Escrito em 1880 por Jens Peter Jacobsen, talvez o maior romancista dinamarquês do século XIX, e considerado uma obra-prima da literatura escandinava, Niels Lyhne nasceu como projeto de um romance acerca do ateísmo. Quem no-lo diz é Claudio Magris, no posfácio desta edição da Antígona. Segundo o escritor italiano, o título inicial era, inclusive, Atheisten, reflexo das próprias convicções de Jacobsen. Porém, Niels Lyhne é muito mais do que um romance sobre o ateísmo ou um romance de formação. Embora omnipresente, há um universo de reflexões acerca da mulher, da igualdade de género, da adequação social, do casamento, do adultério e do amor, que fazem desta uma obra profundamente idiossincrática, que desafia classificações. A tradução de Elisabete M. de Sousa é, em todos os aspetos, excecional, fazendo jus ao que muito se tem dito do livro, nomeadamente o que dele escreveu Rainer Maria Rilke, que lhe chamou "um livro dos esplendores e das profundezas".
Niels Lyhne tinha tudo para vir a ser um inconformista, a começar por uma educação dividida entre o afeto de uma mãe, que amava a poesia, e de um pai, que amava a terra. "Em dias que tais, esquivava-se da mãe e, com a sensação de que seguia um instinto pouco nobre, ia em busca do pai e, de boa vontade e mente aberta, dava ouvidos ao pai e a todos aqueles pensamentos ligados à terra e às explicações despidas de sonhos. E sentia-se tão bem junto dele, […] que quase se esquecia de que este era o mesmo pai que costumava menosprezar do alto do seu castelo […]." Funambulando entre os dois, entre a imaginação e o lirismo que a mãe se esforçava por alimentar nele, e a profunda introspeção que desde cedo lhe media os passos, o jovem Niels foi crescendo até que, aos doze anos, uma figura veio suspender-lhe a infância bucólica: a jovem Edele, uma tia vinda de Copenhaga para recuperar a saúde com os ares do campo. No dia em que a viu deitada sobre o canapé, de pernas descobertas, impôs-se-lhe uma devoção cega — "[…] beijava vezes sem-fim o tapetinho em frente da cama dela, o sapato dela, qualquer outra relíquia que ali se oferecesse ao seu fanatismo" —, que iria, inclusive, pôr à prova a fé do jovem Niels. Pois no dia em que rogou ao Deus-Pai que poupasse a tia à morte e viu as suas súplicas ignoradas "[…] escorraçou-o do seu coração". "[…] Se Deus lhe virara costas, também ele poderia virar costas a Deus. Se Deus não tinha ouvidos, então, ele também não moveria os lábios; se Deus não tinha misericórdia, então, também ele não teria adoração […]."
A consciência da sua própria solidão no mundo, "excluído da custódia dos céus", e sem anjo que o guardasse, é um momento de grande fulgor narrativo, que determinará o percurso do jovem Niels, agora e para sempre ateu convicto, em busca do significado da vida através da arte, da amizade e do amor romântico. Apesar de se autointitular poeta, "Mãe, sou poeta… de verdade, com toda a minha alma", ao longo do romance, vemo-lo mais como alguém que procura o amor do poeta do que alguém empenhado em levar o seu sonho avante. "De vez em quando, sobe-lhe o ímpeto de criar num jorro, com o anseio de ver uma parte de si mesmo libertar-se numa obra da sua lavra, e há dias inteiros em que o seu ser é dominado pela tensão de esforços felizes e titânicos para moldar o seu barro […]. Mas nunca chega a criá-la à sua imagem e semelhança; não tem a persistência necessária […]." E, nesta obstinada busca pelo amor, vemos primeiro o jovem Niels, depois o adulto, tropeçar de enamoramento em enamoramento, sempre convencido de ter, enfim, encontrado o amor, primeiro junto da senhora Boye, com quem desenvolve "uma relação peculiar, nascida do amor humilde de um jovem, uma atração que era fruto de uma fantasia sonhadora e da volúpia de uma mulher que deseja ser cobiçada", depois, da prima Fennimore, a mulher inicialmente santificada — "Sentia necessidade de se humilhar diante dela e, de joelhos, chamar-lhe santa" — e cuja imagem ele acabará por corromper, num volte-face trágico, depois de Madame Odéro, com quem tem uma relação fugaz, que o levará a querer regressar à terra e à casa que o viram nascer, numesvaziamento do entusiasmo e das suas próprias ilusões. "Não conseguia suportar mais a indiferença da existência, ser repelido de todos os lados e ser sempre arremessado de volta contra si mesmo. Sem lar na terra, sem Deus no céu, sem objectivo para o futuro! Queria, ao menos, ter um lar […]."
Será aí, em Lonborggaard, no regresso às raízes, que encontrará alguma paz e o afeto e a adoração de uma jovem com quem mais tarde se casará e de quem terá um filho. O destino trágico dos dois é-o ainda mais na medida em que vem validar a inexistência de um deus misericordioso, quem sabe capaz de salvar Niels Lyhne do seu ateísmo desamparado. Todavia, um dos méritos deste livro é precisamente o facto de Niels Lyhne se manter fiel às suas convicções, mesmo diante da morte, que tantas vezes corrompe as crenças mais arreigadas. Ele é o herói íntegro, fiel a si mesmo, ainda que derrubado uma e outra vez pelas duras circunstâncias da vida.