Vamos ser pediatras por um dia? – com Rita Sousa Gomes

Por: Beatriz Sertório a 2025-12-02

Rita Sousa Gomes

Licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em 2007, completou o Internato Complementar de Pediatria Médica no Hospital Santa Maria em 2015. É pediatra geral e, ao longo da sua prática, desenvolveu especial interesse por áreas como a Alergologia e a Obesidade Infantil.
Além de pediatra, é mãe de duas crianças, uma vivência que moldou pro­fundamente a forma como exerce a sua profissão. Ser mãe trouxe-lhe uma perspetiva mais próxima das preocupações dos pais e mostrou-lhe como a empatia é tão essencial quanto o conhecimento técnico. É também cofundadora do projeto Bê à Bá da Pediatria, uma plataforma onde partilha conteúdos e reflexões para apoiar os pais no cuidado dos seus filhos.

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Quando algo não está bem, são eles quem te ajudam e cuidam de ti. Além de pediatra, Rita Sousa Gomes é mãe‚ cofundadora da página @be.a.ba.da.pediatria e autora do livro A minha pediatra cuida de mim, no qual fala sobre temas essenciais para um crescimento saudável, como a alimentação, o sono e o tempo de ecrã. Numa breve conversa, contou-nos como é um dia nesta profissão tão importante, em que a empatia é chave.

Como é um dia normal na vida de uma pediatra?

Um dia normal começa sempre muito cedo, entre preparar a casa e os meus filhos. As manhãs são uma pequena correria entre lancheiras, mochilas e fraldas, até os deixar prontos para a escola e a creche. Depois, começa o meu dia de trabalho no consultório, onde acompanho bebés e crianças de várias idades. Há dias em que passo de um recém-nascido de 5 dias para um adolescente de 15 anos, e é essa diversidade que torna cada dia único e especial. Procuro também manter-me próxima das famílias através das redes sociais, na página de Instagram @be.a.ba.da.pediatria, onde partilho informação de forma acessível e empática. E, no fim do dia, volto a ser apenas mãe, o que me lembra, todos os dias, do verdadeiro lado da pediatria: cuidar com o coração, dentro e fora do consultório.

Qual é a melhor parte deste trabalho? E quais os maiores desafios?

A melhor parte é, sem dúvida, poder acompanhar o crescimento de uma criança e ver a tranquilidade voltar ao rosto de um pai ou de uma mãe depois de uma consulta. É sentir que, de alguma forma, contribuo para famílias mais seguras e informadas. Mas este é também um trabalho muito exigente fora do horário do consultório. Depois das consultas, chegam as mensagens dos pais, com dúvidas, preocupações e pedidos de orientação, e é natural querer responder a todos com a atenção que merecem. Esse é um dos maiores desafios: equilibrar a entrega ao trabalho com o tempo de qualidade em família. A pediatria exige muito coração, e há dias em que é impossível não levar algumas histórias para casa. Também é desafiante manter o equilíbrio entre o rigor científico e a comunicação acessível, para que a mensagem chegue realmente aos pais.

Que conselhos daria a uma criança que sonha seguir esta profissão?

Diria para nunca perder a curiosidade nem a empatia. Ser pediatra é muito mais do que saber medicina: é saber ouvir, observar e comunicar. É preciso gostar de pessoas, especialmente das mais pequenas, e perceber que cada consulta é um encontro entre dois mundos: o da ciência e o da emoção. É também uma profissão que nos ensina a ser humildes. Aprendemos tanto com os pais e com as crianças quanto eles connosco.

No livro A Minha Pediatra Cuida de Mim dá vários conselhos sobre temas que preocupam os pais, como o tempo de ecrã. Tem algumas sugestões para as famílias limitarem os ecrãs durante as férias de Natal?

Sim, e começo sempre por dizer que o objetivo nunca é “proibir”, mas ensinar a usar com equilíbrio. As férias são uma oportunidade perfeita para reconectar: criar momentos em família com tempo de qualidade, sem ecrãs à mesa ou durante as refeições; propor atividades como cozinhar juntos, jogos de tabuleiro, passeios ou pequenas tarefas com os filhos; estabelecer regras claras, como horários específicos para ver desenhos animados, e envolver as crianças nessa decisão; e, talvez o mais importante, dar o exemplo. Os pais também precisam de se “desligar” um pouco para que os filhos aprendam a fazê-lo. O tempo de ecrã é um desafio dos tempos modernos, mas acredito que, quando há presença, vínculo e criatividade, a tecnologia deixa de ser o centro e volta a ser apenas uma ferramenta.

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