O seu natal vai ser mais ou menos digital?

Por: Ivone Patrão a 2025-12-01

Ivone Patrão

Ivone Patrão

Ivone Patrão é psicóloga clínica, com mestrado e doutoramento em Psicologia da Saúde. É docente e investigadora no ISPA – Instituto Universitário e no Applied Psychology Research Center Capabilities and Inclusion (APPsyCI). É também psicoterapeuta,na vertente familiar e sistémica, pela Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (SPTF), com experiência clínica na intervenção de jovens, adultos e famílias.
Nos últimos 25 anos, assinou vários artigos científicos e livros técnicos com enfoque na área da ciberpsicologia, disciplina que ajudou a desenvolver no âmbito académico. É ainda formadora na área dos comportamentos online (dependência e cibersegurança), no contexto educativo, comunitário e empresarial, assumindo a coordenação do estudo Ciber Young Security: Comportamentos Ciberseguros em Jovens Portugueses, numa colaboração entre o ISPA – Instituto Universitário e o Centro Nacional de Cibersegurança Portugal (CNCS). A par destes projetos, é também coautora do podcast De Milho a Pipoca. Ainda Vamos a Tempo! é o primeiro livro que publica com a Contraponto.

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Ainda vamos a tempo de ser “presentes” uns para os outros!

Sabe qual é a época dos presentes preferida para as crianças? Sim, todos sabemos: o Natal. A grande maioria das crianças responde que será a época natalícia e uma pequena percentagem diz que é o seu aniversário. E, de repente, o nosso pensamento viaja para a lista de presentes a comprar no Natal, ou para aquele presente especial, para o qual estamos a reunir recursos, porque queremos ir ao encontro das expectativas e ver a felicidade no rosto do outro.

O desejo de cada criança é conseguir conquistar algum presente da sua lista, que, às vezes, é extensa e diversificada; outras vezes, é uma lista simples, só com um ponto: eu desejo ter um ecrã! Seja um telemóvel, seja um tablet, seja outro qualquer dispositivo. O que pretendem é ter o seu presente, dado por alguém que está presente na sua vida, que as conhece, e que sabe quais são as suas expectativas, preferências, interesses ou desejos.

Quando perguntamos a uma criança se quer ter um presente oferecido por alguém presente na sua vida, o que será que ela responde? As respostas podem ser: ter o presente é mais importante, sobretudo, se for digital. Ou ter a pessoa presente é essencial. Ou, ainda, ter um presente de alguém presente na vida é uma combinação perfeita de presentes. De acordo com esta última resposta, no pensamento de uma criança, pode estar: "tenho o meu tablet e uma pessoa que se interessa por mim, que brinca comigo, que me dá atenção, que investe em mim, que valoriza o amor, o cuidar e a relação".

Há momentos em que as crianças sentem que não tiveram os presentes mais desejados. Sejam os presentes embrulhados com um papel cheio de bonecos e um laço, sejam as pessoas presentes na sua vida. Sentem a ausência, o abandono, o pouco investimento. Não sentem o cuidado, a escuta, a compreensão, o amor, o abraço, o aconchego. Não ter o tablet desejado é motivo de tristeza, de zanga, às vezes tão intensas, que se nota na expressão não verbal, ou mesmo em palavras mais cruéis: "não compraste o que eu queria, o que eu mais gostava de ter como presente! Não gosto de ti! Não gostas de mim!" E, de seguida, vem uma birra, o choro, um amuo, ou, simplesmente, o silêncio.

Por outro lado, não ter um cuidador presente, no dia a dia de uma criança ou jovem, ou até ter um cuidador presente, mas "ausente", pode constituir um dos abalos mais negativos ao sistema relacional e de autorregulação emocional de quem está, ainda, em desenvolvimento. É não ter proteção, segurança e valorização por parte do adulto que cuida, sendo que estas são necessidades elementares na pirâmide de Abraham Maslow, para que possamos sobreviver e alcançar outros patamares de evolução e realização pessoal.

Mas o que é mais visível? A ausência de um presente desejado ou a ausência de investimento na proteção e segurança de uma criança ou jovem? A frustração de não ter um presente digital! Quando chega o fim dos presentes distribuídos e há a conclusão de que não apareceu o tablet ou o telemóvel desejado, a frustração pode tornar-se bastante sonora, pelo grito de raiva.

(...) o nosso pensamento viaja para a lista de presentes a comprar no Natal, ou para aquele presente especial, para o qual estamos a reunir recursos, porque queremos ir ao encontro das expectativas e ver a felicidade no rosto do outro.

Não ter proteção e calor humano ao longo dos dias pode até não se notar, pois numa fotografia da família no Natal está lá muita gente. Notam-se os ausentes, os que não vieram, ou já faleceram, não obstante, nota-se menos os presentes que estão "ausentes" de forma relacional e emocional. Esses estão lá, mas não tocam, nem se deixam tocar. Esses estão lá, e podem só investir no papel de embrulho aos bonecos e no laço. E podem até acertar no desejo: ter um ecrã! — mas, ao longo do tempo, deixam cair a importância de estar ao lado, que requer investimento, para que o desenvolvimento da criança seja o mais saudável possível, perante os desafios da autonomia e da socialização. E, assim, não estarão presentes para a gestão do uso do ecrã que ofereceram!

Qual a mensagem que queremos passar com a oferta de presentes digitais a uma criança ou a um jovem? Que somos a família ou os pais mais "cool do planeta", atualizados e que vamos ao encontro dos seus desejos. E que mensagem passamos sendo presentes na vida de uma criança? O melhor de tudo! Contudo, é importante não esquecer que "ser presente" não é saber tudo, não é controlar tudo, não é estar embrulhado num papel cheio de bonecos com um laço. Ser presente, como dizia Donald Winnicott, é ser suficiente bom. Ser presente, como diz Pedro Strecht, é desfrutar do resultado da equação do que conta numa relação entre pais e filhos, na qual "menos é mais". Não será porque vamos dar todos os presentes da lista de Natal que seremos mais presentes enquanto família, enquanto pais, enquanto avós, enquanto tios!

A evidência científica diz que a oferta de presentes digitais a crianças e jovens que vivem numa família na qual há pessoas presentes está associada a menos dependência online e a uma melhor gestão dos riscos online. Isto quer dizer o seguinte: é essencial estar ao lado e acompanhar as crianças aquando da introdução do uso dos ecrãs, ao longo do seu desenvolvimento, ou seja, ao longo do tempo, mesmo quando passam de crianças a jovens.

A supervisão familiar digital é um dos melhores presentes a oferecer a uma criança e a um jovem. Quem poderá fazer isso? Os pais, os avós, os tios, ou seja, os adultos de cada família em primeira instância. A comunidade educativa, restrita e alargada, poderá ser uma ajuda nessa supervisão digital, de forma complementar.

É essencial não ficarmos só no verbo "dar" e apostarmos também no verbo "ser". Nós podemos dar presentes. Nós podemos dar amor. Nós podemos dar amor e dar presentes!

Há que pensar na melhor combinação, sem nunca perder de vista a importância do vínculo, da relação, do afeto, como algo a acontecer desde o nascimento. Quando nasce, um bebé necessita de ter as suas necessidades básicas satisfeitas, mas também de estabelecer um vínculo. Não queremos que um bebé se ligue a um ecrã, em vez de a um cuidador. Não queremos um bebé a sofrer de tecnologismo — como afirmo no meu livro Ainda vamos a Tempo! —, ou seja, privado de uma relação humana significativa e segura, que é substituída por um dispositivo.

A evidência científica diz que a oferta de presentes digitais a crianças e jovens que vivem numa família na qual há pessoas presentes está associada a menos dependência online e a uma melhor gestão dos riscos .

Nós podemos "dar" objetos que as crianças e os jovens desejam, mas é essencial também sermos um modelo educativo na forma como regulamos as nossas emoções e como investimos nas relações (por exemplo, de amizade, amorosas), e também na forma como fazemos a gestão do uso do ecrã — quanto ao tempo de uso e quanto aos conteúdos visualizados.

As crianças e os jovens não têm só os olhos postos nos influencers, youtubers, bloggers, gamers, também têm os olhos postos nos adultos à sua volta. Na família, nos professores, nos auxiliares de ação educativa, nos psicólogos, nos médicos, nos enfermeiros, nos treinadores e nos demais adultos que os acompanham nas atividades diárias.

E, mesmo quando pensamos que estamos protegidos porque o nosso filho ainda não tem como presente um ecrã, e os adultos presentes na sua vida têm — atenção! —, nós emprestamos a nossa tecnologia às crianças. Elas usam o telemóvel dos pais, dos avós, dos tios, dos primos. É como se fizessem um estágio não supervisionado de contacto com o ecrã, porque contactam com as aplicações e pesquisas que existem nos telefones dos adultos, que, algumas vezes, não são adequadas para o seu nível de desenvolvimento.

O nosso Natal pode ser digital, com conta, peso e medida. Os presentes são todos aqueles que vêm embrulhados por várias partilhas, pela escuta, pela compreensão e com um laço, que é o afeto, o amor, não só no dia em que são oferecidos, mas em todos os dias.

Se pensarmos numa receita de um bolo, que pode ser natalício, a abreviatura "q.b." que é, por vezes, aplicada ao sal, é um bom indicador da medida de presença de ecrã na vida das crianças, dos jovens e dos adultos: ecrã, q.b.! Nem insonsso nem salgado! Cada família pode definir para si esta medida, respeitando as necessidades, a maturidade da criança ou do jovem em causa, e sem esquecer a importância do nível de literacia digital e o sistema de regras e limites para o uso do ecrã. Além disto, o presente, não aquele que se oferece, mas o adulto, que está presente, com foco no aqui e agora, disponível para a relação, tem um valor emocional positivo associado a um desenvolvimento infantojuvenil saudável. Ao ser assim, o adulto presente não é digital, ainda que possa recorrer ao ecrã como ferramenta na interação (o q.b.).

"As crianças e os jovens não têm só os olhos postos nos influencers, youtubers, bloggers, gamers, também têm os olhos postos nos adultos à sua volta. Na família, nos professores, nos auxiliares de ação educativa, nos psicólogos, nos médicos, nos enfermeiros, nos treinadores, e nos demais adultos que os acompanham nas atividades diárias."

E será que este adulto presente, cuidador, precisa de vestir a pele de um embrulho aos bonecos com um laço na cabeça? A metáfora é interessante, contudo, a mensagem é: ao sermos presentes, o embrulho representa o "cuidar", e o laço será o "vínculo". A pele que se veste é de cuidado, de compreensão, de aprendizagem de limites, e o laço que se cria é apertado, aconchegante, que vai laçando à medida do crescimento de uma criança, de um jovem — o objetivo será co-construir um caminho de confiança, responsabilidade e independência.

É bom ter um adulto presente, envolvido num laço que acolhe e, ao mesmo tempo, deixa viver o "mundo atual", com espaço para negociar limites e para treinar o juízo crítico perante situações, por exemplo, do mundo online, em que há necessidade de haver uma tomada de decisão e reflexão sobre os riscos — seja de dependência do ecrã, sejam outros riscos, como o contacto com conteúdos desadequados para o nível de maturidade da criança ou do jovem.

Aos sermos presentes neste Natal, poderemos ajudar a gerir o uso do ecrã de forma saudável na vida das nossas crianças, jovens, e até na nossa própria vida, enquanto adultos. Esta presença é um fator de proteção.

É essencial estarmos atento aos sinais de alarme para a dependência online. A necessidade de consumir cada vez mais horas de ecrã, de tornar as atividades online como as principais no dia a dia, os conflitos associados pela dificuldade de desligar, e as consequências na socialização, no sono, na higiene e na alimentação são esses sinais. É importante ter um equilíbrio entre atividades online e offline, deixar o ecrã fora do quarto para uma boa higiene do sono, aproveitar as refeições em família para várias partilhas, bem como cuidar das necessidades de socialização, que permitem o treino, por exemplo, da empatia.

Quando se oferece um presente digital, ele deve vir acompanhado de uma conversa, de uma negociação, de um acordo sobre o número de horas adequadas para a idade da criança ou do jovem. De notar que é de consenso internacional que, até aos 2 anos, os bebés devem consumir zero horas de ecrã; e que, dos 2 anos até aos 5 anos, deverá ser até uma hora de ecrã por dia, e, dos 5 anos até aos 10 anos, até três horas por dia, incluindo horas de uso académico e de lazer. A partir da pré-adolescência, a negociação deve ser feita mediante as necessidades, o nível de maturidade na gestão das emoções e a literacia digital. Consumos de mais de quatro horas diárias são consideradas um uso excessivo, contemplando um uso académico e de lazer.

Importa, também, negociar a que tipo de conteúdos uma criança e um jovem podem ter acesso, que serão diferentes de acordo com o seu nível de maturidade emocional e relacional. A família presente conhece bem como cada filho, cada neto ou cada sobrinho gere as suas emoções e resistência à frustração, bem como sabe qual é a consequência do uso do ecrã no seu dia a dia — por isso, a família tem sempre bons especialistas a negociar, não só o tempo de ecrã para cada um, mas também os conteúdos adequados — porque conhece bem as crianças e os jovens que integram o seu sistema familiar.

Tanto as redes sociais, como os jogos online, permitem um mundo imenso de contactos e interações, e, como tal, é essencial sensibilizar para os riscos, e, além disso, deixar sempre a porta aberta para o diálogo, para a partilha, para a dúvida, para um pedido de ajuda perante uma situação difícil. É preferível treinar o juízo crítico perante uma situação de risco que acabou de acontecer a aplicar o juízo de valor, que barra a comunicação e a continuidade da relação e do pedido de ajuda na gestão do uso do ecrã. É preferível respirar fundo contar até 10 e, de seguida, ter mais uma conversa, realizar uma negociação mais ajustada.

Não é por se negociar uma vez o tempo de ecrã e os conteúdos acessíveis que a criança e o jovem vão cumprir e nunca mais será um tema em cima da mesa. Pelo contrário, o que acontece uma vez é a oferta do presente digital, que tem este lado excecional de manter a necessidade de atualização a cada dia, a cada semana, a cada mês, a cada ano, de como ele pode estar presente nas nossas vidas.

Um presente digital pode ser uma oportunidade para as famílias estarem mais presentes, entre si, e sempre atualizadas ante as novidades constantes que o ecrã imprime, sem nunca se desligarem do olhar atento e cuidador.

Neste Natal, poderemos ser todos presentes e com a nossa melhor versão, a mais atualizada, envolvida pelo cuidado e pelo afeto!

Ivone Patrão

Psicóloga Clínica e da Saúde, com Mestrado e Doutoramento em Psicologia da Saúde pelo ISPA — Instituto Universitário, no qual também é docente e investigadora. Além disso, é ainda investigadora no Applied Psychology Research Center Capabilities and Inclusion — APPsyCI. Psicoterapeuta, na vertente familiar e sistémica (SPTF — Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar), com experiência clínica na intervenção com jovens e famílias. Formadora na área dos comportamentos online (dependência e cibersegurança), no contexto educativo, comunitário e empresarial. Nos últimos 25 anos, realizou publicações de vários artigos científicos e livros técnicos, com destaque para a área da ciberpsicologia.

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