As nossas livrarias são muito mais do que um local onde se vendem ou compram livros. São um ponto de encontro entre pessoas, livreiros e leitores, que conversam e partilham diariamente as suas histórias, as dos livros e as da vida. E como as histórias que contam são as que vivemos juntos, recolhemos alguns testemunhos de livreiros e de leitores que ilustram a ligação que vamos criando e reforçando quando escutamos com o coração, adivinhamos o que não foi dito, compreendemos, sentimos e agimos como se fôssemos o outro.
Leia também: Livreiros e Leitores: histórias que contam — Vol. 2
As histórias dos livreiros
 |
Susana Subtil
Livraria Barreiro
|
Eu estava no balcão de atendimento de livros escolares, quando uma senhora, ao telefone, se dirigiu a mim, com um talão na mão. Cumprimentei-a com um sorriso e perguntei:
"Olá, boa tarde.
Deseja levantar a sua encomenda escolar?"
A senhora não me respondeu, e notei que a mesma estava a chorar.
Sem querer interromper a conversa telefónica, fui buscar a sua encomenda. Regressei e a senhora continuava ao telefone, com as lágrimas a escorrer pelo rosto. Não a interrompi. Dei-lhe tempo para terminar o telefonema e secar as lágrimas. Depois, disse-lhe:
"Esteja à vontade. Todos temos dias menos bons, somos todos seres humanos. Se achar por bem, esteja à vontade para desabafar, tem aqui uma palavra amiga, hoje ou sempre que precisar."
A senhora agradeceu-me com um sorriso e ficamos a conversar. Uma semana depois, a senhora voltou para me agradecer mais uma vez a minha preocupação, acrescentando que as minhas simples palavras tinham feito toda a diferença. Continuamos a nossa conversa e a senhora que, até então, nem apreciava ler, pediu-me que lhe sugerisse um livro que lhe desse ânimo e que fosse um motivo para vir mais vezes à livraria onde se sentia compreendida. Na despedida, ficou a promessa de voltar para partilhar o que tinha achado do livro que lhe sugeri.
 |
Vivian Nascimento
Livraria Barcelos
|
Há uma senhora que vem à nossa livraria muitas vezes, já é da casa. Uma das vezes, chegou um "pouquinho em baixo" e, por coincidência, tinha sido eu a atendê-la da última vez. Ela tinha levado um livro para oferecer ao filho de 21 anos, um romance jovem adulto sobre relacionamentos homoafetivos, de uma autora que o filho gostava.
Estava de volta para trocar o livro e eu fui tentar entender o porquê. Inicialmente, a senhora estava um pouco travada e receosa, mas depois explicou-me:
"O meu filho está a passar por problemas no relacionamento dele… queria levar-lhe outro livro deste género."
Então, eu perguntei:
"Será que é este tipo de livro, que conta a história de dois rapazes, o mais adequado para o momento que ele está a viver? Pelo que a senhora me disse, o seu filho já sabe exatamente o que quer, não precisa de ajuda para entender a sua sexualidade…
Pergunto isto porque eu também sou homossexual e sinto que a questão do seu filho pode não ser a de “se encontrar” porque parece já o ter feito… Parece haver outro tipo de questões a afetá-lo…."
Nesse momento, a senhora partilhou que estava a passar por um processo de divórcio que estava a ser difícil e que talvez estivesse a afetar o filho, que cresceu sempre com os pais juntos. Conversámos um pouco mais e sugeri-lhe que, em vez de um romance, levasse um livro de desenvolvimento pessoal, A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown, explicando-lhe que fala sobre como estamos vulneráveis em muitos aspetos da nossa vida, ajudando-nos a ultrapassar as dificuldades. A senhora concordou que este livro seria de facto uma boa alternativa para o momento que o filho estava a passar e abraçou-me.
 |
Francisco Gonçalves
Livraria Barreiro
|
Estávamos na altura do Natal, e uma senhora disse-me que queria um livro para oferecer ao neto. Comecei a mostrar-lhe várias opções, dentro do que me disse que gostava, mas a senhora respondia-me sempre que não, que não era aquilo.
Resolvi sugerir livros para idades um pouco mais à frente da idade do neto, mas a senhora continuava a dizer que não era aquilo.
Enquanto a observava, percebi que talvez não estivesse a dizer verdadeiramente o que sentia, talvez por vergonha, que o problema não era o tipo de livro, mas que talvez fosse o preço. Sem mencionar nada a esse respeito, disse-lhe:
"Por favor, venha comigo. Vou mostrar-lhe aqui outros livros que talvez sejam mais adequados."
Apresentei livros de preço inferior aos anteriores e a senhora respondeu-me:
"É mesmo isto que eu quero!"
Continuamos a nossa conversa e a senhora acabou por me explicar que o marido estava muito doente, e o dinheiro não esticava para tudo. Portanto, só queria mesmo comprar uma coisa muito simbólica para o neto, porque sabia que ele gostava muito de ler.
Uns dias depois do Natal, a senhora voltou à livraria com o neto, que foi todo contente agradecer-me, porque tinha ficado muito feliz com o livro.
As histórias dos leitores
Conheço a Bertrand de Aveiro há mais de 40 anos, quando a loja era na Avenida Lourenço Peixinho. Era uma loja muito pequena, mas que continha lugares mágicos, muitos, para onde se podia viajar mesmo com pouco dinheiro. Quando se mudaram para o Fórum, adorei porque era um espaço lindo! Quando soube que ia abrir uma Fnac em Aveiro fiquei entusiasmado, para logo a seguir ficar dececionada… Por isso, voltei a esse “amor” antigo, à Bertrand, em que, mesmo num espaço pequeno, sou atendida por funcionários simpáticos, solícitos e que sabem da língua que nos é comum: “o amor aos livros”. Hoje, ao comprar mais um livro, soube que o dia não lhes tinha corrido muito bem e pensei: “se reclamamos por tanta coisa, porque não fazer um elogio?” Por isso, por todos os anos em que fui e sou feliz numa Livraria Bertrand, OBRIGADA!!!
Quero por este meio prestar os meus agradecimentos à Georgina e à Maria Parente pelo ótimo atendimento prestado a mim e à minha filha. Foram atenciosas, pacientes e muito simpáticas. Já somos clientes há anos, no geral, os livreiros da vossa loja são sempre impecáveis. Agradecemos de coração pelo excelente serviço prestado. Desejo que continuem este louvável trabalho, que é o de atender e comunicar bem pois, para todos, no mundo em que vivemos, onde as pessoas se distanciam cada vez mais dos livros físicos, é importante haver profissionais dedicados e que tenham essa cordialidade com os clientes.
Há pessoas que marcam outras pessoas, é o caso da vossa colaboradora Fátima Ferreira. Tive uma experiência incrível. Foi superprofissional, prestável, paciente ao recomendar-me vários estilos de literatura. Que continue a existir este tipo de atendimento personalizado, com tempo e cuidado pelo cliente. Fiquei a conhecer novos autores, outros tipos de leitura. Estou muito grata!
E se estes testemunhos o inspiraram, temos uma sugestão:
Este Natal, convidamo-lo a enviar uma carta ao seu livreiro Bertrand.
Pode contar uma história passada numa das nossas livrarias, agradecer por um livro de que gostou muito, ou incluir um desenho ou fotografia que reflita esta conexão tão especial. Deixe a magia e o espírito natalício inspirá-lo — é isso que importa. Estendemos este convite a todos os nossos leitores, pequenos e graúdos: basta deixar a carta na sua livraria preferida, num dos nossos marcos de correio especiais:
Os postos de correio vão estar em todas as livrarias a partir desta semana. Pedimos apenas que, ao entregar a carta, inclua a morada completa, pois no final desta iniciativa, leremos todas as cartas com carinho e comprometemo-nos a responder por carta, para a morada indicada, acompanhado de um presente, até 31 de janeiro.
Ficamos à espera da sua carta!