Uma viagem pelas obras mais influentes da Europa no século XX

Por: Sónia Rodrigues Pinto a 2019-05-09 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

George Orwell

George Orwell

Nascido em junho de 1903, no início de um século marcado por duas guerras mundiais, o estalinismo e o nazismo, George Orwell resume na sua obra os sonhos e pesadelos do mundo ocidental nesse período.
Nasceu Eric Arthur Blair em Motihari, na Índia Britânica. O pai era um funcionário subalterno inglês e a mãe tinha origem francesa.
Após o regresso dos pais a Inglaterra, estudou na escola Henley-on-Thames, onde se distinguiu pela relativa pobreza e pelo brilhantismo intelectual.
Frequentou depois duas importantes escolas inglesas, Wellington e Eton College, onde teve como colegas Cyril Connolly e Anthony Powell. Aldous Huxley foi seu professor. Mais tarde Orwell resumiu essa experiência como "cinco anos num banho tépido de snobismo". Mas foi nessa época que conheceu duas obras que o influenciaram, A Ilha do Doutor Moreau, de H. G. Wells, e O Tacão de Ferro, de Jack London.
Ao abandonar Eton, decidiu não ir para Oxford e entrar na polícia birmanesa, embarcando para as Índias. Nos cinco anos que se seguiram, descobriu a realidade do imperialismo e recolheu material para Dias Birmaneses e para ensaios tão originais como "Matar Um Elefante" e "Um Enforcamento".
Regressado à Europa, frequentou os bairros pobres de Londres, instalando-se em Paris na Primavera de 1928. Atingido por uma pneumonia, foi internado num hospital, cujas condições terríveis inspiraram o ensaio "Como Morrem os Pobres". A convivência com os pobres e os vagabundos forneceu-lhe material para Na Penúria em Paris e em Londres, que publicou em 1933 com o pseudónimo George Orwell.
Em 1936, o Left Book Club propôs-lhe escrever um livro sobre as condições dos operários no Norte do país. Partilhou a vida dos mineiros e confirmou as suas convicções socialistas. Escreveu numerosos artigos numa abordagem que considerava "semi-sociológica", casou com Eileen O'Shaughnessy e correspondeu-se com Henry Miller, que apreciava a sua obra e ironizava com o seu idealismo. Em 1937, decidiu combater em Espanha ao lado dos republicanos, mas, em vez de se juntar às Brigadas Internacionais, ingressou na milícia do POUM, um grupo marxista heterodoxo, lutando na frente de Aragão. Foi ferido, assistindo na convalescência à eliminação pelo Partido Comunista, apoiado pela URSS, das milícias anarquistas e do POUM. Descreveu essa experiência em Homenagem à Catalunha (1938), que lhe valeu inúmeras calúnias.
Em 1939, começou por se opor à participação da Grã-Bretanha na guerra, mas depressa se voltou contra os pacifistas, acusando-os de fazerem o jogo de Hitler. A partir de 1940, fez crítica teatral e de cinema, colaborou na Partisan Review e escreveu notáveis ensaios literários sobre Dickens, Tolstoi e Shakespeare. Em 1942-43, trabalhou para o serviço indiano da BBC, uma experiência que acabaria por o dececionar.
Em 1945, publicou Rebelião na Quinta, que, com Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, seria um libelo contra o totalitarismo estalinista que ameaçava a Europa. Em junho de 1944, o seu apartamento foi destruído nos bombardeamentos de Londres.
Em 1945, após a derrota de Hitler, foi correspondente do Observer em França e na Alemanha. Foi nesse período que a sua mulher faleceu durante uma operação. Em 1948, terminou Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, escrito ao longo de vinte e sete meses, marcados por internamentos em sanatórios por causa da tuberculose.
Em outubro de 1949, casou com Sonia Brownell. Morreu no ano seguinte. Tinha 46 anos.

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James Joyce

James Joyce

James Joyce nasceu em Dublin, na Irlanda, a 2 de fevereiro de 1882, e é considerado um dos maiores escritores do século xx. Entre as suas obras mais conhecidas contam-se o volume de contos Gente de Dublin (1914) e os romances Retrato do Artista quando Jovem (1916), Ulisses (1922) e Finnegans Wake (1939). A sua escrita incluiu inovações técnicas como o uso extensivo do monólogo interior, o desenvolvimento de uma rede de símbolos retirados da mitologia, da história e da literatura, e a criação de uma linguagem repleta de palavras inventadas e trocadilhos. Faleceu em Zurique, na Suíça, em 1941.

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Franz Kafka

Franz Kafka

Franz Kafka nasceu em 1883, em Praga, no seio de uma família da pequena burguesia judia de expressão alemã. Começou a escrever os seus primeiros textos em 1904. Em 1906, terminou os seus estudos universitários, doutorando-se em Direito. Em vida, publicou apenas sete pequenos livros e alguns textos em revistas. De entre estes livrinhos e textos, destaca-se A Metamorfose, que veio a lume em 1915. Esta pequena novela viria a afirmar-se como uma das suas obras de referência. A 3 de junho de 1924, não resistindo à tuberculose diagnosticada em 1917, morre em Kierling, a poucos quilómetros de Viena, deixando três romances fragmentários, que seriam publicados postumamente pelo seu amigo e testamenteiro Max Brod: O Processo (1925), O Castelo (1926) e América (1927), a que se seguiram volumes com contos, cartas e diários. A sua obra, centrada no homem solitário moderno, refém de uma vida absurda, tornar-se-ia uma das mais influentes do mundo literário do século xx.

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Albert Camus

Albert Camus

PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 1957

Albert Camus nasceu em Mondovi, na Argélia, a 7 de novembro de 1913. Licenciado em Filosofia, participou na Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e foi então um dos fundadores do jornal de esquerda Combat. Em 1957 foi consagrado com o Prémio Nobel da Literatura pelo conjunto de uma obra que o afirmou como um dos grandes pensadores do século XX. Dos seus títulos ensaísticos destacam-se O Mito de Sísifo (1942) e O Homem Revoltado (1951); na ficção, são incontornáveis O Estrangeiro (1942), A Peste (1947) e A Queda (1956). A 4 de janeiro de 1960, Camus morreu num acidente de viação perto de Sens. Na sua mala levava inacabado o manuscrito de O Primeiro Homem, texto autobiográfico que viria a ser publicado em 1994.

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José Saramago

José Saramago

Prémio Nobel de Literatura, 1998

Autor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.
As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»
Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
No final dos anos 50 tornou-se responsável pela produção na Editorial Estúdios Cor, função que conjugaria com a de tradutor, a partir de 1955, e de crítico literário.
Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.
Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em abril de 1975 é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias.
No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projeto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, obras traduzidas em todo o mundo.
No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.
José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou postumamente, a 16 de novembro de 2021, José Saramago com o grande-colar da Ordem de Camões, pelos "serviços únicos prestados à cultura e à língua portuguesas", no arranque das comemorações do centenário do nascimento do escritor.

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O Processo
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1984
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Neste dia, em 1950, assinava-se a Declaração de Schuman, que propunha a criação da Comunidade do Carvão e do Aço, considerada o embrião da atual União Europeia. O Dia da Europa, celebrado hoje, acaba por ser a comemoração deste pacto, considerado um dos mais marcantes na história política e social da civilização europeia.

Barbara Tuchman, escritora e historiadora, disse: “Os livros são os veículos da civilização. Sem livros, a História é silenciosa, a literatura é muda, a ciência aleijada, o pensamento e o raciocínio paralíticos” (via Goodreads). Para que a História não se cale e a literatura continue a conversar connosco, destacamos algumas das obras europeias mais influentes que o mundo conheceu no século XX. As suas histórias e a mensagem que transmitem mantêm-se como uma importante referência para compreender o passado e o presente.

 


 

O Processo (1925), Franz Kafka | República Checa

Publicado postumamente, a obra foi originalmente escrita em 1914 e considerada uma das mais importantes do século XX. Joseph K., um bem-sucedido gerente bancário, vê a sua vida mudar drasticamente quando três homens entram no seu quarto para o prenderem. Não sabe quem o mandou prender nem de que é acusado — sabe apenas que está envolvido num processo obscuro e absurdo que o leva a percorrer as secretarias labirínticas, onde decorre a instrução, conduzida por juízes menores, cuja única incumbência é inquiri-lo.

Há várias interpretações para a mensagem que Kafka quis transmitir em O Processo: um conto existencialista, uma parábola ou até mesmo a de uma profecia sobre os excessos da burocracia moderna, de mãos dadas com a loucura do totalitarismo. Independentemente do seu significado, a história de Joseph K. reflectiu-se na vida das gerações mais novas, ficando para sempre marcada como uma verdade (cada vez mais) atual.

 

1984 (1949), de George Orwell | Inglaterra

O autor inglês sempre assumiu o seu desprezo pelo totalitarismo e a urgência que os partidos políticos pareciam ter em controlar a população, algo que se sentiu um pouco por toda a Europa a meio do século XX. 1984 acaba por ser um reflexo dos medos de Orwell, caso os impulsos do governo tivessem espaço e poder suficientes para crescerem.

O enredo passa-se no ano de 1984, numa civilização destruída pela guerra, conflitos e revoluções. Winston é um funcionário no Ministério da Verdade, responsável por alterar documentos históricos a partir da verdade escolhida pelo Governo. Estamos no meio da Oceânia, um dos três super-estados totalitários que controlam o mundo, dominado pelo líder misterioso Big Brother. Há vigilância constante, através do uso de telescreens, um sistema de comunicação obrigatório em todas as casas, e todos aqueles que não se conformam ao regime desaparecem sem deixar rasto. No Quarto 101, aprendemos com Winston que todos os homens têm os seus limites.

 

Ulisses (1922), James Joyce | Irlanda

Num paralelismo moderno inconfundível com a Odisseia de Homero, T. S. Eliot afirmou que a obra de James Joyce é um livro ao qual devemos muito e “do qual nenhum de nós consegue escapar”. O autor irlandês, através de Ulisses, rompe com a ficção oitocentista e escreve como nenhum outro escritor o fizera até então. Cada capítulo é diferente do anterior, numa multiplicidade de estilos e linguagens que tornam esta obra única, revolucionária e que justificam os sete anos que demorou a ser concluída.

A história que seguimos é a de Leopold Bloom, um homem vulgar, e seguimo-la numa janela temporal que decorre num único dia, a 16 de junho de 1904, em Dublin. Para Jorge Vaz de Carvalho, tradutor do livro, a comparação desta “a epopeia de um quotidiano banal” com a obra de Homero é incontornável.

 

O Estrangeiro (1942), Albert Camus | França

O autor franco-argelino transportou para a sua obra uma forma de explorar o absurdo, um conceito central na sua escrita e a base do modo como lida com o significado da vida. Camus escreveu O Estrangeiro envolto em tragédia e sofrimento; o seu pai tinha morrido na Primeira Grande Guerra, pelo que o desdobrar da Segunda Guerra Mundial fez com que questionasse tudo, inclusive a sua própria existência.

Mersault, francês a viver na Algéria, recebe um telegrama. A mãe morreu. De regresso a casa, após o funeral, faz amizade com um vizinho de práticas duvidosas, reencontra uma antiga colega de trabalho com quem se envolve e vai à praia. Até que ocorre um homicídio. É aqui que entra em cena o absurdo de Camus, ao jogar com o destino de um homem e desafiando-nos a nós, leitores, a ignorar o significado da nossa existência e, em vez disso, aceitar o que a vida tem para nos oferecer.

 

Ensaio sobre a Cegueira (1995), de José Saramago | Portugal

A cegueira é o ponto fulcral a partir do qual se desenrola a narrativa. Uma epidemia que se propaga, de forma alarmante, por todos, acabando por revelar o pior da humanidade. Com medo de uma possível contaminação, o governo coloca os contaminados em quarentena, num hospital abandonado. Assim começa uma viagem, sem retorno, aos piores impulsos do Homem, expondo as suas fraquezas e abrindo espaço para um mundo de renovada esperança no meio do caos e da miséria.

Para tecer esta que é considerada uma das melhores obras europeias de sempre, José Saramago inspirou-se nas desumanas prisões que existiam em Portugal, na altura em que António de Oliveira Salazar, ditador fascista, governou o país. Numa entrevista, o autor apelida o hospital abandonado de “solução final”, que nos remete para o plano de Hitler, para exterminar os Judeus.

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