“Imorais”, “pornográficos” e ofensivos “da moral tradicional da nação”, são algumas das expressões que a PIDE utilizou para se referir aos livros aos quais pertencem estes poemas. Retirados dos livros O Vinho e a Lira, de Natália Correia, Canções, de António Botto, e Minha Senhora de mim, de Maria Teresa Horta, foram sujeitos ao lápis azul e a outros atos mais violentos de censura, como a queima do livro de António Botto num episódio que ficou conhecido como “Literatura de Sodoma”, ou a agressão física que Maria Teresa Horta sofreu às mãos de três elementos da PIDE que lhe disseram: “é para aprenderes a não escreveres como escreves”. Em memória da sua resistência em nome da literatura e da liberdade, hoje lemo-los e celebramo-los.
O Vinho e a Lira, de Natália Correia
A oriente sou toda lira
exacta dérmica solar
biografo-me a desenho à pena
com a tinta da estrela polar.
À maternidade da pedra
restituo a casa a levante
e o teu sorriso é navegável
sem rápidos de ciúme e sangue.
Por esse lado tive infância
e derreto a neve das fotografias
destapando o quebra-luz
de uma tépida estampa de tias.
A meu oriente de polido mogno
meu verso tem cadeiras e o habito
com amigos e respiram os móveis
um sossego de folhas de eucalipto.
A sul se eriçam as crinas
se ateiam os cascos do meu verso esquino
druídica me visto de visco lunar
matéria friável de cânhamo e vinho
essa a minha álea de longifólias
acácias à velocidade do crime
por ela em teu coro linha de comboio
me deito à espera que o amor se aproxime
esse o meu jusante de minério e tirso
esse o meu amigo o que não conheço
essa a minha casa a quer não habito
minha alma estrela meu nenhum endereço
Canções, de António Botto
Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.
Guarda
Para um momento melhor
Teu viril corpo trigueiro.
O meu desejo não arde;
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro...
A névoa da noite cai.
Já mal distingo a cor fulva
Dosa teus cabelos - És lindo!
A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!
Dá-me o teu braço: - não ponhas
Esse desmaio na voz.
Sim, beijemo-nos apenas,
Que mais precisamos nós?
Minha Senhora de Mim, de Maria Teresa Horta
Poema sobre o enredo
Enredada estou de mim
Nesta febre em que me vejo
Já que enredada de ti
Não se cura o meu desejo
Que nem me pus de curar
Este fogo do teu corpo
Não me pus de enganar
Esta sede que provoco
Pois logo desenredada
Eu sei que me enredaria
Neste vício de enredar
O meu espasmo em teu orgasmo
Por sua vez enredado na branda rede dos dias