Depois de uma demorada interrupção na sua produção poética, Maria do Rosário Pedreira regressa com O meu corpo humano, um livro cheio de beleza e iluminação, como uma aula de anatomia que procura os segredos de cada recordação. Selecionamos três poemas para aguçar a vontade de descobrir este corpo poético.
veias
Nas minhas veias corre vento – por
isso, dá-me um vestido inflamado de
rosas e ensina-me as horas do amor:
daqui até a morte é um instante.
***
peito
Todos querem saber se os meus
lábios ainda estão cheios dos teus
beijos, se as minhas mãos se abrem
ainda para as tuas nos passeios de
verão. Mil olhos me perguntam se
este corpo que vêem agora assim
amarrotado continua a receber-te
na cama, antes do sono, quando o
pano azul-escuro da noite cai sobre
o mundo e o vento leva as estrelas
para longe de casa. Não lhes conto:
o que há no meu peito é entre nós.
***
nádegas
Lembro-me e sinto tudo
novamente: passo a mão
pelo veludo das tuas calças
velhas e aperto as nádegas
firmes do passado. Não sou
só eu: as tuas roupas também
têm saudades