Nas entrelinhas do novo romance de José Luís Peixoto, provamos o Alentejo. As páginas têm jeito de fumeiro, cada linha semelhante ao varão onde se apresentam as farinheiras, os chouriços, as morcelas, os paios e as paiolas. Almoço de Domingo é uma biografia a pedir para ser saboreada, um romance escrito com o paladar entre a língua. É a história do menino que levou as fêveras do porco, morto no dia anterior, até à casa do doutor. Do homem que sonhou “fazer uma casa como é devido”, e que acabou a construir um império com gosto a torrões de café. A história de um marido, pai, avô e bisavô, chefe de família e empresário, que não desistiu de si mesmo nem da terra onde nasceu.
O nome Rui Nabeiro tem desses pesos que nada têm que ver com quilogramas. É o senhor comendador, o homem que fez nascer a marca Delta na década de 1960. Aqui, no entanto, conhecemo-lo apenas como Rui. No novo livro de Peixoto, somos apresentados às memórias deste homem-menino, desde os primeiros anos na mercearia, a ajudar os pais, até ao seu 90.º aniversário, comemorado a 28 de março de 2021 e celebrado em família.
Almoço de Domingo não é uma biografia, mas também não é um romance. Com rasgos do passado entranhados no presente, esta é uma obra sobre a história de um país — revivendo os tempos da Guerra Civil de Espanha ou o 25 de abril de 1974 —, com as raízes de Rui Nabeiro no centro. Uma narrativa amparada carinhosamente por nomes como o de Alice, a mulher que sempre esteve ao lado de Rui, ou o tio Joaquim, figura incontornável da sua infância e adolescência e que o inspirou a abrir o seu próprio negócio de café.
Em 2019, as localidades de Campo Maior e Galveias encontraram-se, e daí surgiu um acordo para se escrever este livro híbrido. Aquando da publicação de Regresso a Casa, em 2020, José Luís Peixoto já sabia o título do seu próximo livro, deixando-o bem à mostra de todos. Um livro sobre o amor em família, através dos olhos do seu patriarca, num almoço de domingo.
"Afinal, havia muitas
estradas / para chegar
aqui, havia dias
seguidos num diário, /
páginas para traduzir
palavra a palavra.
Afinal, / havia amigos.
Havia toda esta família
que me olha / e que
olho. Aqui estou de novo.
Pronto para o / almoço
de domingo."
— in Regresso a Casa