“A minha biografia não tem nada de extraordinário.
Ou talvez tenha, sem eu saber. Hei de perguntar a alguém que me conheça.”
Manuel António Pina
“Como acontece com o amor, a poesia de Manuel António Pina
é uma portentosa máquina de criar desconhecimento.”
Álvaro Magalhães
Quando lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande, respondia - sempre em verso - que queria ser santo, bombeiro, detetive e “Salazar” (pensando que se tratava de uma profissão). Tinha poucos brinquedos em casa, mas os preferidos eram as palavras: “E outros brinquedos que eu tinha, de facto, eram as palavras. E descobri isso quando era muito novo. Com as palavras inventava coisas. Sempre gostei muito das palavras…” As palavras viveram também uma história de amor com Manuel António Pina. “As palavras, todas as palavras, adoravam-no – e voam, deslumbradas, para ele”, diz-nos Álvaro Magalhães, companheiro de longa data do poeta e autor da biografia que acaba de chegar às livrarias.
Costumava sentar-se à mesa com um livro aberto em frente ao prato da sopa, acabando por ser repreendido por isso. Aos 7 anos de idade, aconteceu uma das leituras mais emocionantes da sua vida: os dois volumes de A Vida Sexual, de Egas Moniz, que leu às escondidas. Acabaria por figurar, para sempre, na lista dos favoritos, acompanhado de Alice no País das Maravilhas, Joanica-puff, a Bíblia ou a Ilíada. Lia tudo o que apanhava, incluindo entradas avulsas da Enciclopédia Verbo. Dos poetas, Pessoa ficou-lhe para sempre: “Apanhei então alguma daquela poesia (…), como se apanha uma doença.”
Tinha 17 anos quando se mudou para o Porto: “Nasci no Sabugal, mas costumo dizer que me nasci a mim mesmo no Porto.” Além das tertúlias no café Orfeu, havia um grupo mais restrito que acabava por desaguar em casa de Manuel António Pina, aí continuando as conversas sobre literatura. Era um exímio conversador e contador de histórias. Até quando narrava um drama ou uma desgraça, ele corria o risco de ser engraçado, esclarece Álvaro Magalhães. Foi professor, advogado, guionista, publicitário, ator de teatro, praticante de artes marciais, revolucionário, adepto de futebol e jogador de póquer. E foi poeta, único e inimitável, “um poeta que já nasceu feito”, nas palavras de Álvaro Magalhães, relativamente ignorado, desde que começou a publicar, em 1974, até 1999, quando tinha quase 60 anos e viu a sua poesia ser publicada pela Assírio & Alvim.
Certa vez, uma professora da Escola Secundária Maria Lamas, no Porto, que havia sido aconselhada a ensinar a sua poesia nas suas aulas, recusou-se a fazê-lo alegando que não a entendia. Tendo conhecimento deste episódio, o poeta respondeu: “É natural, eu também não entendo aquilo que escrevo.” Num outro momento, durante uma visita escolar, um aluno pergunta-lhe por que escolhera ser poeta e escritor: “A literatura é que me escolheu a mim.” Em 2011, recebe “a coisa mais inesperada que podia esperar”: o Prémio Camões. Dizia “Para quê tudo isto? Para quê tudo isto?” (o “quê” precedido por um profundo suspiro) sempre que era assaltado pela melancolia, que um dia apelidou de “vazio privado”, essa espécie de eterna busca do sentido das coisas e, simultaneamente, como lhe chama Álvaro Magalhães, a “manifestação da desnecessidade de tudo.”
Acreditava que não vale a pena fazer grandes planos para a eternidade porque esta “está-se nas tintas” para os nossos planos. Fez apenas um pedido: “Fazei com que alguma coisa permaneça. Um verso, um poema.” “A ideia de reforma, que é horrível, aterroriza-me. Quero trabalhar até morrer.”, disse em 2000, quando, então com 57 anos, deixou o jornal onde trabalhara como jornalista durante trinta anos. Morreu no dia 19 de outubro de 2012. Cerca de um ano depois da sua morte, Álvaro Magalhães, juntamente com mais nove amigos, que costumavam encontra-se com Manuel António Pina no Café Convívio (e que passavam a vida à sua espera), fundaram o Clube dos Amigos à Espera do Pina, que assumia como missão a preservação da memória e da literatura do poeta. Talvez continuemos todos à espera do Pina. Enquanto ele não regressa, mergulhamos a saudade nesta biografia que é um ato de amor. Como diria o poeta (usando um verso do seu poema As Escadas): “Tomai, este é o meu corpo”.
“Fazei com que alguma coisa permaneça.
Um verso, um poema.”
Manuel António Pina