Disse a poetisa Matilde Campilho que "[a] poesia não salva o mundo. Mas salva o minuto." Mas os poetas, como os amantes, acreditam que existe uma força maior, capaz de o fazer, à qual foram dedicados inúmeros versos ao longo dos tempos. Nos dias que correm, o amor, como a poesia, pode ser um antídoto: contra a dureza das palavras que ouvimos diariamente na televisão; contra a frieza de um mundo reduzido a números, percentagens e estatísticas; contra a distância e a saudade, que vão de um ecrã a outro; contra o medo; contra a solidão e contra o ódio.
À convicção de Lawrence Ferlinghetti, de que "[a] poesia é a distância mais curta entre duas pessoas", respondemos com uma de Afonso Cruz: "o amor aproxima as pessoas e ficamos todos do mesmo tamanho". Se existe salvação para o mundo em que vivemos, acreditamos piamente que pode ser encontrada, nem que seja por breves instantes, algures entre as páginas de um livro de poesia, com a companhia de um copo de vinho, e a promessa de dois corpos entrelaçados. Dedique estes poemas a alguém de quem gosta, ou guarde-os para si, como recordação constante de que o amor e a poesia salvam.
1.É isto o amor, de Nuno Júdice
Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.
Nuno Júdice é hoje uma das vozes mais valorizadas e singulares da literatura contemporânea, pela sua permanente luta contra o indizível da palavra e da poesia. A sua obra foi distinguida com alguns dos mais importantes prémios de poesia portugueses, entre eles, o Pen Clube (1985), o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1994), e o Prémio Reina Sofia de Poesia Ibero-Americana (2013), tornando-se, o segundo escritor português, depois de Sophia de Mello Breyner Andresen, a ser contemplado com este galardão.
2. Morrer de amor, de Maria Teresa Horta
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
Nascida em 1937, Maria Teresa Horta é, para além de romancista, jornalista e uma das mais importantes vozes poéticas do feminismo português. Juntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa que, com ela, formavam as Três Marias, escreveu o controverso Novas Cartas Portuguesas, expondo ao mundo a repressão e a discriminação que era exercida sobre a mulher durante o regime do Estado Novo. Como poetisa, fez parte do grupo Poesia 61, uma revista de poesia na qual figuravam outros grandes nomes da literatura como Fiama Hasse Pais Brandão ou Gastão Cruz, tendo gerado, novamente, controvérsia com a sua poesia erótica e feminista.
3. O amor bate na aorta, de Carlos Drummond de Andrade
Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.
Meu bem, não chores,
hoje tem filme do Carlito.
O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca,
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…
Nascido em Itabira, no Brasil, em 1902, Carlos Drummond de Andrade foi contista, cronista e um dos principais poetas da segunda geração do Modernismo brasileiro. Como poeta, estreia-se em 1930 com Alguma Poesia, obra à qual se seguem Poesia até Agora e Fazendeiro do Ar (1955), onde se reúne, entre outros, A Rosa do Povo (1945), uma das obras mais expressivas do movimento modernista brasileiro. Como contista, é mais conhecido pelo livro Contos de Aprendiz (1951), escrito com o humor e ironia que são tão característicos da sua ficção.
4.São um perigo as palavras, de Alice Vieira
Sempre amei por palavras muito mais
do que devia
são um perigo
as palavras
quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada
e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos
um perigo
as palavras
mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero
Alice Vieira é poetisa e uma das mais importantes escritoras portuguesas para jovens. Nascida em 1943, em Lisboa, recebeu, em 1979 o Prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança com Rosa, Minha Irmã Rosa e, em 1994, o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra. Foi indicada, por duas vezes, como candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen (o mais importante prémio internacional no campo da literatura para crianças e jovens).
5. Para ti, de Mia Couto
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
Natural de Moçambique, onde nasceu em 1955, Mia Couto é biólogo e o autor mais traduzido do seu país. Escreve poesia, contos, romances e crónicas, tendo sido distinguido com múltiplos prémios pela sua obra. Entre estes contam-se, a título de exemplo, o Prémio Vergílio Ferreira, em 1999, o Prémio Eduardo Lourenço, em 2011, e o Prémio Camões, em 2013. É autor de quatro livros de poesia.
6. Ausência, de Pablo Neruda
Ainda mal te deixei,
e vais comigo, cristalina
ou trémula,
ou inquieta, ferida por mim mesmo
ou cheia de amor, como quando os teus olhos
se fecham sobre o dom da vida
que sem descanso te entrego.
Meu amor,
encontrámo-nos
sedentos e bebemos
toda a água e sangue,
encontrámo-nos
com fome
e mordemo-nos
como morde o fogo,
deixando-nos feridos.
Mas espera por mim,
guarda-me a tua doçura.
Dar-te-ei também
uma rosa.
Embora originalmente tenha sido um pseudónimo de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, o poeta chileno Pablo Neruda acabou por adotar legalmente o nome com que ficou conhecido como um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX. Em 1971, foi consagrado com o Nobel da literatura por “ser autor de uma poesia que, por ação de uma força elementar, dá vida ao destino e aos sonhos de um Continente".
7. Coisa amar, de Manuel Alegre
Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
Manuel Alegre, nascido em 1936, é um escritor e político português. Em 1999, foi galardoado, juntamente com o fotógrafo José Manuel Rodrigues, com o Prémio Pessoa 1999, por ser uma referência da poesia portuguesa do nosso tempo. Recentemente, um poema seu, sobre a cidade de Lisboa em tempos de pandemia, tornou-se viral nas redes sociais.
8. Devagar te amo, de Pedro Tamen
Devagar te amo, e devagar assomo
os dedos à altura dos olhos, do cabelo
dos anéis de outro turno, que é só meu
por querê-lo, meu amor, como a ti mesma quero
nos tempos de passado e sem futuro.
Devagar avanço um dealbar de dias
que vida seriam - mesmo que morto, à noite,
eu voltasse amargurado mas presente,
calado e quedo, e devagar amando.
Poeta e tradutor literário, Pedro Tamen, nasceu em Lisboa em 1934. Entre as distinções que a sua obra poética já mereceu, contam-se o Prémio D. Dinis (1981), o Prémio da Crítica (1991), ou o prémio PEN Clube (2000), associação da qual foi presidente.
9. Num domingo em que passaste na minha rua, de Natália Correia
Num domingo em que passaste na minha rua
e os prédios se afastaram para que
me raptasses por cima das árvores
Na límpida tarde orlada
por minhas pestanas imóveis
tua aparição abre uma estrada
de damasco por entre os automóveis.
Apareces e logo adquires
em minha eclíptica visual
a lassidão equinocial
que espalha a cor na minha íris.
Apareces como o começo
de qualquer coisa interminável
de tão importante é tão frágil
teu vulto que nem estremeço.
Apareces como se gentil-
mente viesses para apanhar um trevo
e o domingo almofada anil
cede à tendência do teu perfil
de ficares num baixo-relevo.
Nascida em São Miguel (Açores), no ano de 1923, Natália Correia foi poetisa, ficcionista, contista, dramaturga, ensaísta, editora, jornalista, cooperativista, e deputada à Assembleia da República. Para além de ter sido uma das vozes mais proeminentes da literatura portuguesa da segunda metade do século XX, foi também uma crítica feroz do regime do Estado Novo, tendo sido apreendida pela PIDE e condenada a 3 anos de pena suspensa, pela sua Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica.
10. Soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Nascido no Rio de Janeiro, em 1913, Vinicius de Moraes foi um poeta, dramaturgo, jornalista, diplomata, cantor e compositor. Autor de uma obra vasta, passando pela literatura, teatro, cinema e música, é uma referência incontornável da cultura popular brasileira, tendo convivido e trabalhado com personalidades como Chico Buarque, Tom Jobim, ou Carlos Drummond de Andrade.
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