Apaixonada pela cultura clássica, Irene Vallejo (Saragoça, 1979), filóloga e escritora, nunca imaginou que o seu ensaio literário sobre os livros, O Infinito num Junco (editado em Portugal em 2020), atingisse em cheio o coração dos leitores, chegando aos quatro cantos do mundo, traduzido para mais de 30 idiomas. O romance O Silvo do Arqueiro (editado em Portugal em 2022, mas escrito antes de O Infinito num Junco) assume-se como uma recriação da Eneida, e uma homenagem a Vergílio, com uma abordagem contemporânea. Aproveitámos a sua passagem por Lisboa, aquando da Feira do Livro, para uma conversa com a autora.
“A imaginação que nos transporta ao passado também pode servir para nos levar ao futuro. Isto só é possível devido à sobrevivência das histórias, através dos livros.”
Diz n’O Infinito num Junco: “De certa forma, todos os leitores têm dentro de si íntimas bibliotecas clandestinas de palavras que deixaram a sua marca”. Que biblioteca clandestina traz consigo? Quais os livros que foram mais importantes para si, enquanto leitora?
É difícil responder a essa pergunta porque foram tantos e têm mudado ao longo do tempo, mas creio que o que mudou a minha vida foi o meu pai ter decidido contar-me a Odisseia, de Homero. Quando era pequenina, ele sentava-se na cama e contava-me um pedaço da história e da viagem. Como me contava pelas próprias palavras e não tinha um livro nas mãos, eu pensei que ele inventava a história para mim, com todos os detalhes maravilhosos: as sereias, o mar, a magia, a espera, a nostalgia, os naufrágios, os perigos…
Só depois descobri que existia um tal Homero (risos), que estava a tentar disputar com o meu pai a autoria da história. Como eu me interessava tanto por este tema, os meus pais começaram a contar-me muitas histórias da mitologia romana, nórdica, oriental… Este tema sempre significou muito para mim. Também sempre gostei do folclore dos contos tradicionais, porque abordam os nossos sentimentos, medos, esperanças, desejos, memórias, e as histórias que têm sobrevivido são as grandes histórias da Humanidade. Tento sempre que nos meus livros esteja presente essa fibra íntima, porque acho importante destacar o que nos une, todos os relatos dos contos e da mitologia sobreviveram ao longo da História, vindos de lugares tão longínquos e de épocas tão remotas porque falam do que é essencialmente humano e podemos sentir-nos hoje companheiros dessas personagens. As mitologias focam-se nas grandes semelhanças.
E não se perdem no tempo, fica sempre lá a essência…
A essência, exatamente! Ainda há pouco tempo, dizia a Pilar del Río que Saramago, na sua literatura, também criava sempre universos que não eram estritamente realistas, tendem a sair de contos, de lendas, onde se passam coisas surpreendentes e incríveis… Quando lemos as suas histórias, sentimos que está a falar de nós próprios.
Referiu que o objetivo de O Infinito num Junco passa por “explicar ideias muito complexas a todos os tipos de público”. Considera que esse objetivo foi cumprido?
Juguei que este seria o meu último livro. O meu filho tinha nascido com muitos problemas de saúde e eu tive de estar no hospital muito tempo. Pensei que se já é muito difícil viver da literatura quando tudo corre bem, então, quando temos um filho com problemas, pareceu-me que seria impossível. Este livro era a minha despedida, a minha forma de agradecer aos livros e à literatura tudo o que me tinham dado. Graças aos leitores, este não foi o desfecho, acabando por ser maravilhoso.
Tudo me parece espantoso. Pensei que o livro teria um impacto pequeno, humilde, que passaria despercebido e afinal foi uma grande surpresa, e ainda mais porque se acreditava que estávamos no fim da era da leitura, com o aparecimento dos ecrãs e dos telemóveis. Apesar de tudo isso, saber que este livro tocou o coração de tantos leitores significa que subestimamos o poder dos livros.
“Saber que este livro [O Infinito num Junco] tocou o coração de tantos leitores significa que subestimamos o poder dos livros.”
Enquanto escritora, qual o momento que mais a marcou até agora?
Bom, têm sido tantos ao longo destes meses… Durante o confinamento, devido à pandemia causada pela Covid-19, quando tudo encerrou e estávamos a viver momentos tão terríveis, curiosamente, os ecrãs tornaram-se amigos dos livros, porque através das redes sociais os leitores começaram a falar dos livros e do que estes significavam para si e como os distraíam da angústia, da preocupação. Partilhavam estas coisas comigo e criámos uma espécie de comunidade, ajudaram-me muito a enfrentar estes tempos difíceis.
Foi uma troca de ideias muito bonita, até porque quando se dizia que ninguém quer ler livros, isto veio provar o contrário, as redes sociais tornaram-se um espaço onde se formam comunidades literárias, onde as pessoas falam sobre livros e sugerem livros. Estou convencida de que não há rivalidade entre os ecrãs e os livros.
O TikTok tem vindo a contribuir muito nesse sentido, até criou um Clube de Leitura online. Tenho uma visão muito otimista de que as redes sociais e os livros se podem ajudar. Antigamente, a leitura era algo muito solitário e agora facilmente encontramos outras pessoas apaixonadas pela leitura. Um livro como o meu, que não tinha uma grande campanha de marketing associada, graças às recomendações online ganhou uma enorme projeção.
“Estou convencida de que não há rivalidade entre os ecrãs e os livros. “
“A Alexandria do Egito nasceu, como não podia deixar de ser, de um sonho literário, de um sussurro homérico” (in O Infinito num Junco, p. 28). Qual é o seu sonho literário?
O meu sonho literário tem sido tornado realidade. Desde pequena, sempre me quis dedicar à literatura, achava que era o melhor ofício possível: levantar-me de manhã, sentar-me no escritório e inventar mundos, viajar no tempo… O meu sonho literário era, sem dúvida, poder viver da literatura e poder escrever, fazer os meus projetos — ter também liberdade pessoal para o fazer. Como referi, acreditei mesmo que tinha acabado o meu tempo quando o meu filho estava doente, julguei que era um sonho demasiado grande para alguém como eu, que não vinha de uma família rica, sem recursos nem contactos. Recordo-me de estar a escrever O Infinito num Junco e achar que estava a terminar o meu percurso literário, por todos os desafios que a vida me tinha feito passar. Posso dizer que estou a viver um sonho tornado realidade.
Numa entrevista afirmou que “os livros promovem uma certa higiene da mente”. Sente que essa higiene, absolutamente necessária, se torna cada vez mais complicada num mundo que se move a uma velocidade estonteante, com tantos apelos tecnológicos?
Creio que os livros são, agora, mais importantes do que nunca, porque nos ajudam a livrar dos inconvenientes do mundo virtual e tecnológico. São grandes ferramentas. Eu, enquanto escritora, estou fascinada por poder consultar livros, artigos e bibliotecas, a partir da minha casa, graças à internet. No entanto, acho que a tecnologia tem alguns perigos, sobretudo para os jovens, e a leitura pode ajudar a contrariá-los. Quando lemos um livro, não há essa possibilidade de saltar de uma coisa para outra, de um assunto para o outro, que nos distrai a atenção tão facilmente. Quando estamos a ver imagens ou vídeos, não damos asas à nossa imaginação; com os livros, à medida que vamos lendo, vamos montando as imagens na nossa cabeça, imaginamos os lugares, as paisagens, os rostos das personagens, a voz e a sua forma de ser.
Por vezes, o problema das redes sociais é apresentar uma imagem perfeita, feliz, otimista da realidade. Os livros, por sua vez, ensinam-nos que toda a gente se sente só, que todos temos os nossos complexos, as nossas lutas, e, graças a isso, mostram-nos que o que está por trás da fachada da felicidade não é a realidade, e que estas adversidades fazem parte da vida; mostram-nos como temos de ir construindo a nossa identidade e personalidade, como muitas pessoas brilhantes também se sentiram muitas vezes incapazes ou sozinhas. Isso ajuda-nos a construir-nos a nós mesmos e não em comparação com as imagens perfeitas que vemos nas redes sociais. Acredito que a literatura é como uma confidência autêntica, onde exploramos os aspetos mais complicados desta aventura que é viver.
Atualmente, é tão necessária uma leitura que nos ajude a pensar sobre os assuntos, sobre nós mesmos, que nos motive a colocar-nos no lugar do outro. Isto é tão importante, sobretudo em democracia. Para além disso, aprendemos sobre outros mundos, outras culturas, outras realidades que não estão confinadas ao nosso ponto de vista. Tudo isto é muito importante no mundo atual. Não creio que devamos pensar numa rivalidade entre redes sociais e livros, ambos podem conviver. Os livros podem trazer imensos benefícios, mas só conseguem ter impactos positivos se lermos por prazer, se for por obrigação, não conseguimos manter o hábito e não estamos predispostos a ouvir e conhecer outros pontos de vista e ter acesso a tudo o resto. É por isto mesmo que acho tão importante incentivar os jovens a ler e não a entender os livros como um castigo, nem como uma obrigação.
“Não creio que devamos pensar numa rivalidade entre redes sociais e livros, ambos podem conviver.”
Disse que “um livro pode cumprir o sonho impossível da máquina do tempo”. Onde nos levarão os seus próximos livros. Já há destino?
Quando imaginamos a máquina do tempo, não nos damos conta de quão incrível é poder escutar as vozes dos mortos nos livros, podermos falar com uma pessoa do século XV ou XVIII, por exemplo. Podemos viver noutra realidade e espaço temporal completamente diferente dos atuais. Creio que a imaginação que nos transporta ao passado também pode servir para nos levar ao futuro, e isto só é possível devido à sobrevivência das histórias, através dos livros.
Quando apresentei o Silvo do Arqueiro, baseando-me em mitos e personagens clássicas, baseei-me em temas antigos que nos preocupam nos dias de hoje: a guerra, o exílio, o amor, a censura e a liberdade. Parece-me uma história tão bonita, em que um derrotado de uma guerra se converte no princípio de algo grande. É a história de um herói, mas é um herói que saiu derrotado. Creio que nos identificamos porque todos temos as nossas derrotas, vivemos épocas difíceis, vimo-nos obrigados também a emigrar, e creio que nos demonstra que a raiz das nossas preocupações é sempre a mesma e, portanto, podemos identificar-nos com qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, tornar-nos mais humanos e compreensivos uns com os outros.
“A raiz das nossas preocupações são sempre as mesmas e, portanto, podemos identificar-nos com qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, tornar-nos mais humanos e compreensivos uns com os outros.”