Não precisamos de pais perfeitos, mas sim de pais “suficientemente bons”. Foi o pedopsiquiatra britânico Donald Winnicot que primeiro defendeu esta tese que Pedro Strecht retoma para o seu mais recente livro. Depois de Pais Sem Pressa (2018), no qual o médico de psiquiatria da infância e adolescência faz uma apologia da pausa numa sociedade cada vez mais acelerada, Strecht volta a apontar a necessidade de um novo paradigma na parentalidade. Pais Suficientemente Bons (Para Filhos Que Não Têm de Ser Perfeitos) rejeita a ânsia de perfeição dos pais de hoje e a pressão que estes exercem sobre os filhos, defendendo uma abordagem mais saudável e empática da parentalidade.
Partindo do livro, compilamos três ideias essenciais que deve reter para começar a aprender a pôr em prática a parentalidade suficientemente boa e libertar-se do fardo da perfeição.
Os pais suficientemente bons
Afinal, o que são pais suficientemente bons? Segundo Donald Winnicott (1896-1971), são aqueles que cumprem a sua responsabilidade de satisfazer as necessidades do seu filho para que este possa constituir-se enquanto sujeito autónomo, mas ao mesmo tempo também falham, assumem os seus erros e corrigem-nos continuamente. E é através do somatório dessas falhas, seguidas de todo o tipo de cuidados que depois as emendam, que conseguem criar e manter um padrão de comunicação e relação saudável com a criança.
Um pai ou mãe suficientemente bom é aquele que se envolve emocionalmente com seu filho, oferecendo-lhe segurança, apoio e orientação, mesmo que cometa erros ao longo do caminho. A chave não é a perfeição, mas sim o amor incondicional.
“Fazer bem” não significa não falhar
A ideia de “estar a fazer bem” é mais uma que Donald Winnicot associa ao conceito de pais suficientemente bons e que Pedro Strecht desenvolve no seu livro. Segundo este conceito, a ideia de “estar a fazer bem” inclui em si a possibilidade de falhar, de não estar sempre disponível e de frustrar em pequena dose a criança pela qual se sente o que o pedopsiquiatra britânico definiu como “amor incondicional”. É perfeitamente natural os pais, sendo seres humanos e, por isso, obrigatoriamente imperfeitos, terem dúvidas, hesitarem nas decisões a tomar e por vezes falharem, e isso ter até um impacto indesejável, mas passageiro na vida dos filhos. Também os filhos devem ter espaço para cometerem falhas e aprender com elas, em vez de serem tratados como um investimento económico para o qual tem obrigatoriamente de existir um retorno.
Segundo Strecht, é crucial recentrar pais e filhos naquilo que é realmente essencial, e olhar para o tempo como algo de importante e contínuo, ao longo do qual se pode ir revendo certos trajetos.
A importância de saber estar só
Outra epidemia que o autor aponta nos pais de hoje é a necessidade de ocupar constantemente os tempos-livres das crianças, impedindo-as assim de aprender a estar a sós ou de simplesmente não terem nada para fazer. Para o autor, esta é uma capacidade essencial que os pais devem reaprender nesta era das redes sociais em que estamos permanentemente ligados, e, por sua vez, ensinarem aos seus filhos. É nestes momentos de solidão que podemos guardar e digerir experiências anteriores, de modo que estas façam sentido e adquiram espaço na memória de uma construção emocional individual e coletiva.
Por essa razão, não se torna um pai ou mãe pior por não manter o seu filho constantemente ocupado ou por não passar com ele as 24 horas de cada dia. Para o médico e autor, é fundamental que os pais abdiquem da ideia de que podem e devem controlar tudo, e estar sempre presentes e disponíveis para que o estatuto de “bom pai” seja atingido, tal como o de “bons filhos” que todos os pais desejam ter.
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