Viver para contar, contar para viver

Por: Luís Ricardo Duarte a 2025-12-18

Jonathan Gottschall

Jonathan Gottschall

Jonathan Gottschall é Distinguished Fellow no Departamento de Inglês do Washington & Jefferson College. A sua escrita, na intersecção da ciência e da arte, tem surgido em órgãos como The New York Times, The New York Times Magazine, Scientific American, The New Yorker, Oprah Magazine, The Atlantic, The Chronicle of Higher Education, Science e Nature; e em programas como Radiolab, Morning Edition e National Geographic's StarTalk with Neil deGrasse Tyson.
É autor, ou editor, de oito livros. Storytelling foi Editor's Choice do The New York Times e finalista do Los Angeles Times Book Prize.

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A dúvida vem da Biologia, mas interessa também à Literatura, à Antropologia, à Sociologia, à História e, ao fim e ao cabo, a todos nós que damos corpo à Humanidade. Se a evolução das espécies foi impiedosamente utilitária, abandonando tudo o que se revelou sem função vital, "como o aparente luxo da ficção não foi eliminado da vida humana?". Eis a pergunta a que Jonathan Gottschall se propõe responder numa viagem pelas mais antigas, mas também pelas mais recentes, narrativas em que mergulhamos todos os dias e a toda a hora. Somos feitos de histórias. E vivemos para contá-las.

 É a capacidade de contar histórias, de guardar memórias e de as partilhar, de revisitar o passado e de perspetivar o futuro, que distingue a espécie humana de todas as outras. Uma diferença mínima, tendo em conta a composição do ADN, mas que faz toda a diferença. Em Storytelling — Como as Histórias nos tornam Humanos (Ed. Vogais), Jonathan Gottschall começa precisamente por recordar a hipótese que durante alguns anos animou estatísticos e outros apaixonados por números. Num cenário em que fosse possível capturar um macaco que pudesse viver para sempre e dar-lhe uma máquina de escrever, ao fim de muito (talvez mesmo muito, muito tempo) ele seria capaz de reproduzir, palavra por palavra, o Hamlet, de Shakespeare. Mais do que uma hipótese estatística, uma probabilidade, esta experiência, que chegou efetivamente a ser realizada (não com a duração da eternidade), revelou-se, afinal, mais uma narrativa com que a Humanidade se entretém desde tempo imemoriais. Na verdade, não é preciso procurar um primata para reproduzir o Hamlet, pois ele foi escrito por um, na sua variante de hominídeo bípede. E não demorou assim tanto tempo a escrevê-lo, se pensarmos na escala da evolução. Mas por que razão o fez?

Para responder a esta outra pergunta, Jonathan Gottschall recorre à sua paixão por histórias e convoca os vários saberes que acumulou ao longo da vida. Nascido em 1972, na Pensilvânia, nos Estados Unidos, é Distinguished Fellow no Departamento de Inglês da Washington & Jefferson College. Formou-se nas áreas da Biologia, da Psicologia e da Literatura, propondo novas leituras de grandes clássicos, como a Ilíada, de Homero. Em Storytelling, faz a síntese dessas abordagens multidisciplinares, centrando-se não em uma obra, mas na corrente narrativa que a Humanidade foi criando ao correr dos séculos.

Gottschall interessa-se por histórias (e nós, humanos, também) porque elas nos convocam imediatamente para outro mundo, outra realidade. Por mais que tente, como explica no primeiro capítulo, a mente humana é feita de imaginação, abre-se às possibilidades. "O escritor não é um arquiteto todo-poderoso da nossa experiência de leitura", sugere o autor. "O escritor guia a forma como imaginamos, mas não a determina". A partir do que lemos, a nossa imaginação expande-se, numa característica única que nos permitiu encontrar alternativas às nossas circunstâncias, fugir para terras do nunca, como Peter Pan, ou para territórios ainda mais improváveis. É uma tendência, ou aptidão, particularmente presente nas crianças, mas que se prolonga pela idade adulta. Com as histórias, podemos viver em conjunto, fazer alianças e responder, com fantasia, ao peso do trabalho.

"É a capacidade de contar histórias, de guardar memórias e de as partilhar, de revisitar o passado e de perspetivar o futuro, que distingue a espécie humana de todas as outras."

Ainda assim, a ficção não deixa de ser um enigma que nos percorre, tão profundos são os efeitos sobre a mente humana, como se sublinha no segundo capítulo dedicado aos impactos das narrativas no cérebro. Contamos histórias para ganhar vantagem, no sentido em que são “informação de baixo custo e experiência substituta”. Com elas, "aprendemos sobre a cultura e a psicologia humanas, sem os custos potencialmente insuportáveis de termos de adquirir essa experiência pessoalmente". Mas não é só isso. As histórias — basta ver os contos tradicionais infantis — também nos perturbam, viciam e colocam problemas que precisam de ser ultrapassados. Lançam enigmas que conquistam o leitor. É por causa deste último aspeto que as histórias, apesar de espelharem a vida, são muitas vezes um reflexo pálido dela. Elmore Leonard, conhecido autor de romances policiais citado por Gottaschall, chegou a descrever os seus romances "como a vida sem as partes aborrecidas". Aqui enquadradas na sua dimensão antropológica, não tanto nas suas infinitas possibilidades literárias, as histórias são uma "gramática universal" assente na ideia de conflito e resolução. Nas palavras do autor: "História = Personagem + Dificuldade + Tentativa de Escapar". Estas são dimensões e, por vezes, definições que Jonathan Gottschall apresenta, sem deixar de as problematizar. Para isso, lembra estudos, dá exemplos, cita livros, romances, contos, filmes e séries, numa noção muito abrangente de narrativa. Da mesma forma, fala de ficções convencionais, mas também das involuntárias que, ainda assim, são determinantes. No quarto capítulo, confrontam-nos com as histórias da noite, o reino dos sonhos e dos pesadelos, o país das quimeras e das angústias, o universo dos símbolos e das suas interpretações. No quinto, apresenta-nos os desvios da mente, quando se é tentado pelas teorias da conspiração ou domado pelas alucinações do pensamento.

Numa deambulação rigorosa e exaustiva, não são esquecidos, nos capítulos seguintes, os mitos e os livros sagrados, pela centralidade que tiveram e continuam a ter em diversas sociedades, e as "pessoas de tinta" (outro nome para personagens), pelo efeito que, para o bem e para o mal, podem ter. Quase a chegar ao fim, reflete-se ainda sobre a memória e os seus enganos, já que qualquer ser humano é a grande obra-prima da sua própria mente narrativa, uma invenção da sua imaginação: "as nossas histórias de vida estão sempre a mudar e a evoluir, a serem revistas, reescritas e embelezadas por um narrador que não é fiável. Somos, em grande medida, as nossas histórias pessoais. E essas histórias são mais verosímeis do que verdadeiras".

A fechar esta anatomia da arte de narrar, no último capítulo de Storytelling, Jonathan Gottschall indaga as potencialidades e ameaças do futuro, nomeadamente, as da realidade virtual, cada vez mais sedutora. "À medida que a tecnologia digital evoluiu, as nossas histórias — omnipresentes, imersivas, interativas — poderão tornar-se perigosamente atrativas", defende. "A verdadeira ameaça não é as histórias desaparecerem da vida humana no futuro; é as histórias virem a dominá-la por completo."

A história e as histórias da Humanidade continuam a ser escritas. Cabe ao leitor continuá-las todos os dias.

Jonathan Gottschall

As histórias que contamos desde tempos imemoriais são o campo de estudo de Jonathan Gottschall, investigador norte-americano nascido em 1972. Especialista em literatura e evolução, é Distinguished Fellow no Departamento de Inglês do Washington & Jefferson College, na Pensilvânia. O que tem singularizado a sua abordagem é a convocação de várias ciências para a análise das narrativas orais e escritas, num cruzamento multidisciplinar entre história, sociologia, antropologia, neurologia e psicologia. Além do percurso académico, tem escrito regularmente para jornais e revistas. Entre outras obras, publicou The Rape of Troy e The Professor in the Cage. Storytelling — Como as Histórias nos Tornam Humanos é o seu primeiro livro publicado em Portugal.

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