O Ponto de Interrogação entrevista... Catarina Sobral

Por: Carla Maia de Almeida a 2026-04-17

Catarina Sobral

Catarina Sobral

Catarina Sobral nasceu em Coimbra, em 1985. Estudou Design, fez um mestrado em Ilustração e, desde então, tem trabalhado como ilustradora e como autora de conteúdos para a infância. Irrequieta, Madalena Perdigão é o seu 20.º livro, e já publicou álbuns ilustrados em mais de quinze línguas. Escreveu e realizou dois filmes de animação, criou um espetáculo de palco para crianças e produziu um programa de rádio para a infância. Entre livros e filmes, já conta com umas dezenas de prémios. Como a Madalena Perdigão, também gosta muito de vacas. E é feminista.

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Catarina Sobral é uma superartista premiada que continua a observar o mundo com um olhar que é só dela. Um olhar simultaneamente atento, solidário e interventivo, do qual resultam ilustrações, palavras e filmes de animação. Tem cerca de 25 títulos publicados, em que, numas vezes escreve e desenha, e, noutras, ilustra o texto de outros autores. É o caso de As Pessoas São Esquisitas, escrito por Victor D. O. Santos, recém-editado em Portugal pela Orfeu Negro. O Ponto de Interrogação fez algumas perguntas a quem sabe que a arte é a melhor ferramenta para entender todas as esquisitices do mundo.

No último livro que ilustraste, mostras que toda a gente é esquisita quando vista de perto. No tempo das redes sociais, este é um manifesto para voltarmos a olhar para as pessoas reais, com todas as suas manias?

É uma interpretação possível. Sobretudo, é uma celebração das peculiaridades e personalidades não conformistas. Mas também questiona a nossa visão sobre o que é “certo” ou “normal” quando nos tornamos adultos. Por exemplo: a importância de ter um relvado perfeito ou o que significa ter poder. À medida que crescemos, começamos a entender o mundo à luz das ideias dominantes de cada época/ sociedade, que muitas vezes são reproduzidas sem que as questionemos. Mas uma criança questiona, e bem. Nesse sentido, o livro acaba por ser muito revolucionário. Fala sobre contradição, sobre desafiar o consenso.

De que forma a ilustração pode ajudar a explicar ideias complicadas, como a Constituição, a democracia ou as leis?

Pode mostrar exemplos ou explicá-las por metáforas visuais. Às vezes, escrever esses exemplos ou metáforas pode tornar o texto de um álbum ilustrado longo, emaranhado, maçudo ou difícil de ler em voz alta. E a ilustração pode sempre funcionar como contraponto, complementando o texto.

Num dos teus primeiros livros, Achimpa, brincaste com uma palavra inventada. Que palavra inventarias hoje para descrever o mundo confuso dos adultos?

Os adultos já inventaram tantas palavras confusas para o mundo deles (nosso?) que o descrevem tão bem… O mundo da pós-verdade, da necropolítica, da reifica-ção, da islamofobia, da sinofobia…

Além de seres feminista, que outras causas defendes?

Todas as que estão vinculadas ao feminismo; pelo menos, o Feminismo para os 99%, e que é interseccional (esta palavra também pode ser confusa, mas é importante). Porque a opressão de género não se deve só ao sexismo, preocupa-me também a luta de classes, a justiça climática, o anti-imperialismo, o antirracismo, o anticolonialismo, o anticapitalismo, o anti-heterossexismo, o antineoliberalismo.

Quando estás a desenhar, lembras-te mais da Catarina que foste aos oito anos ou da artista superpremiada que és hoje?

Lembro-me mais das crianças que conheço e de uma ideia de infância que não está necessariamente ligada àquela que eu vivi. Mas certamente que as duas Catarinas têm influência naquilo que quero contar às crianças de hoje.

Se tivesses de viver dentro de uma das tuas ilustrações, para que página de que livro te mudarias?

Pode ser para uma das ilustrações do livro Veganismo? Depois de tanta chuva, apetece-me ir para um sítio tropical. O crocodilo e a capivara são amigáveis, tenho a certeza.

Quais são as forças interiores que te movem e não te deixam desistir de ser artista num país onde nunca há dinheiro que chegue para a cultura?

Essa pergunta tem duas questões: porque é que sou artista e porque é que sou artista em Portugal. Respondo às duas. Eu não sou muito metafísica, mas sinto que sou artista porque tenho de ser. Tenho coisas para dizer, com palavras e com imagens, e fazê-lo no formato do álbum ilustrado para crianças faz-me feliz. E sou artista em Portugal porque o país ainda não me tratou muito mal.

Já disseste que só gostas de trabalhar no teu ateliê. Podes descrevê-lo, para nós imaginarmos?

Trabalho numas águas-furtadas. Tenho duas secretárias, uma para as coisas “sujas” (tintas, lápis, etc.) e outra para as “limpas” (computador, scanner, iPad). Basta rodar a cadeira 180º e mudo de uma para a outra. De um dos lados, duas janelas que abrem para uma varanda. Em oposição às secretárias, várias estantes da minha biblioteca de álbuns e livros ilustrados. Móveis de arrumação para desenhos, ilustrações nas paredes, cinco plantas, dois gatos.

Quais eram os livros e os desenhos animados que adoravas quando eras miúda?

Desenhos animados: Rua Sésamo, A Carrinha Mágica, Tom Sawyer, Wally Gator. O livro era o Toda a Mafalda.

O que gostas mais de desenhar? Pessoas ou casas? Ou outra coisa?

Animais!

É verdade que gostas de beber chá de alho? Isso é mesmo muito esquisito! Tens mais esquisitices que nos possas contar?

Não confirmo nem desminto! Tenho, sim: não consigo ir dormir sem lavar os pés.


Errata: Na versão impressa deste artigo, na Revista Somos Livros Infantil n.º 20, na página 12, onde se lê "feminismo tal como é entendido por 99% das pessoas", deverá ler-se "o Feminismo para os 99%".

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