“Vós que viveis tranquilos / nas vossas casas aquecidas / vós que encontrais regressando à noite / comida quente e rostos amigos / considerai se isto é um homem”.
É assim que
Primo Levi
inicia o relato sobre a sua experiência enquanto prisioneiro dos campos de concentração de Auschwitz, no livro
Se isto é um homem
.
Localizado no sul da Polónia, Auschwitz, que foi o maior campo de concentração operado pela Alemanha Nazi, funcionou como uma verdadeira fábrica de morte, de maio de 1940 a janeiro de 1945. Embora o número exato de mortos seja impossível de determinar, estima-se que mais de um milhão de prisioneiros (entre eles, judeus — a maioria —, mas também prisioneiros políticos e criminosos comuns) perderam as suas vidas neste campo, sendo que a estimativa do número total de mortos no Holocausto chega aos 6 milhões.
Apesar de existirem inúmeros relatos da vida nos campos de concentração, as palavras são largamente insuficientes para descrever as atrocidades que neles foram cometidas. Levi manifestava a necessidade de se inventarem palavras mais duras do que fome, cansaço ou dor para aquilo que viveu. Já o judeu grego
Marcel Nadjari
, cujo testemunho foi descoberto dentro de uma garrafa, em 1980, fala num sofrimento que não só a linguagem não consegue descrever como
“a mente humana não consegue imaginar”
.
Escreve o filósofo
Edmund Burke
que
“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”
. Para
Elie Wiesel
, escritor e sobrevivente de Auschwitz, que recebeu o Nobel da Paz em 1986, apagar a memória do Holocausto é não só arriscar que o mesmo volte a acontecer, é
“matar duas vezes”
. É, por isso, fundamental a comemoração de datas como a da libertação de Auschwitz, assinalada a 27 de janeiro, e designada pela Assembleia Geral das Nações Unidas como o
Dia Internacional da Lembrança do Holocausto
.
É também por isso que ainda é tão importante ler e escrever sobre Auschwitz. Para que a memória daqueles que perderam as suas vidas injustamente perdure como uma mancha na consciência da Humanidade e, sobretudo, para que as gerações posteriores evitem cometer os mesmos erros. E para que quem conheça as histórias destes que a História injustiçou, ajude a manter viva a sua memória, partilhando-as e lutando por um futuro em que a sua repetição seja impossível. Como escrevia
Anne Frank
, também prisioneira de Auschwitz:
“Como é maravilhoso que ninguém precise de esperar um único momento antes de começar a melhorar o mundo.”