Uma tarde com o “Contador de Histórias” que começou a escrever por engano

Por: Sónia Rodrigues Pinto a 2019-06-04 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Jeffrey Archer

Jeffrey Archer

Jeffrey Archer nasceu em Londres, em 1940. Estudou na Universidade de Oxford antes de se dedicar à política e, depois, à escrita. Com mais de 300 milhões de exemplares vendidos em mais de cem países e quase cinquenta línguas, estabeleceu-se como um dos maiores escritores bestseller do mundo. Autor da célebre saga «As Crónicas de Clifton», deu nos últimos anos início à publicação da série «William Warwick», entre outros títulos.
Reconhecido pela sua disciplina enquanto escritor, chegando a trabalhar até catorze versões diferentes de cada livro, Archer traz também uma grande quantidade de conhecimento privilegiado aos seus livros, que proporcionam um vislumbre fascinante de uma série de mundos habitualmente fechados.

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Feira do Livro, Lisboa, 2 de junho.
 
Aquele que é apelidado por muitos como o melhor contador de histórias da atualidade mostra-se muito afável com os leitores que o aguardam, pacientemente, sob um calor abrasador. Começa por pedir que não dobremos livros à frente dele. De seguida, indica qual a página que prefere autografar: a terceira, que contém o título e o nome do autor. Jeffrey Archer, 79 anos, voltou a Portugal, a propósito do seu novo livro, Contador de Histórias.

Nós estivemos lá e contamos-lhe como foi.

Descontraído e divertido, passa a tarde a assinar dezenas de livros. Uns acabados de comprar, outros com mais de vinte anos, que aguardaram o (re)encontro com o seu progenitor. É o caso do senhor que ocupava o segundo lugar na fila. Traz nas mãos um saco com mais de 14 livros para serem assinados, desde Kane & Abel, originalmente publicado em 1979, até ao primeiro da saga dos Clifton, Só o Tempo Dirá, de 2011.

 

 

 

 

 

 

Escritor por Engano

Terminada a sessão de autógrafos, segue-se uma conversa com João Paulo Sacadura (um rosto que nos habituámos a ver na televisão), no espaço Autores que nos Unem, da Porto Editora. É nas filas que aguardam ansiosamente pela entrevista de Archer que conhecemos Joana, que conversa animadamente sobre a escrita envolvente e o ritmo rápido dos livros do autor, com outros fãs. Esta não é a sua primeira sessão de autógrafos. Na verdade, é quando nos mostra a sua obra favorita, Not a Penny More, Not a Penny Less, que vemos um amor que volta a casa duas vezes – em 1983 e, agora, em 2019.

 

A EDIÇÃO DE JOANA DO LIVRO NOT A PENNY MORE, NOT A PENNY LESS, COM OS DOIS AUTÓGRAFOS DO ESCRITOR

 

Durante a conversa com o jornalista, Archer conta como começou a escrever por engano, após estar praticamente à beira da falência. Compara-se com Jane Austen e Alexandre Dumas, por gostar de se ver como um contador de histórias e não tanto como um escritor. “São os contadores de histórias que sobrevivem. O Conde de Monte Cristo continua a ser um livro popular. Jane Austen continua a ser popular. Eram bons escritores, mas não eram ótimos escritores. Eram, sim, ótimos contadores de histórias.”

Se dúvidas houvesse de que o autor é um ótimo contador de histórias, o número de livros vendidos decerto as dissipariam. Os seus leitores também, desde as gerações mais novas, às mais velhas. Sentadas na fila da frente, avó e neta esperam pelo final da entrevista para obterem os autógrafos que não conseguiram mais cedo. Com 85 anos, foi com Jeffrey Archer que esta avó, de cabelos grisalhos e rosto terno, recuperou o gosto pela leitura, ao embrenhar-se nos sete livros das Crónicas de Clifton, por sugestão da neta. Leu-os todos em menos de um ano. “Só descansei quando cheguei ao último”, esclarece, realçando que é quase impossível haver personagens como as desta série, que passa por “várias gerações e qual delas a mais inteligente”. 

 

Um Bailado Sem Atalhos

Jeffrey Archer descreve o seu método de escrita como meticuloso e difícil. “O primeiro rascunho demora 300 horas e o 14º rascunho, normalmente aquele que levo à editora, demora 1000 horas”, explica. Não existem atalhos para ele, apenas muito trabalho e a certeza de que nada o vai impedir de escrever. Quando lhe dizem que querem escrever um livro, a resposta é sempre a mesma: “Vá ao ballet“. Primeiro, observe o dançarino principal e imagine as horas que passaram a treinar até conseguir ser o dançarino principal. Depois, foque-se nos outros dançarinos e pense nas horas passadas a treinar para estarem ali. E, por último, pense nas centenas de pessoas que adorariam estar naquele palco. “Não há diferença se quiser entrar na New York’s Bestseller List”.

Para o escritor, é assim que se chega ao número um. Seja a dançar ou a escrever. Garante que o aterroriza a ideia de parar. A melhor forma de morrer? Como Dickens, que se levantou da sua secretária e foi direto ao sofá, não mais abrindo os olhos.

 

 

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