O economista e autor Thomas Piketty celebra hoje, a 7 de maio, 55 anos. O timing é auspicioso: o mês de maio, inaugurado pelo Dia do Trabalhador, é pontuado pelo aniversário de Karl Marx logo no dia 5 (curiosamente partilhado com o filósofo Søren Kierkegaard), e a data de nascimento de Freud assim como o falecimento de Henry David Thoreau assinalam a véspera do aniversário de Piketty.
Entre os vários comemorados existe sem dúvida uma multiplicidade de abordagens e valores, mas todos partilham com o economista francês o olhar crítico e subversivo sobre o mundo. A afinidade mais evidente seria com Marx, na sua análise do sistema capitalista e problematização da desigualdade económica, mas mesmo aí, encontra rapidamente divergências.
O autor, editado em Portugal pela Temas e Debates, enquadra-se numa vertente social-democrata: apesar das duras críticas que tece ao atual sistema económico, as soluções que propõe são reformas e não anulamentos radicais do sistema capitalista. Não deixa, no entanto, de procurar uma alternativa, e de se alinhar com a ideologia socialista. Nas suas palavras:
A história decidirá se a palavra "socialismo" está definitivamente morta e deve ser substituída. A meu ver, penso que pode ser salva e até que continua a ser o termo mais apropriado para designar a ideia de um sistema económico alternativo ao capitalismo.
Thomas Piketty pode orgulhar-se de um percurso académico notável, começando pelo doutoramento completado aos 22 anos, pela École des Hautes Études en Sciences Sociales em Paris e a London School of Economics, no qual defendeu uma tese sobre redistribuição de riqueza. Depois de um período a lecionar no MIT, regressou a França, onde viria a ser um dos fundadores da Escola de Economia de Paris.
Em 2013, ganhou destaque internacional com o seu livro O Capital no século XXI, que já vendeu mais de um milhão de cópias. A sua abordagem distingue-se pelo trabalho empírico e histórico exaustivo que está na base da sua obra, em contraste com muitos economistas contemporâneos, que trabalham com modelos teóricos e com dados mais recentes.
Ficou curioso? Conheça algumas das suas ideias centrais.
1. A lei tendencial “r > g”
É a fórmula mais famosa de Piketty: quando a taxa de retorno do capital (r) é superior à taxa de crescimento económico (g), os detentores de capital acumulam riqueza mais rapidamente do que o conjunto da economia cresce, ampliando a desigualdade. Ou seja, a riqueza acumula-se mais depressa do que a economia cresce. Este conceito relaciona-se com a ideia de que o capitalismo tem uma propensão intrínseca a concentrar riqueza, uma ideia que podemos traçar para pensadores socialistas clássicos como Marx, e Silvia Federicci na contemporaneidade. É aprofundado por Piketty em O Capital no Século XXI, no qual analisa dados de vinte países, ao longo de mais de três séculos, para discernir padrões socioeconómicos fundamentais, e retomado de forma mais sintética em Uma Breve História da Igualdade (2022).
2. Tributar a riqueza
Uma das propostas práticas mais debatidas de Piketty é a criação de um imposto progressivo e global sobre o capital (com a particularidade de incidir sobre o património, não apenas o rendimento), como mecanismo de redistribuição, com o fim de travar a acumulação e a tendência r > g. Esta proposta é apresentada inicialmente em O Capital no Século XXI, mas é em Capital e Ideologia (2020) que encontra a sua formulação mais ambiciosa e radical, com a ideia de uma "dotação universal": uma herança concedida a todos os cidadãos ao atingirem a maioridade, financiada pela tributação das grandes fortunas.
3. A desigualdade não é inata, é adquirida
O ensaio Natureza, Cultura e Desigualdades (2024) contribui para o antigo debate sobre o peso de fatores socioculturais (como as políticas educativas e fiscais em vigor), face ao determinismo da natureza (como os recursos geográficos ou a ideia de talento individual inato), na origem das clivagens sociais e económicas que moldam e fragmentam o mundo. Piketty não permanece neutro: defende a artificialidade da desigualdade. Esta posição oferece legitimação teórica às proposições políticas que caracterizam a sua obra, que, tal como qualquer outra proposta socialista, assentam na premissa de que a desigualdade não é um fado inevitável e intrínseco das sociedades humanas, mas sim uma tendência patológica, possível de corrigir.
4. A ecologia no centro do debate
Em Pelo Socialismo Ecológico (2025), o livro mais recente de Piketty editado em Portugal, o economista francês alarga o enquadramento do problema da desigualdade económica, colocando a crise ambiental no centro da sua proposta política. Contra o neoliberalismo resignado e o individualismo crescente, defende um modelo em que a justiça social e a responsabilidade ambiental são aliados necessários, não sendo possível, segundo o autor, pôr em causa a desigualdade sem combater simultaneamente a destruição do planeta — e vice-versa. O autor adota esta perspetiva intersecional também em outros aspetos, com o feminismo e o antirracismo apresentados como lutas intrínsecas ao projeto socialista, uma posição evidente no livro Medir o Racismo, Vencer as Discriminações (2023).
5. A ideologia serve a legitimação da desigualdade
Em Capital e Ideologia, Piketty aborda a ideia de que o decorrer da normalidade das sociedades se sustenta em narrativas ideológicas, que tornam as hierarquias económicas justificáveis e aceitáveis. O argumento é de que sem legitimação ideológica, a desigualdade na distribuição e acesso a recursos se tornaria politicamente insustentável. É o conceito fundador deste livro, e uma contribuição importante para a exploração do papel da ideologia na sociedade atual, que podemos contextualizar com o trabalho de Gramsci, Louis Althusser e também Slavoj Zizek. Esta ideia é resgatada em alguns dos textos de Pelo Socialismo!, uma antologia das crónicas escritas para o jornal Le Monde, que adota um tom mais reivindicativo. No prefácio, o autor afirma:
Se, em 1990, me tivessem dito que, em 2020, publicaria um livro intitulado Pelo socialismo!, julgaria que se tratava de uma piada de mau gosto. Só que, trinta anos depois, em 2020, o hipercapitalismo foi demasiado longe e, agora, estou convencido de que devemos pensar numa nova superação do capitalismo, uma nova forma de socialismo, participativo e descentralizado, federal e democrático, ecológico, miscigenado e feminista.
6. Democratizar e centralizar ao nível europeu
Por Um Tratado de Democratização da Europa (2017, em co-autoria) centra-se na proposta de uma assembleia parlamentar europeia com poder orçamental próprio, ou seja, capaz de implementar políticas fiscais redistributivas à escala continental. É o livro mais focado na dimensão institucional e na política europeia. Neste livro deixa claro que a democratização (e a democracia) não passa apenas pelo acesso ao sufrágio (apesar do autor apelar a esta dimensão da cidadania em Às Urnas, Cidadãos!), mas traduz-se pela implementação de políticas que permitem uma participação plena e uma real igualdade perante a lei a todos.
Mais sugestões: