Em celebração do Dia Mundial da Biblioteca, comemorado a 1 de julho, fomos descobrir o que significa realmente ser bibliotecário. Zélia Parreira, natural do Alentejo, iniciou a sua carreira na Biblioteca Municipal de Moura em 1994 e exerce, desde 2014, o cargo de Diretora da Biblioteca Pública de Évora, a mais antiga biblioteca pública do país. Com ela, descobrimos os segredos deste ofício, que detém a chave para mudar o mundo.
Trabalhar rodeada de livros era um sonho de infância? O que a levou a escolher esta profissão?
Confesso que nem me atrevi a sonhar com isto. Era utilizadora da Biblioteca Municipal de Moura desde que aprendi a ler. Ia lá todos os dias, a Biblioteca sempre foi “casa”, para mim. Nem tinha pensado bem nesta possibilidade, nem no que deveria fazer para conseguir trabalhar numa biblioteca, mas, assim que surgiu a oportunidade, nem hesitei. Quando contei à minha mãe, muito surpreendida com a oferta que acabava de me ser feita, a resposta dela foi simples: “Sempre soube que irias parar à Biblioteca!”. As mães sabem tudo!
Que tarefas fazem parte do dia a dia de um bibliotecário?
Mais do que lidar com livros, é lidar com pessoas. As pessoas são a essência da nossa profissão. Tudo o que fazemos é para elas, é determinado pelos seus gostos, pelas suas necessidades, pelos seus hábitos. Por isso, ver a Biblioteca cheia de gente é a nossa maior alegria. Para atender as pessoas, escolhemos livros, que “tratamos” (significa que os carimbamos, registamos, catalogamos, etiquetamos e dispomos no seu lugar, à espera do público), acedemos e utilizamos fontes de informação presenciais e online, arrumamos os documentos (livros e outras fontes de informação) no seu lugar, para que os possamos encontrar quando alguém precisa deles. Também planeamos e executamos atividades de dinamização cultural. Procuramos conhecer bem a população que servimos, para organizarmos atividades que despertem o interesse da comunidade.
Qual é a melhor parte desta profissão? E quais os maiores desafios?
Para mim, a melhor parte é sentir que estou a contribuir para melhorar a vida das pessoas. A biblioteca mudou a minha vida. Foi lá que encontrei resposta para todas as minhas dúvidas e curiosidades. Mais tarde, foi na biblioteca que encontrei os livros de que precisava para estudar. Hoje, é onde encontro a minha realização pessoal e a oportunidade de devolver ou compensar tudo o que recebi. Sinto que estou a contribuir para um mundo melhor, mesmo que só consiga intervir aqui no meu cantinho. Como dizia Mário Quintana: “os livros não mudam o mundo. Os livros mudam as pessoas e as pessoas é que mudam o mundo”. É isso que eu tenho tentado fazer desde sempre e que vou continuar a tentar fazer.
O maior desafio é afirmar a importância da Biblioteca na sociedade, já que as pessoas acham, erradamente, que hoje está tudo no Google, ou no ChatGPT. O Google pode trazer cem respostas, mas a biblioteca oferece a resposta mais correta e adequada.
Que conselhos daria a uma criança que sonha seguir esta profissão?
Em primeiro lugar, que frequente a sua biblioteca e que intervenha na sua atividade: conheça os bibliotecários, dê a sua opinião, até pode fazer voluntariado. Depois, deve prosseguir os estudos na área que mais lhe interessar e complementar essa formação com uma especialização ou mestrado na área das ciências da informação. Como a maior parte das bibliotecas em Portugal depende da administração pública, é importante que, nalguma fase do percurso, seja admitido em concurso para funções públicas. Mas, depois de exercer, não pode parar: tem de se manter informado, atualizado (as bibliotecas sempre acompanharam a evolução tecnológica e social), participar em redes colaborativas, estabelecer ligação com outras bibliotecas e instituições nacionais e internacionais. É um percurso muito ativo (ao contrário do que as pessoas pensam) e no qual nunca se para de aprender.
Livros para futuros bibliotecários
Com a breca, há amor na biblioteca!, de Sara Ralha
Vamos Descobrir a Biblioteca Nacional de Portugal, de Luísa Ducla Soares
Como Criar uma Biblioteca, de Inês Fonseca Santos e André Letria