É a pergunta que todos os bons escritores mais escutam ao longo das suas vidas: "Também quero escrever. Como é que faço?". Depois de muitos anos a tentar responder, Miguel Esteves Cardoso, o mais influente cronista do nosso país, decidiu fazê-lo da melhor forma que sabe: escrevendo um livro. Como escrever, publicado pela Bertrand Editora, é, mais do que um manual de instruções para escritores, um livro que inspira o leitor a escrever, a escrever mais, encarando a escrita como a melhor forma que temos de comunicar.
No dia em que MEC comemora 69 anos, partilhamos cinco dicas fundamentais que pode encontrar neste livro, indispensável para — mas não exclusivo a — todos os aspirantes a escritores.
1. Anote tudo
Comece até por anotar, sublinhar, comentar o seu exemplar de Como escrever, com margens propositadamente largas para esse efeito. Adquira o hábito de andar com um bloco de notas e caneta sempre à mão, ou opte por utilizar o telemóvel, e aponte todas as ideias, frases ou imagens que lhe ocorram ao longo do dia e que possam servir de inspiração para a escrita. Sem filtros, sem reler — deite tudo cá para fora. “Cortar, alterar, acrescentar, tirar dali e pôr aqui, montar, reescrever: isso é que é escrever.” Mas primeiro precisa de ter algo com que trabalhar.
2. Comece por uma frase
Não se preocupe com rotular ou definir a dimensão daquilo que vai escrever. Isto é, não pense de antemão que vai escrever um livro ou um conto; escreva, e veja o que acontece. Comece por uma frase, e “frase a frase, enche a escrivaninha o papo.” Quando se sentir à vontade com as frases, passe para os parágrafos (sem esquecer que uma frase já pode ser um parágrafo), e continue, sem se preocupar com o resultado final. Liberte-se da tirania dos formatos e escreva — “grão a grão”, frase a frase.
3. Defina uma rotina
“A rotina é uma droga poderosa”, escreve Miguel Esteves Cardoso. Tal como o exercício físico, quanto mais escrever, mais fácil se torna, e pode até tornar-se num vício. É precisamente esse o objetivo: habituar-se de tal forma a escrever que não consegue passar um dia sem o fazer. Para isso, é fundamental que crie uma rotina. Escreva uma hora por dia, todos os dias, e a horas fixas. “O que é preciso é escrever. O que é preciso é ganhar o hábito, abrir um buraco no dia que depois só se possa preencher de uma maneira: escrevendo.” E veja a magia acontecer.
4. Abrace o vazio
Se acha que não tem assunto para escrever, não o busque. O assunto é algo que tem que lhe ocorrer. Para isso, é preciso que esteja disponível para receber estas ocorrências e que as aponte assim que elas surgem. O vazio, o tédio, o quotidiano são férteis. Quando o corpo está confinado a uma atividade rotineira e aborrecida — a tomar banho, a conduzir, a passear o cão, etc. —, a mente tem tendência para viajar. Não preencha estas atividades com outros estímulos como falar ao telefone ou ouvir um podcast. “É preciso manter o vazio. É preciso manter disponível o vazio — como um hotel tem a cama feita no quarto vazio, para o caso de aparecer um hóspede.”
5. Não fique dependente da inspiração
Nas palavras de MEC, “a inspiração é como ganhar a lotaria. Não se pode contar com isso. É preciso ter um emprego na mesma.” Os apontamentos que faz ao longo do dia destinam-se a criar condições favoráveis à escrita. Naquela hora que reserva diariamente para escrever, até pode não se sentir inspirado, mas os apontamentos já estão lá, na página, à espera que os complete, edite, ou reescreva por completo. “Eis a característica mais importante de escrever: escrever puxa pela escrita. Escrever suscita mais escrever.” “Por isso é que os apontamentos são tão importantes: são eles que põem a escrita em movimento, fazendo-a apanhar o que só através da escrita se apanha.”
Do que está à espera para começar?