Mia Couto | "Na arte estamos sempre começando do zero"

Por: Marisa Sousa a 2021-08-03

Mia Couto

Mia Couto

Nasceu na Beira, Moçambique, em 1955.
Foi jornalista e professor, e é, atualmente, biólogo e escritor. Está traduzido em diversas línguas.
Entre outros prémios e distinções (de que se destaca a nomeação, por um júri criado para o efeito pela Feira Internacional do Livro do Zimbabwe, de Terra Sonâmbula como um dos doze melhores livros africanos do século XX), foi galardoado, pelo conjunto da sua já vasta obra, com o Prémio Vergílio Ferreira 1999 e com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas 2007. Ainda em 2007 Mia foi distinguido com o Prémio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura pelo seu romance O Outro Pé da Sereia.
Jesusalém foi considerado um dos 20 livros de ficção mais importantes da «rentrée» literária francesa por um júri da estação radiofónica France Culture e da revista Télérama.
Em 2011 venceu o Prémio Eduardo Lourenço, que se destina a premiar o forte contributo de Mia Couto para o desenvolvimento da língua portuguesa.
Em 2013 foi galardoado com o Prémio Camões e com o prémio norte-americano Neustadt.
Em 2020 foi galardoado com o Prémio Jan Michalski de Literatura, atribuído anualmente pela Fundação suíça Jan Michalski, tem o valor monetário de 50.000 francos suíços e inclui também uma escultura em madeira do artista nigeriano Alimi Adewale, e distingue a trilogia As Areias do Imperador, publicada em Portugal pela Editorial Caminho em 2015-2018.

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O pseudónimo nasceu na infância, quando se misturava com os gatos, acreditando ser um deles. Disse aos pais que queria chamar-se Mia e o nome ficou. António Emílio Leite Couto, que chegou a querer ser psiquiatra, define-se como biólogo a tempo inteiro e escritor nos intervalos. A escolha do seu novo romance, O Mapeador de Ausências (Caminho) como Melhor livro de ficção lusófona, pelos leitores  Bertrand, no âmbito da 5.ª edição do Prémio Livro do Ano Bertrand, deu o mote para a nossa conversa sobre ausências, infinitos e maravilhamento.


O Mapeador de Ausências foi eleito, pelos leitores Bertrand, o Melhor livro de ficção lusófona de 2020. O que significa para si esta distinção? 

Nem livros, nem escritores competem entre si. É difícil acreditar, pois, que exista um livro que seja melhor do que os outros. Mas é um grande orgulho saber que foram os leitores que escolheram, neste ano, um livro que foi buscar memórias da minha infância e da minha cidade. Este livro ajudou-me muito a entender-me a mim mesmo, na busca desse meu passado percebi que aquilo que chamamos ausências são, muitas vezes, inscrições fundas cuja existência desconhecemos. Aprendi a desconfiar não apenas das lembranças, mas, sobretudo, daquilo que me esqueço. O esquecimento é quase sempre uma mentira. 

 

“- Agora é que devo tratá-lo com distância - murmura ela. 

- Para que precisa de distância? 

- Para ter regresso.”  

O Mapeador de Ausências 

  

 

Este livro começou por ser uma homenagem à cidade da Beira, onde se fez contador de histórias, mas acabou por ser uma viagem às suas memórias e às suas ausências. Visitar ausências (principalmente as nossas) não é um processo doloroso? O que trouxe consigo dessa viagem afetiva? 

 Em parte, já respondi a essa pergunta. Para mim essa viagem às pessoas e aos lugares foi uma prova que me construí com base em certezas antigas que, afinal, foram uma invenção. Muito do que eu acreditava ter acontecido nunca chegou a ocorrer. Essa descoberta não foi, contudo, um processo doloroso. Pelo contrário, foi como se voltasse a nascer. Por exemplo, partilhamos entre eu e os meus irmãos a ideia de que o nosso pai foi uma pessoa ausente. É nossa convicção hoje que o que nos parecia distância e ausência resultava do seu modo gentil e delicado de viver. A sua falta de jeito para as coisas praticas foi, de longe, compensada pelo seu empenho em ser próximo das pessoas menos visíveis.  

 

“A poesia salvou-me porque harmonizou aquilo que me ensinaram a ver como irresolúveis conflitos.”  

 

Afirmou que, na escola, aprendeu a escapar, a “não estar onde estava”, acrescentando que, na sua avaliação, chegaram a escrever: “esse aluno nunca faltou, mas também nunca chegou a estar presente”. Confessou também:  “Eu acho que, em minha casa, meus pais me tinham como um retardado.” Em que lugar das ausências que revisitou arrumou a sua própria ausência?  

Não me posso julgar a mim mesmo. Mas vejo agora o quanto o meu pai existe em mim. As suas lições demoraram a se revelar na sua integridade. Com 86 anos e muito fragilizado, o meu pai levantava-se quando entrava um bisneto em sua casa. Até ao final da sua vida ele guardou um respeito quase religioso pelos outros, mesmo que fossem uma pequena criança de dois ou três anos. No momento em que aderiu à revolução ele sempre a grande dificuldade de ele ser um revolucionário. Nunca foi capaz de odiar, mesmo os mais fervorosos inimigos. Como já disse antes, foi preciso um tempo para entendermos que por detrás de uma aparente ausência havia uma inexcedível leveza.  

 

A escrita, manifestada aos 14 anos, aquando da criação do primeiro poema, passou a ser um superpoder que lhe permitiu estar onde não estava e não estar onde estava? Foi assim que aprendeu a alcançar infinitos? É também por isso que confessa que a poesia o salvou? 

A poesia salvou-me porque harmonizou aquilo que me ensinaram a ver como irresolúveis conflitos. Diziam-me que eu devia ter apenas uma identidade, que não podia caber dentro de mim a imensa diversidade de personagens profundamente caóticos e contraditórios. A poesia ajudou-me também a aplacar o medo de não entender o mundo e ajudou-me não temer a impossibilidade de se prever tudo. Os infinitos que a pergunta faz alusão alcançam-se nas coisas pequenas, nos breves momentos, nos vazios inúteis de que fala Manoel Barros 

 

“A mãe reparou que o menino 

gostava mais do vazio 

do que do cheio. 

Falava que os vazios são maiores 

e até infinitos.” 

 Manoel de Barros 

 

 

Numa outra entrevista disse que o seu pai “era uma ausência, mesmo quando estava presente, era ausente, sempre perdido nos seus livros".  Em que se perde o Mia? 

Nas pequenas histórias do quotidiano. Mantenho da infância essa avidez pela escuta de histórias. Na verdade, nunca ninguém escuta apenas uma história. Se há beleza na narrativa, essa escuta é sempre produtiva. Quem escuta está a criar. Ser escutador de história é uma arte. É o princípio de todas as artes.  

 

O seu pai era poeta e tinha uma ligação forte à literatura, mas o Mia afirma que a sua mãe é “a autora de todas as minhas histórias".  Quer explicar?  

A minha mãe tinha uma imaginação prodigiosa, era uma “performer” e sabia intuitivamente da arte de contar histórias. Começava com o relato da sua própria vida. Escutámos essa narrativa centenas de vezes e havia sempre um condimento novo, um ingrediente de surpresa, uma revelação que nos encantava. Mais do que um entretenimento ela ensinou-nos que não havia um único passado. Aprendemos com ela que os chamados “factos” só se tornam verdade depois de passarem pelas malhas da ficção.  

 

Defende que Guimarães Rosa veio abrir caminho a uma forma de fazer literatura que deixa entrar as “vozes não cultas, as vozes das pessoas do campo”, permitindo-lhes “remexer na história e no próprio narrador.” Por outro lado, Jorge Amado ajudou-o a “encontrar outro sabor da língua”. É nesta literatura que se sente em casa?  

O meu pai era um poeta, os seus livros estão marcados pelas grandes influências que na altura marcavam uma certa intelectualidade portuguesa. As minhas primeiras leituras foram da poesia portuguesa e da tradução dos poetas espanhóis e franceses. O meu pai traduzia ele mesmo alguns desses poetas para que pudéssemos partilhar do prazer que ele sentia. Nomes como Garcia Lorca, Cernuda, Baudelaire, Miguel Hernandez, René Char, Jacques Prevert surgiram na nossa casa antes mesmo de entendermos o que era a França e a Espanha. De Portugal, Sophia, Pessoa e Eugénio de Andrade foira decisivos. Depois chegaram os brasileiros, por via da poesia e da prosa. Hoje sinto-me em casa e em família com os autores que desconhecem a fronteira entre prosa e a poesia.  

 

“Hoje sinto-me em casa e em família com os autores que desconhecem a fronteira entre prosa e a poesia.”

 

O que é essencial para manter vivo (e feliz) o verbo BRINCRIAR (jogar com as palavras), que gosta de ter por perto? 

Recorro uma vez mais ao brasileiro Manoel de Barros que diz que fazer poesia é aceitar errar bonito. A criação tem algo de parecido com a mutação genética. A mutação pode ser entendida como o erro na replicação dos códigos. Esse erro pode ser fatal, em certos casos. Sem esse erro, porém, não haveria evolução. Não havia diversidade. Não havia vida. A beleza está na fronteira que separa a regra do acaso.  

 

Professa regularmente a relação “de maravilhamento que tem com o mundo” e afirma que a beleza tem o poder de o comover até às lágrimas.  Que pequenas insignificâncias e grandes acontecimentos o comovem, hoje em dia? 

O encontro de almas gémeas no meio da infinita multidão e dos infindáveis desencontros que caracterizam a mobilidade do nosso tempo. Esse é um motivo de maravilhamento. Mas o oposto também me encanta: o espectáculo da diversidade humana. Por vezes, numa sala de aeroporto, num banco da rua entretenho-me com a contemplação da variedade de rostos e de corpos da gente que passa. Essa capacidade de produzir singularidade, de forma a que cada pessoa seja absolutamente única. E a nossa aptidão em buscar, de forma quase instantânea, a peculiaridade do rosto, dos olhos, das mãos. Tudo isso me fascinou desde criança.  

 

Diz que escrever é uma coisa próxima de amar: “nunca se tem experiência em amar. Ama-se sempre pela primeira vez e com risco, com esta coisa que parece que é a última vez.” Depois de todos estes anos, cada livro continua a ter o sabor das primeiras vezes? Que livro está por acontecer? 

A ideia é publicar ainda este ano um livro de contos. Essa obra nova apenas confirma o sentimento que cada livro nos surpreende sempre desamparados. Na arte estamos sempre começando do zero. De outra maneira, não me apeteceria continuar a escrever .  

 

"Em tempos antigos, os chamados "guardiões do fogo", em momentos de chuva e vento, arqueavam o peito sobre um punhado de chamas que traziam entre as mãos.

Defendiam com a própria vida esse pedaço quente e luminoso de eternidade.

No nosso tempo outros há que são escolhidos para guardar um outro fogo: a história do que fomos e de quem somos.

Esses anónimos guardiões das histórias buscam, entre os escombros, a palavra redentora.

Eles sabem: tudo o que não se converte em história se afunda no tempo."

 

O Mapeador de Ausências

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