Ana Luísa Amaral em três poemas

Por: Beatriz Sertório a 2024-04-05

Ana Luísa Amaral

Ana Luísa Amaral

Ana Luísa Amaral nasceu a 5 de abril de 1956, em Lisboa. Autora de mais de três dezenas de livros, entre poesia, teatro, ficção, infantis e de ensaio, a sua obra está traduzida e publicada em diversos países. Obteve várias distinções e prémios em Portugal e no estrangeiro, como a Medalha da Cidade de Paris, a Medalha de Ouro da Câmara Municipal do Porto, por serviços à Literatura, o Prémio Literário Correntes d’Escritas, o Premio de Poesía Fondazione Roma, o Grande Prémio de Poesia da APE, o Prémio PEN de Ficção, o Prémio Vergílio Ferreira, ou, ainda, o Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana. Traduziu diferentes poetas, como Emily Dickinson, William Shakespeare ou Louise Glück. Foi professora jubilada da Faculdade de Letras do Porto e membro sénior do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, onde trabalhou nas áreas de poéticas comparadas e estudos feministas. Morreu a 5 de agosto de 2022.

VER +

10%

O Olhar Diagonal das Coisas
40,00€
10% CARTÃO LEITOR BERTRAND
PORTES GRÁTIS

No dia em que completaria 66 anos, recordamos Ana Luísa Amaral e o seu olhar singular sobre todas as coisas. Nascida a 5 de abril de 1956, em Lisboa, publicou mais de três dezenas de livros, entre poesia, teatro, ficção, infantojuvenil e ensaio, e obteve várias distinções e prémios em Portugal e no estrangeiro, tais como o Prémio Literário Correntes d’Escritas, o Grande Prémio de Poesia da APE, ou o Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana. Recorde-a em três poemas reunidos na obra O Olhar Diagonal das Coisas, publicada em 2002, ano em que a autora faleceu, vítima de doença prolongada.


ENTRE AS DUAS E AS TRÊS

Queria falar do que não tem concerto:
as letras desenhadas e compostas
com que confundo o espaço do papel,
a angústia compassada no contar
e a súbita alegria de ser eu
penosamente, às duas da manhã
Queria escrever do que não tem lugar:
a branca, doce e sonolenta estrada
onde espaçadas as palavras crescem,
suavizadas pelo lento sono
que devagar percorre as coisas todas
penosamente, às duas da manhã
Queria dizer do que não tem conserto:
ou seja, eu; ou seja, o papel branco
sombrio agora por já ser demais,
as letras excedentes e sonoras
desmembrando o silêncio e a noite toda
penosamente, às duas da manhã
Só então falarei do que ficou:
compassada alegria desenhada
na angústia de dizer sem me contar,
o papel confundido de impotente
e todavia prontas as palavras.
Quase às três da manhã. Penosamente.


AMENDOINS

Não sou capaz. Bem tento que ele venha,
o tal olhar diagonal das coisas,
mas as pessoas surgem-me tão sérias,
tão capazes nos seus discernimentos.
À minha frente agora, por exemplo,
um grupo com cerveja e amendoins.
Se fosse um tempo antes, conseguia
fazer de amendoins um qualquer tema,
descascar um poema devagar
feito de amendoins, cerveja e gente.
Mas tudo me parece tão normal
e os amendoins coisas sensatas
[apanhados do prato vorazmente,
entre gestos nervosos e correntes
conversas baloiçadas]


MAL PENSO, LOGO EXISTO

Penso que sim, que o verso
desejado é o que mais resiste
ao vendaval da letra, que
a dor mais rente a tudo
a que se insiste e vive
no bolso do poeta.
Penso que sim, que ao pôr
a mão no bolso, de lá tirando
a dor em vez de rebuçado,
berlinde de mil cores
ou minúsculo
fósforo quebrado,
esse dirá também: Penso que sim.
Que as coisas se repetem
infinitas em círculo de lua,
que a minha dor, não sendo
igual à tua, é rente
a bolso igual.
Assim existo. Porque penso
mal, já que pensar que sim
em negação
é forma de negar
inevitável conta de hospital
após doença longa em quarto
a flores.
[E todavia, às vezes,
bem no fundo
do bolso:
cristalizado mundo.
Minúsculo berlinde
a cores.]

 

X
O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?

O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.