"Este puto é do caraças", disse quem o ouviu, em 2003, no casting para a Operação Triunfo. O comentário, espontâneo, não podia ter sido mais certeiro. Dino D’Santiago, agora mais adulto, experiente e maduro, certamente mais consciente de si, continua a justificar o qualificativo, dentro e fora do palco. É um músico reconhecido internacionalmente, um cidadão empenhado, um embaixador de várias culturas. O livro que acaba de publicar, Cicatrizes (Ed. Arena), é mais um exemplo dessa voz que se faz ouvir por tudo o que tem de individual e de coletivo.
Este livro é outra forma sua de intervir politicamente, numa época cheia de ruído e de ódio. Sem hesitações, com coragem e humanidade, o músico, um dos mais destacados no espaço da Língua Portuguesa, da Lusofonia e da World Music, mostra as pedras que a vida lhe lançou ao caminho e a forma como foi capaz de prosseguir o movimento — "contínuo, imperfeito, sagrado" — de se tornar quem é e quem pode ser. Uma autobiografia, um ensaio, uma reflexão pessoal? Cicatrizes é, efetivamente, tudo isso, num livro que procura e define o seu próprio território. Nasce da fome de escrita do seu autor e da vontade de compreender a sua viagem, num constante diálogo com heranças e lutas que, ontem, como hoje, continuam a ser travadas por quem cresceu entre dois mundos. "Um testemunho invulgar", sublinha, no prefácio, a escritora Lídia Jorge. "Lê-lo provoca lágrimas e risos de alegria. Inicia-se como se fôssemos ler a história de um jovem bem-sucedido que lembra a vida difícil que deixou para trás, mas terminamo-lo sabendo que estivemos a ler a longa página de uma História entre povos."
O que singulariza Cicatrizes é a celebração dos muitos encontros que foram mudando a vida de Dino D’Santiago, numa relação intensa de entrega, respeito, admiração, aprendizagem e entreajuda. "São seus avós, seus pais, seus irmãos, suas mulheres amadas, seus filhos pequenos", como sublinha ainda a autora de O Dia dos Prodígios. "E seus amigos que lhe trouxeram os bons encontros e o ajudaram a construir a casa da sua vida onde entra, com a simplicidade de quem aceita a madrugada depois da noite, o caminho da celebridade." Para Dino D’Santiago, este livro é "o meu gesto de gratidão a quem me fez acreditar que valia a pena resistir ao peso, aos medos, às noites em que duvidei se havia luz depois do cansaço".
"Nasce da fome de escrita do seu autor e da vontade de compreender a sua viagem, num constante diálogo com heranças e lutas que, ontem, como hoje, continuam a ser travadas por quem cresceu entre dois mundos."
Composto por 50 textos, nem sempre com um alinhamento cronológico, Cicatrizes recorda um percurso raro, é certo, mas comum a muitos migrantes. Saídos de Cabo Verde, os pais de Dino D’Santiago fixaram-se em Quarteira, no Algarve, onde o futuro músico haveria de nascer, em 1982. A sua primeira realidade foi a do bairro de lata, onde os dias "eram forjados em ferro e chapa, não em ouro, a vida ali não era apenas uma questão de sobrevivência, mas de invenção".
Era preciso inventar uma outra vida, uma saída ou, simplesmente, um quotidiano para lá das fronteiras da miséria. Quando hoje reflete sobre o seu percurso, Dino D’Santiago também se espanta. Nada estava traçado e, no entanto, aconteceu. Os sonhos em que vivia (e que rompiam a realidade crua) concretizaram-se. Como? É a pergunta que fica: "Aqui estou, sem resposta para a única pergunta que realmente importa, como cheguei até aqui? Não vos posso dar uma explicação lógica, porque lógica não houve. Não sou personagem de um livro de autoajuda, não venci graças a estratégias mirabolantes. Fui avançando, sobrevivendo, de instante em instante, agarrado a um presente que me queimava por dentro".
A "urgência de ir" que caracteriza a sua vida é recordada em capítulos curtos, que muitas vezes se demoram numa aprendizagem, num momento, numa pessoa. Num primeiro grupo de textos, evoca-se a infância marcada pelo medo e a solidão, mesmo quando muito povoada; assim como a relação com os pais e os irmãos. É um confronto com o Dino que ficou no passado, mas visto agora com uma nova luz, aquela que descobriu com a paternidade recente. Dessas raízes, algumas valorizadas muito mais tarde, brotará uma árvore que cedo mostrará os seus frutos com a ajuda de professores e com uma apetência para o desenho e, mais tarde, para a música.
Apesar desses talentos que foi revelando aos poucos, Dino D’Santiago não tem reservas em partilhar os seus sentimentos, quer os de agora, de enorme apaziguamento, sintonia e empatia, quer os do passado. Durante anos, sentiu-se preterido ou, pior, pretorido, como o próprio sugere. É o tempo das marcas, dos abalos, das cicatrizes, visíveis e invisíveis, que dão sentido ao título. O tempo da exclusão, do racismo, às vezes, da indiferença.
A música, no entanto, veio em seu auxílio, assim como as muitas pessoas que se tornaram membros da sua família alargada, amigos e cúmplices. Com a música, a sua história de vida mudou de escala, aliada a uma combatividade que nunca o abandonou. A cada cicatriz, Dino D’Santiago reagiu e prosseguiu o seu movimento. Foi nessa deriva pessoal que se ligou à sua ancestralidade, a Cabo Verde, num verdadeiro (re)encontro identitário. "Crescer na língua portuguesa, crescer em Portugal, crescer com o peso de duas heranças que, tantas vezes, se cruzam, mas também se chocam, foi viver na fronteira do que poderia e não poderia ser", afirma o artista num dos capítulos. "Foi quando voltei ao crioulo de Santiago, ao Badiu que corre no sangue da minha terra, que encontrei o caminho para a minha verdadeira voz. E, nesse processo, fui percebendo que ser 100 por centro português e 100 por cento cabo-verdiano não era uma contradição, mas a afirmação de tudo o que sou. Sou um cidadão de duas pátrias, com o direito inalienável de ser inteiro em ambos."
E assim, passo a passo, se compõe o retrato de um artista que hoje tem uma audiência internacional, distinguido e nomeado em prémios de todo o mundo. Retrato ainda de alguém que se ergue "contra a corrente do medo" que caracteriza os anos mais recentes e a cacofonia que ela provoca. É por isso que cada canção esconde uma mensagem, uma esperança, um ideal. Para Dino D’Santiago, "a música é a oração dos que não têm igreja, o grito dos que não têm pátria, o refúgio dos que dançam na solidão". Ela nunca se pode tornar num produto sem nome, corpo ou memória, garante, para logo concluir: "Este é o tempo de decidir se queremos ser autores ou apenas ruído branco no imenso vazio das máquinas".
Com as cicatrizes todas reveladas, Dino D’Santiago mostra que segue o movimento da sua (e da nossa) humanidade.
Dino D’Santiago
Pela sua música e intervenção cívica, é um rosto conhecido, admirado e respeitado, um símbolo da cultura portuguesa com raízes em África e da cultura cabo-verdiana que se reinventa em Portugal. Nascido em Faro, em 1982, Dino D'Santiago mostrou cedo o gosto pela arte, primeiro no coro da igreja, depois, no rap e, mais tarde, na fusão dos sons do soul, hip-hop, batuku e funaná. Lançou o primeiro álbum, Eu e os Meus, em 2008, a que se seguiram Eva, Mundu Nôbu, Kriola, Badiu e Eva, a par de várias colaborações em outros projetos musicais. Por diversas vezes premiado, incluindo uma nomeação para os Grammy Latinos, é embaixador do Projeto VOAR, da UNICEF, e presidente da ONGD Mundu Nôbu. Cicatrizes, um relato autobiográfico, é o seu primeiro livro.