Tech Agnostic, de Greg M. Epstein, com tradução de Ana Pinto Mendes, chega-nos com o selo da Temas e Debates, tendo sido vencedor em 2024 de Prémios como o Artificiality Book e o Porchlight Business Book, na categoria de Big Ideas and New Perspectives.
"Hoje em dia, a tecnologia é a água em que nadamos, quer reparemos ou não que somos peixes."
A fé é, talvez, o superpoder da Humanidade — pode ler-se a certa altura. Uma assunção que poderia servir de máxima ou guia, mas a questão que se coloca, ao longo deste mesmo livro, é se, afinal, estamos a investir a nossa fé nas entidades erradas. Ou seja, voltamo-nos hoje para a tecnologia em busca de respostas da mesma forma que antes nos virávamos para as estrelas. Contudo, vivemos hoje tempos de um tremendo grau de indefinição, relativamente ao clima, às fronteiras geográficas, à mistura étnica, racial, religiosa, à nossa relação com o outro.
De obras, recentemente publicadas com informações pertinentes e assustadoras, sobre o futuro da Humanidade, no que concerne à tecnologia e, em particular, à inteligência artificial, destacaríamos Submersos ou Nexus. Submersos, de Bruno Patino, revelava números concretos relativamente a um futuro negro, ensombrados pela nuvem em que vivemos, assombrados pela falta de tempo num mundo de hiperabundância. Um dos paradigmas, paradoxal, que Patino expõe é como vivemos cada vez mais desconfiados de uma série de instituições — políticas, educativas, familiares, mas, por outro lado, deixamos as nossas vidas serem regidas por algoritmos que limitam as nossas escolhas. Acreditamos ter acesso a opções ilimitadas, no entanto, o algoritmo comanda-nos e, ao reduzir as nossas existências a um conjunto de dados sincronizados, remete-nos para uma existência virtual e digital.
Nexus, de Yuval Noah Harari, reforçava esse mesmo prenúncio de um futuro negro para a Humanidade, enquanto se permitir a ascensão desregrada da inteligência artificial, a primeira tecnologia que, além de poder criar arte e reunir informação (numa visão ingénua de que a informação é "a matéria-prima da verdade") é igualmente capaz de gerar ideias e decidir autonomamente, sem ser necessária nenhuma intervenção humana…
A inovação de Tech Agnostic é a forma como Greg M. Epstein, clérigo humanista (termo que prefere a agnóstico), autor do best-seller Good Without God, procura, ao longo de quinhentas páginas, explicar o que significa ganhar um pensamento crítico em relação a esta nova fé e fundamentar a necessidade dessa cautela. E, para o fazer, mergulha, logo nas primeiras linhas, no modo como o imperador Constantino deixou, com o Cristianismo, um legado que mudou a face do mundo.
Ressalta neste livro uma prosa honesta, em tom empático e humano, despido de pretensiosismo, ou não fosse Epstein um influente capelão humanista, desde 2005 ao serviço das populações estudantis da Universidade de Harvard e do MIT, em rápido crescimento, compostas de humanistas, ateus, agnósticos, pessoas não religiosas, etc. O autor confessa-se "ateu de profissão, pelo menos, no que toca às religiões e aos deuses tradicionais. Na religião da tecnologia, sou meramente agnóstico." (p. 32)
Este livro resulta de inúmeras conversas com centenas de pessoas e ao longo de vários anos, iniciado mais ou menos durante a pandemia e terminado na altura em que Biden ainda era presidente dos Estados Unidos.
O pensamento do autor é atravessado por uma ideia que pode, ou deveria, "ser penosamente evidente: a nossa cultura da computação tornou-se tão ubíqua e insular, tão devotada e devocional, que recicla repetidamente os tropos das religiões tradicionais, pois são estes os padrões que os seres humanos desenvolveram para lidar com as suas ansiedades diante da vida, da morte e do futuro. As nossas vidas são penosamente finitas e sujeitas à contingência de inúmeros fatores que escapam ao nosso entendimento, e ainda mais ao nosso controlo, e desejamos que as coisas fossem de outro modo, porque é reconfortante sentir que temos as rédeas do nosso próprio destino. Por isso, imaginamos que forças muito acima de nós se sujeitam à nossa lógica e, ao mesmo tempo, estão interessadas nos nossos pensamentos." (p. 77)
Epstein enfatiza, com enfoque nalguns perigos da alta tecnologia, a importância de manter distanciamento crítico de modo que se perceba que nem toda a tecnologia é boa. Vivemos numa era com um ritmo de mudança cada vez mais acelerado, na qual o poder se desviou do humano para o algoritmo, numa época da ascensão da inteligência artificial, que pode, muito certamente, representar a maior revolução da informação na História, em tempos perigosos de tecnologia de ponta e desinformação extrema, de mudança vertiginosa e tumultuosa, de extremismo religioso e capitalismo desenfreado.
Epstein afirma na introdução: "Hoje em dia, a tecnologia é a água em que nadamos, quer reparemos ou não que somos peixes." (p. 17)
O ser humano vê-se frequentemente rodeado por uma diversidade de produtos inteligentes, pensados para otimizar até à perfeição todos os pormenores do nosso ambiente, e, em simultâneo, deixa a sua existência diária ser manipulada por milhares de cookies que monitorizam todo o comportamento humano, desde o seu estado de espírito ao poder de compra. Afinal, o que é a internet hoje senão "algo que pode agarrar e levar as pessoas para outra dimensão aparentemente infinita?" (p. 21).
Como enfatiza o autor: "A tecnologia desempenha hoje um papel na vida quotidiana do cidadão comum que se assemelha sinistramente ao papel que as religiões desempenhavam nas vidas dos povos antigos e no início da modernidade. Tal como as religiões tradicionais em tempos faziam, a tecnologia está a moldar os nossos pensamentos, sentimentos, esperanças, medos, relações e futuro. (…) E tal como nos tempos das religiões de outrora, grande parte dessa modelação ocorre não no interesse da pessoa comum, mas no interesse das maiores corporações da história da humanidade, que são quem opera essa modelação." (p. 21)
Greg M. Epstein
Nascido em 1977, é capelão humanista da Universidade de Harvard e do Massachusetts Institute of Technology, onde presta aconselhamento a estudantes, professores e funcionários sobre questões éticas e existenciais segundo uma perspetiva humanista. Durante mais de duas décadas, construiu uma carreira ímpar como um dos capelães humanistas mais preeminentes no mundo. Foi o primeiro "eticista residente" do website TechCrunch e tem sido considerado "um símbolo da transição na maneira como os americanos se relacionam com a religião organizada" (The Conversation). Autor do êxito Good Without God, colabora regularmente com os média, como MIT Technology Review, CNN.com, The Boston Globe, The Washington Post, Popular Science, Nautilus, The Ink e Big Think.