O Ponto de Interrogação entrevista... Margarida Fonseca Santos

Por: Beatriz Sertório a 2025-11-11

Margarida Fonseca Santos

Margarida Fonseca Santos

Margarida Fonseca Santos publicou o seu primeiro livro para crianças em 1995. Desde então, tem escrito sobretudo para este público. Porém, escrever para adultos é fascinante, porque compreender a mente e as emoções, os sentimentos, é para si um estímulo constante, e, em 1996, ganha o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, com O Degrau de Cima. Além de autora, dá formação em desafios de escrita e pedagogia, na ótica do treino da mente, tendo sido uma das fundadoras do projeto Re-Word-It, onde estas três áreas se juntam para dar mais sentido à aprendizagem. Dos prémios literários recebidos, destaca–se o Prémio João Gaspar Simões, do Município da Figueira da Foz, em 2025, com o romance A Chave.

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Mais conhecida pela coleção A escolha é minha, Margarida Fonseca Santos é uma das autoras mais queridas do público infantojuvenil, com dezenas de obras publicadas e recomendadas pelo Plano Nacional de Leitura. No ano em que celebra 30 anos de carreira literária, e em que foi reconhecida com o Prémio Literário João Gaspar Simões, sentou-se com o Ponto de Interrogação para uma conversa muito especial sobre o poder transformador dos livros, da leitura e da escrita.


Antes da escrita, dedicava-se à música e ao ensino. Acredita, tal como Hans Christian Andersen, que “onde as palavras falham, a música fala”? Ou não há nada mais poderoso do que as palavras?

Sim, acredito. Às vezes, há fenómenos que nos transcendem, pois extravasam as palavras — ainda hoje não sei explicar por que razão a canção que compus, O Girassol, comove adultos e acalma crianças. Mas acredito muito no poder das palavras, no escondido poder das palavras, quando dão a liberdade ao leitor de construir sobre elas a sua visão da história, do mundo, que possibilitam que o crescimento interior aconteça.


Como surgiu a paixão pela escrita? Há algum autor ou livro da sua infância que a inspirou a seguir este caminho?

Acho que foram os livros e livros que devorei toda a vida, leio muito. Mas quando os meus filhos nasceram, e isso coincidiu com uma passagem muito dolorosa na vida da minha mãe, a escrita nasceu a duas vozes: uma, divertida e mágica, a que construí para nós quatro, e outra, mais sombria, a que me permitiu encontrar um caminho naquele sofrimento. Só publiquei porque insistiram comigo para que tentasse. Nunca imaginei fazer disso a minha principal ocupação.

 

Publicou o seu primeiro livro para crianças em 1995 e, desde então, nunca mais parou de escrever para este público. É mais desafiante escrever para crianças e jovens na era da internet e das redes sociais?

Não sinto essa pressão, são formas diferentes de comunicar, podem coexistir. Continuo fiel à minha ideia de missão na escrita para crianças e jovens: quero que os livros levem dentro formas livres de interpretar o mundo. O maior desafio consiste em respeitar o leitor, o ouvinte, sem moralismo, é muito fácil cair nessa esparrela de dizer o que devem pensar.

 

Tem também um projeto chamado Re-Word-It — Brincar —, com o objetivo de incentivar os jovens a escrever. Porque é tão importante cultivar este hábito desde cedo?

Acredito, acreditamos, que há um mito a atrapalhar a produção escrita. Escrever não é sinónimo de ser escritor. Escrever faz-nos bem, organiza ideias, permite-nos viver coisas que não experimentámos, compreender o outro através das palavras, repensar e refletir sobre a sociedade. É essa escrita que nos interessa, a que faz pensar, a que to- dos, sem exceção, podem fazer — à mão, risca e volta atrás, passa a limpo e risca de novo, a escrita que se rabisca num impulso, é assim que a própria escrita e, consequente- mente a leitura, cresce. Começar cedo interfere positiva- mente na criança, na escola, na aprendizagem.
 

"Escrever faz-nos bem, organiza ideias, permite-nos viver coisas que não experimentámos, compreender o outro através das palavras, repensar e refletir sobre a sociedade."


Uma das suas coleções de livros mais populares, A Escolha é Minha, aborda diversos desafios que costumam acompanhar o crescimento. Como transforma temas complexos em narrativas apelativas para crianças e jovens?

Acho que o segredo é este: escrevo para mim, não penso se vai ou não conquistar as crianças e os jovens. Se não me conquistar a mim própria, o livro não avança, e recomeço, recomeço muitas vezes. Na coleção, o lema é: não podemos escolher o que acontece na nossa vida, mas podemos escolher a forma como vamos reagir ao que acontece. Quero deixar caminhos abertos, nunca soluções e paternalismos. As histórias são contadas na primeira pessoa, com duas ou mais personagens. Encontramos visões por vezes muito diferentes do mesmo episódio, promovendo um olhar consciente do outro, do outro enquanto ser humano único. As conversas que surgem com estes livros, nas escolas, são tão profundas que percebo como se apoderam da história e vão mais além, é muito bonito.


Algo que está muito presente nesta coleção é o papel crucial da família, dos amigos e dos professores no processo de crescimento. Podem os livros servir de ponte para diálogos entre jovens, pais e educadores sobre temas difíceis?

Podem, sem dúvida. O poder da leitura, do livro. Cria diálogos internos e diálogos com os outros. É central, o papel da escola e dos pais e educadores. Os adultos não têm a solução, mas têm a capacidade de ouvir, de conversar, de apoiar, assim como os amigos e colegas. Tenho o sonho de ver a escola retomar esse papel, porque a vejo demasiado sufocada por burocracias e turmas com muitos alunos, nas quais o tempo para conversar é diminuto. Também acredito que as Bibliotecas Escolares são o coração da escola.


Há livros infantis que todos os adultos deveriam ler, e vice-versa, ou as histórias não escolhem idades?

Os livros para crianças, na minha opinião, deveriam captar o interesse do adulto. O contrário só pode acontecer com certos livros, pois os temas complexos podem não fazer sentido para as crianças. Mas não acredito em livros que todos devem ler. Cada leitor é único; o que acontece é termos livros que se destacaram para muitos leitores.


O seu livro Rua do Silêncio, que apelidou como o seu “preferido entre os preferidos”, tem como protagonista uma menina surda. A representação de personagens diversas nas histórias para crianças cria leitores mais empáticos?

Creio que sim. Mais conscientes, também, permitindo olhar a diferença e acolhê-la. Qualquer que seja a diferença, isso é importante. Gosto tanto dessa história, também para mim foi importante passar pela visão silenciosa do mundo.

 

No livro Não Me Magoas Mais, uma das personagens cria um Espaço para Ouvir o que Tens Sentido, uma caixa de correio em madeira, que recebe mensagens anónimas dos alunos. Nos tempos que correm, estaremos todos, jovens e adultos, a precisar de nos ouvirmos mais uns aos outros?

Sim, talvez essa seja a grande urgência social, a urgência no seio das famílias e das escolas. E pode ser um cantinho anónimo, como aquela caixa. Ou a Caixa da Gratidão, que modifica o bem-estar da escola. A pressa em que vivemos faz conselhos apressados, mas o que faz falta é que nos oiçam e que saibamos ouvir o outro. No fundo, nos livros, ouvimos outros, e isso marca-nos.


O Natal também já serviu de inspiração para uma das suas histórias, com um cão muito especial como protagonista (O Meu Primeiro Natal – Histórias do Frik). Gostaria de partilhar connosco um desejo para este Natal?

O meu querido Frik... Um desejo? Que a leitura em voz alta seja um caminho para conquistar leitores. Uma leitura em voz alta partilhada, em família, na escola. Que a leitura em voz alta não pare de crescer. Abençoado projeto Andante, que destapou o génio da palavra dita... em voz alta.
 

"Nos livros, ouvimos outros, e isso marca-nos."


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