5 poemas para celebrar o Dia do Autor Português

Por: Beatriz Sertório a 2024-05-22

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Investigações Novalis
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Publicação da mortalidade
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O Livro das Tréguas
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A Criança em Ruínas
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A Terceira Miséria
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Neste dia dedicado a homenagear os autores nacionais o Dia do Autor Português, comemorado anualmente no dia 22 de maio , destacamos uma faceta menos conhecida de cinco dos maiores nomes da literatura portuguesa contemporânea. Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, Lídia Jorge, José Luís Peixoto e Hélia Correia alcançaram um lugar cimeiro como romancistas no panorama literário nacional mas, para sorte dos seus leitores, também se aventuraram na arte da poesia. Fique com cinco poemas de cada um destes grandes autores portugueses.
 

A Grande Inteligência é Sobreviver, de Gonçalo M. Tavares

A grande Inteligência é sobreviver.
As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciência.
Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontânea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligência é sobreviver,
a tartaruga é Filósofa e Laboratório,
e o Homem que já foi Rei da criação
não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.

in Investigações Novalis

 

A Natureza Revolucionária da Felicidade, de Valter Hugo Mãe

quem deixou sobre o coração
um feixe de luz
não cega nunca 

in Publicação da Mortalidade

 

Sou de vidro, de Lídia Jorge

Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro


Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido


Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita

in O Livro das Tréguas

 

Fingir que está tudo bem, de José Luís Peixoto

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

in A Criança em Ruínas

 

A terceira miséria, de Hélia Correia

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

in A Terceira Miséria

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