A 26 de março celebra-se o Dia do Livro Português, data que homenageia a impressão do primeiro livro em Portugal. Criada pela Sociedade Portuguesa de Autores, esta celebração destaca a importância do livro e da língua portuguesa na nossa cultura.
Para destacar a data, convidámos quatro autores portugueses a partilhar o livro, ou livros, que influenciaram o seu percurso na escrita. A cada um lançámos também uma pergunta personalizada.
Criador do inspetor Bruno Saraiva, Lourenço Seruya, é um dos nomes de referência no policial português, através das suas obras marcadas por investigações densas e ambientes carregados de tensão.
1. Houve algum livro que tenha mudado a forma como olhas para a escrita ou te tenha aproximado da vontade de escrever?
A resposta que me surge de imediato são os livros da Agatha Christie. Todas aquelas histórias policiais me encantaram e me fizeram sonhar com a escrita e despertaram em mim a vontade de também escrever histórias policiais. Posso particularizar e referir alguns livros dela: O Crime no Expresso do Oriente, As Dez Figuras Negras, Morte no Nilo, e O Natal de Poirot.
2. Se pudesses colocar um leitor dentro de uma cena de Morte nas Caves, qual escolherias e porquê?
Se eu pudesse colocar um leitor dentro de uma cena da morte nas caves, eu escolheria duas cenas, na verdade:
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Escolheria a cena em que é encontrado um cadáver no túnel que atravessa as caves, porque, sem dúvida nenhuma, é uma das cenas mais impactantes da história, e, portanto, eu acho que seria interessante para um leitor estar nessa cena.
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E, por outro lado, escolheria a última cena do livro, que acontece nos jardins do Palácio do Cristal, durante a Feira do Livro do Porto. Eu acho que é um sítio que qualquer leitor gosta, uma feira literária, e, portanto, tenho a certeza de que os leitores adorariam estar nesse local, nessa feira especificamente.
A autora de Terra Estreita e Aquilo que o Sono Esconde, Mafalda Santos constrói narrativas marcadas pela introspeção e pela exploração dos lados mais silenciosos da experiência humana.
1. Houve algum livro que tenha mudado a forma como olhas para a escrita ou te tenha aproximado da vontade de escrever?
Se há um livro que me influenciou toda a vida, não só como leitora, mas hoje também como escritora é o Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago, porque José Saramago tem uma coisa que me interessa muito, a escrita dele é muito oral, muito teatral. Eu não sei se já fizeram a experiência de ler José Saramago em voz alta, mas se não fizeram, aconselho-vos a experiência porque há algo que ganha vida quando lemos em voz alta José Saramago.
Porque a escrita dele é muito musical e eu procuro também essa música, esse ritmo, essa precisão das palavras quando escrevo. E, há outra vertente na escrita dele que me agrada muito e que me influencia, nas suas distopias ou nos géneros em que utiliza, digamos, algum fantástico, ele olha sempre para o presente, com uma lucidez que me interessa muito e que também exploro.
2. Sabemos que costumas começar a escrever lendo em voz alta o que escreveste no dia anterior. Algum destes momentos já te fez mudar o ritmo da narrativa?
Talvez seja por vir do ambiente do teatro, por ter formação como atriz, mas o que é certo é que eu, para escrever, preciso de ler em voz alta, porque há uma dimensão das palavras que só vem ao de cima quando é dita, quando é falada. E por isso, eu começo os meus dias de escrita sentando-me à frente do computador e lendo em voz alta aquilo que escrevi no dia anterior.
E ao fazê-lo percebo inevitavelmente e de forma muito, muito evidente o que é que está fora do lugar, o que é que precisa de ser reescrito ou até apagado. E as personagens ganham vida através da minha voz e guiam-me de uma forma muito clara e muito desafiante para mim, e sempre numa própria procura de verdade, porque ao dizer as palavras em voz alta percebemos claramente o que é que alguém não diria ou não diria daquela forma, ou o que é que ainda não está preparado para dizer.
Portanto, sem dúvida que ao ler em voz alta sou influenciada no ritmo e na própria definição das personagens.
O Autor de Sem Perdão, André Braga, é uma das vozes emergentes do policial e traz-nos uma narrativa intensa e cheia de suspense, onde a construção do mistério assume um papel central.
1. Houve algum livro que tenha mudado a forma como olhas para a escrita ou te tenha aproximado da vontade de escrever?
O livro que mais me marcou foi, sem dúvida o O Hipnotista, de Lars Kepler, quando o li há mais de uma década. A forma como o autor começa o livro, eu pensei “Ok, é isto que eu gosto de ler” e, posteriormente, escrever.
E, mais recentemente, O Assassino do Crucifixo, de Chris Carter, é tudo aquilo que eu gosto de ler e de escrever. Tornou-se facilmente o meu livro favorito.
2. Sendo o teu primeiro policial publicado, qual foi o maior desafio entre a ideia para a história e torná-la credível para o leitor?
A parte mais complicada do meu primeiro policial Sem Perdão, foi sem dúvida, passar o realismo para o leitor, que é uma coisa que eu, enquanto leitor, aprecio. Os diálogos muito naturais, que façam o leitor pensar que aquilo podia acontecer comigo. E esta veracidade, este sentir o que está acontecendo no livro, para mim, enquanto leitor, é o mais importante e, enquanto escritor, foi o mais desafiante.
Histórias de amor, perda e descoberta pessoal são a especialidade da autora Joana Costa, que através da sua voz próxima e geracional, cria uma ligação forte com leitores mais jovens.
1. Houve algum livro que tenha mudado a forma como olhas para a escrita ou te tenha aproximado da vontade de escrever?
Um dos livros que mais me marcou, não só em relação à escrita, mas também à leitura foi À procura de Alasca, de John Green. Foi um livro que me marcou muito, porque enquanto o lia eu senti um milhão de coisas. Este livro em específico fez-me perceber que há algumas histórias que podem tocar profundamente nas pessoas, nos leitores.
2. Gostavas que o leitor levasse consigo alguma mensagem depois de ler o Chuva da Meia-Noite? Qual?
O que eu gostava mesmo que os leitores sentissem no final do livro Chuva da Meia-Noite é como se tivessem tido uma espécie de conversa com a sua criança interior. Porque eu sinto que este livro é um abracinho às pessoas e a tudo aquilo que elas carregam durante tanto tempo e se calhar nem se percebem.
Eu gostava mesmo que este livro as fizesse pensar de alguma forma que se calhar há coisas que valem mesmo a pena serem deixadas para trás e no final ficaram com aquela sensação de que levaram um abracinho apertado e quentinho. Porque foi isso que me aconteceu quando eu acabei de escrever o livro.
Curiosidade:
O primeiro livro impresso em território nacional foi o 'Pentateuco', impresso em Faro, em caracteres hebraicos no ano de 1487.