No dia em que completaria 66 anos, recordamos Ana Luísa Amaral e o seu olhar singular sobre todas as coisas. Nascida a 5 de abril de 1956, em Lisboa, publicou mais de três dezenas de livros, entre poesia, teatro, ficção, infantojuvenil e ensaio, e obteve várias distinções e prémios em Portugal e no estrangeiro, tais como o Prémio Literário Correntes d’Escritas, o Grande Prémio de Poesia da APE, ou o Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana. Recorde-a em três poemas reunidos na obra O Olhar Diagonal das Coisas, publicada em 2002, ano em que a autora faleceu, vítima de doença prolongada.
ENTRE AS DUAS E AS TRÊS
Queria falar do que não tem concerto:
as letras desenhadas e compostas
com que confundo o espaço do papel,
a angústia compassada no contar
e a súbita alegria de ser eu
penosamente, às duas da manhã
Queria escrever do que não tem lugar:
a branca, doce e sonolenta estrada
onde espaçadas as palavras crescem,
suavizadas pelo lento sono
que devagar percorre as coisas todas
penosamente, às duas da manhã
Queria dizer do que não tem conserto:
ou seja, eu; ou seja, o papel branco
sombrio agora por já ser demais,
as letras excedentes e sonoras
desmembrando o silêncio e a noite toda
penosamente, às duas da manhã
Só então falarei do que ficou:
compassada alegria desenhada
na angústia de dizer sem me contar,
o papel confundido de impotente
e todavia prontas as palavras.
Quase às três da manhã. Penosamente.
AMENDOINS
Não sou capaz. Bem tento que ele venha,
o tal olhar diagonal das coisas,
mas as pessoas surgem-me tão sérias,
tão capazes nos seus discernimentos.
À minha frente agora, por exemplo,
um grupo com cerveja e amendoins.
Se fosse um tempo antes, conseguia
fazer de amendoins um qualquer tema,
descascar um poema devagar
feito de amendoins, cerveja e gente.
Mas tudo me parece tão normal
e os amendoins coisas sensatas
[apanhados do prato vorazmente,
entre gestos nervosos e correntes
conversas baloiçadas]
MAL PENSO, LOGO EXISTO
Penso que sim, que o verso
desejado é o que mais resiste
ao vendaval da letra, que
a dor mais rente a tudo
a que se insiste e vive
no bolso do poeta.
Penso que sim, que ao pôr
a mão no bolso, de lá tirando
a dor em vez de rebuçado,
berlinde de mil cores
ou minúsculo
fósforo quebrado,
esse dirá também: Penso que sim.
Que as coisas se repetem
infinitas em círculo de lua,
que a minha dor, não sendo
igual à tua, é rente
a bolso igual.
Assim existo. Porque penso
mal, já que pensar que sim
em negação
é forma de negar
inevitável conta de hospital
após doença longa em quarto
a flores.
[E todavia, às vezes,
bem no fundo
do bolso:
cristalizado mundo.
Minúsculo berlinde
a cores.]