24 de março de 2020. O Jornal Expresso anuncia que Gonçalo M. Tavares iniciaria, nesse dia, um Diário da Peste, escrito ao ritmo a que a pandemia se espalhava pelo mundo. Uma página por dia. Multiplicaram-se as traduções em dezenas de países e o Diário do século partido em dois passou a ser lido um pouco por todo o mundo, tendo sido partilhado na Granta inglesa e espanhola e no Times Literary Supplement, entre tantas outras publicações. “Escrevi cada texto do Diário da Peste como se fosse o último”, esclarece Gonçalo M. Tavares, “não no sentido de pensar que ia morrer ou que o mundo ia acabar, claro, mas no sentido de pôr toda a energia do dia no texto — não guardar munições para o dia seguinte: é tudo agora. E depois acordava no dia seguinte e colocava-me na mesma posição: é tudo agora.” Partilhamos alguns excertos deste Diário, que é uma conversa com a memória do mundo.
24 de março de 2020
“A traição saiu da linguagem, entrou na biologia. Estar doente é uma ameaça ao Estado.
Todo o doente fica de imediato estrangeiro.
Se és saudável, és da minha nação; se estás doente, falas outra língua.”
27 de março de 2020
“Oração do papa pela Humanidade, canal 1.
A Praça do Vaticano vazia.
O papa fala para um enorme espaço vazio.
Ouço em muitas casas pessoas a ajoelharem-se.
Há coisas que se conseguem ouvir em determinadas alturas e noutras não.
Nestes dias ouve-se tudo.
Até o barulho de alguém a curvar-se a muitos quilómetros de distância.”
5 de abril de 2020
“Hoje troquei mensagens com muitas pessoas.
Muitas pessoas dessas muitas pessoas estão a quebrar.
Muitas pessoas dessas muitas pessoas depois de quebrar vão de novo estar fortes.
Mas algumas dessas muitas pessoas não.
Essas algumas pessoas vão quebrar e ficar quebradas e vai ser difícil voltar à casa de partida.
Já não há casa de partida.”
7 de abril de 2020
“Ficar em casa «é descobrir-se como estrangeira», diz a historiadora Lilia Schwarcz.
Isto. Estar no mesmo sítio mas de forma diferente.
Quem é este estrangeiro que está em minha casa a estas horas do dia? Sou eu.”
13 de abril de 2020
“No Brasil, uma artista diz que descobriu sombras na sua casa que nunca tinha visto.
Porque nunca tinha estado àquela hora em casa.
Respiro e penso: quanto tempo passou em tão pouco tempo.
Num mês mil anos ou mais.
Tanto tempo em tão pequeno mês.
Se vier um novo Cristo que seja médico, pede-se por estes dias.
Pede-se um medicamento ou uma vacina.
Já não suportamos estar em casa.”
23 de abril de 2020
“Os sapatos de 2020 não têm marcha-atrás.
Talvez 4.ª ou 5.ª, mas nenhuma marcha-atrás.
William Gibson: «o futuro já está aqui, só que está mal distribuído».
Milhares de pessoas em fila a pedirem um naco de futuro.”
11 de maio de 2020
“Alguém mexeu na aparelhagem geral do mundo e diminuiu o som.”
23 de maio de 2020
“Notícia súbita. Morreu a escritora Maria Velho da Costa.
Pausa e peso.
Regresso.
Amoladora itinerante que afi ava vocábulos em vez de lâminas para cortar pão. Maria Velho da Costa.
Lâminas para afiar frases e sintaxe.
Amansar a casa e a língua como a dois organismos belos e bravos.”
2 de junho de 2020
“As leis não são destino, mas vocabulário.
Podem alterar-se.
O ciclone muda os corpos e as coisas de sítio. Vem aí, dizem.
Contra a vontade dos homens e das coisas.
Por vezes muda mesmo o sítio. E no dia seguinte a paisagem é outra.
Em Junho de 2020 a paisagem muda.”
8 de junho de 2020
“Uma evidente violência física, fazer este diário.
Para mim, prova de força e resistência.
Por vezes, um bruto cansaço.”
16 de junho de 2020
“Estamos todos dedicados ao alimento e à informação.
Quem come e vê notícias ao mesmo tempo empanturra-se.
O primeiro passo para ficar maluco é sentir desequilíbrio em cima de um muro baixo.
«Quem não sentir vertigem não está bem informado», escreveu Sloterdijk num dos seus livros.”