outra consequência do período colonial foi a privação de grande parte da população angolana do acesso à educação. Podem o ensino e a educação contribuir hoje para reverter o impacto desta realidade na formação cultural e política do país?
Poder, podem. O problema é como. Hoje, a população estudantil do Ensino de Base conta com 9 (nove) milhões de alunos. O Governo apresenta este número como uma conquista sua. Só que nove milhões de estudantes precisam de 54 (cinquenta e quatro) milhões de manuais escolares. E Angola não tem esses 54 milhões de manuais. Essa lacuna faz do Ensino um sistema incompleto, no qual o aluno sai dos seis anos de escolaridade obrigatória com um nível de iliteracia sem precedentes no tempo colonial, em que o ensino, mesmo para um grupo restrito, que já incluía pessoas como Agostinho Neto, Uanhenga Xitu, Manuel Pedro Pacavira (escritores) e outros nacionalistas, tinha uma alta qualidade. A agravar essa lacuna, há uma população de quatro milhões de crianças fora do sistema de Ensino. Há escolas nas periferias construídas com apenas algumas estacas e chapas de zinco, outras há em baixo de árvores, e segundo um dado divulgado por alguém que é hoje uma alta figura do Governo, em Angola existem quatro mil professores que não sabem ler nem escrever. Quer dizer que o Governo foi ultrapassado pela dinâmica do crescimento populacional africano e pelas reais necessidades das famílias angolanas, enquanto continua centrando esforços, fundos do OGE e recursos humanos no “combate até à exaustão” contra a oposição política e não tem capacidade para desfeitear o regime do Cabritismo na Administração Pública, que consome muito dinheiro que deveria servir para construir escolas ou produzir livros.
4. Que obras ou autores considera essenciais para compreender estes 50 anos de independência?
Sim, Camarada, de Manuel Rui, Mayombe, de Pepetela, Sagrada Esperança, de Agostinho Neto (os quadros sinópticos do colonialismo retratados nesta obra estão a repetir-se na Angola independente), O Ministro, de Uanhenga Xitu, Maio, Mês de Maria, de Boaventura Cardoso, Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos, de Paula Tavares, Recado à Navegação, de Ruy Duarte de Carvalho, Diário de Uma Kuvale, de Aníbal Simões, Os Transparentes, de Ondjaki, Vidas e Mortes de Abel Chivukuvuku, de José Eduardo Agualusa, E Se Eu Fosse o Messias, de Salas Neto (crónicas) e outros.
5. Como podem os novos escritores angolanos, entre os quais se inclui, contribuir para abrir novos horizontes à literatura e à própria visão de Angola, ajudando dessa forma a repensar e reconstruir uma identidade coletiva?
Escrevendo o que já temos dado à estampa. Só que existe um problema que se alastra no tempo e no espaço da Angola de hoje: o fenómeno da DESLEITURA. Hoje, nem mesmo a dita classe média, onde se inserem os intelectuais, lê. Porque não há tantas livrarias para 30 milhões de habitantes, há mesmo províncias no Leste e no Sudoeste de Angola onde não chega um único livro, o livro está caro e até eu, que sou docente universitário, devo pensar duas vezes, antes de pagar 20 mil kwanzas por um romance. Enfim, há uma série de pressupostos do processo editorial que não se verificam em Angola, não havendo mesmo uma empresa distribuidora livreira como havia no período do partido único, até aos anos 90. Angola, neste momento está em risco de implosão política e secessão territorial, devido à má distribuição da riqueza mineral, que é uma derivada da falta de empatia dos dirigentes para com os povos de Angola. O mito “Um só Povo, uma só Nação” devia ter sido acompanhado da extensão da acção governativa aos recantos mais extremos do país, onde, no tempo colonial, estava presente o comerciante colono, que comprava aos camponeses e fornecia bens que incluíam medicamentos. Nós, escritores, vamos retratando estas disparidades, e propondo soluções, como fiz no meu mais recente romance Um Pássaro na Lua. Para mim, só haverá desenvolvimento e paz em Angola, quando se instalar um governo que pense nas crianças.
6. Considera que o papel da resistência anticolonial em Angola no processo de derrube do fascismo em Portugal é muitas vezes ignorado? Qual é o papel da cultura e literatura na construção de uma memória em comum sobre este momento, e sobre o período colonial em si?
Acredito que não é ignorado. A luta foi generalizada a todo o espaço do Império Colonial Português. Havia até ligações com os libertadores lusos em Portugal e no exílio. Nós temos essa memória em obras como A Vida Verdadeira de Domingos Xavier de Luandino Vieira, ou Balada da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires. Sagrada Esperança, de Agostinho Neto guarda memória do colonialismo. E quando, hoje, relemos essa obra, salta à vista uma verdade avassaladora: o que é, afinal, o colonialismo? O poema Crueldade, inserto nessa obra, impõe-nos a reflexão mais impressiva da História de Angola: o estado de preto. Esse poema termina com estes versos: “no Sambizanga, um bairro de pretos”. Esse conceito pejorativo de preto parece resistir no tempo. A causa principal da luta de libertação, a falta de autonomia e liberdade do preto, está vigente até hoje.

José Luís Mendonça na Alemanha
7. De que forma considera que a história colonial moldou a opressão patriarcal e a vida das mulheres em Angola? De que forma pode o momento da Independência ter permitido algum progresso?
No tempo colonial, muitas mulheres pobres foram feitas quase cativas de homens brancos. Outras foram vendidas pelos tios ou sobas, chicoteadas caso recusassem ser domésticas e serviçais sexuais de comerciantes. Hoje, já não se assiste a essa realidade. No momento inicial pré e pós-independência, a mulher angolana recebeu uma forte lufada de vento libertário que fez soltar a sua esperança numa vida mais participativa. Essa lufada não atingiu a grande maioria das mulheres, a mulher camponesa, a mulher pobre do musseque. Mas conhecem-se casos paradigmáticos de mulheres que atingiram aquilo que se chama aqui de “emancipação”, em termos ainda do marxismo-leninismo. Mulheres que foram para a luta com os homens, morreram na guerra, outras atingiram patamares altos na governação. Permanente no processo histórico da Angola independente essa aura emancipatória da mulher, hoje praticamente esbatida. A mulher sofre de assédio sexual no local de trabalho, é estuprada por agentes das forças da ordem. Nas sanzalas, onde quem manda é o soba, faz-se trinta por uma linha com o corpo das jovens mulheres. Há muita prostituição juvenil em Luanda, devido à pobreza. O que sobressai na vida das mulheres em Angola é a sua luta e a sua resistência. O cerne da questão humana em Angola transitou da cor de pele para a cor do dinheiro. Ser homem ou mulher pobre em Angola é ser uma pessoa sem dignidade, uma quase moeda de troca, como era no tempo colonial.
8. Tem sido discutida cada vez mais a ideia de reparações históricas, sob várias formas. Qual é a sua opinião sobre estas propostas?
Eu concordo com um único tipo de reparação histórica, à qual chamo de responsabilidade póstuma do colonialismo. Morto este, as ex-potências coloniais não podem fazer tábua rasa de cenários que repetem o aviltamento do homem nas ex-colónias. Queria dizer “homem negro”, mas não digo. Somos todos homens, negros, brancos ou mestiços. Portanto, Portugal deve a Angola e aos angolanos o dever de sair da inércia e do fechar os olhos para o regime que mantém a população refém de um grupo de dirigentes apostados em enriquecer e colocar dinheiro noutros continentes. Portugal deve manifestar-se contra a repetição das prisões políticas e sobretudo da TORTURA, porque essas eram práticas próprias do regime colonial. Este é o tipo de reparação política que Portugal deve a Angola. O resto foi consequência do Encontro de Civilizações. Se formas a pedir a Portugal reparações materiais, então os imigrantes bantos que chegaram a este território nos séculos XII e XIII, antes do Lusos, deveriam estar a reparar a expulsão dos Koi-San para o Sul e a sua quase extinção.
9. Independência e libertação: como vê estas palavras e os significados a elas associados?
Independência é sinónima de libertação, em termos semânticos. Independência é um conceito ligado à emancipação política, económica e espiritual do ex-colonizado. No final deste mês, vou fazer uma comunicação na Universidade Agostinho Neto, onde lecciono Língua Portuguesa, sobre A Independência Espiritual do Homem Angolano. Esta é uma vertente esquecida. Fala-se da independência política, da independência económica, mas esquece-se a espiritual. Nós ainda somos colonizados espiritualmente, ainda estamos dominados pela imagética e pela potência mítica e histórica do povo judeu.
Libertação pressupões criar novas coisas, novos argumentos, novos mitos rebuscados na Tradição e nos Ilundu (espíritos), novas formas de tratamento da oposição ideológica e política, sem recorrer à TORTURA. Não pode haver libertação sem respeito pelos Direitos Humanos. A TORTURA é um crime contra a humanidade praticado no tempo colonial. Antes e depois do 27 de Maio de 1977, praticaram-se em Angola as mais cruéis e refinadas torturas contra seres humanos, muitos dos quais mulheres e crianças. Torturas que ninguém quer confessar. Se as não confessam não pode haver perdão. E pior, não as confessam, para dar continuidade aos crimes. Resumindo em concluindo: a África inteira, talvez com o apoio de instituições do Ocidente, deve refundar a organização de Unidade Africana, a chamada União Africana, permitindo cimeiras de intelectuais despartidarizados. Os movimentos de libertação, hoje partidos políticos, são os piores cancros contra a independência e a libertação. Eu tenho insistido neste ponto: se não se abolir a tortura e a morte gratuita de seres humanos em África, não se pode falar em Independência. E pode falar-se, sim, em luta de classes, num processo que, afinal, não conheceu aquilo que vulgarmente se designa como Colonialismo, nem aquilo que vulgarmente se designa como Independência. O que houve e há ainda agora é apenas a tal CRUELDADE dos homens, ilustrada pelo poema da obra Sagrada Esperança.