Duas ou três ideias sobre… O Capital no Antropoceno

Por: Raquel Fonseca a 2025-09-26

Kohei Saito

Kohei Saito é professor associado de economia política na Universidade da Cidade de Osaka e na Universidade de Tóquio. Doutorado pela Universidade Humboldt de Berlim, é a pessoa mais jovem a ser premiada com o prestigiado Prémio Deutscher, atribuído pela sua investigação na tradição marxista. Autor de vários artigos sobre a ecologia de Marx, Saito obteve um grande sucesso e reconhecimento com O Capital no Antropoceno, um bestseller que gerou um forte impacto no Japão, impulsionando uma nova onda de interesse pela economia climática e pelas soluções para a crise ambiental.

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Publicado originalmente em 2020, O Capital no Antropoceno (Hitoshinsei no Shihonron, no título original em japonês), tornou-se rapidamente um bestseller no Japão, e agora internacionalmente. Este sucesso de vendas, mediatismo e reconhecimento da crítica catapultou o autor Kohei Saito do seu reservado círculo académico para um relativo estrelato enquanto pensador Marxista lido amplamente – um feito improvável para uma obra que apresenta uma tese frontalmente anti-capitalista. A autora irlandesa Sally Rooney inclui este título na lista de livros que leu enquanto escrevia o seu último romance Intermezzo, e elogia o autor por oferecer “uma reflexão acessível e convincente” sobre a dependência do nosso sistema económico no crescimento e nos estilos de vida intensivos.

O economista e filósofo propõe neste livro uma interpretação da doutrina de Karl Marx, especialmente a obra seminal O Capital, face a vários problemas contemporâneos, utilizando por vezes o contexto histórico do Japão na sua análise. Nesta obra, faz sobretudo a relação com o Antropoceno, um época geológica proposta por muitos pensadores, caracterizada pela alteração profunda e irreversível do planeta Terra pelos seres humanos. O texto divide-se em diversos ensaios breves que abordam a relação entre capitalismo, sociedade e natureza, com uma voz clara e crítica. Concordemos ou não com a perspetiva do autor sobre o papel da ecologia e decrescimento na obra de Marx e sobre a estratégia ecossocialista no combate às alterações climáticas, vale a pena considerar a sua análise e propostas de solução para este problema cada vez mas urgente. Saito expõe a sua tese com um toque saudável de otimismo e entusiasmo, um tom por vezes raro dentro desta temática tão desanimadora: conheça algumas das ideias centrais do seu livro.

 

Só o decrescimento pode conter a crise climática

Esta é a tese central do livro de Saito, sem dúvida ousada no mundo atual, e defendida ao longo do livro contra os vários argumentos habitualmente empregados para a descredibilizar. O principal destes argumentos é o de que o progresso tecnológico, impulsionado pelo contínuo crescimento económico, nos vai salvar: o desenvolvimento de tecnologias cada vez mais sofisticadas permitirá resolver os problemas causados pelas mudanças climáticas. Em paralelo, surge a noção de que os países desenvolvidos, apesar do seu muito superior consumo de recursos, são “amigos do ambiente” devido à sua adoção destas tecnologias. Kohei Saito alerta para o perigo destes argumentos, que atribuem os níveis reduzidos de poluição em alguns países à sua prosperidade económica, ignorando que estas reduções podem ser explicadas pela transferência da extração de recursos para a produção de tecnologias verdes, e todos os impactos associados, para a periferia global.

Neste contexto, problematiza até algumas propostas consideradas progressistas, como o Green New Deal dos Democratas norte-americanos, ou outras estratégias predicadas na expansão das tecnologias “verdes”, como mero greenwashing. Um exemplo clássico é o dos automóveis elétricos: a ideia de que o elevado número de automóveis no mundo ocidental será sustentável se estes forem elétricos, ignora os custos ambientais envolvidos para os produzir, cada ano, cada mês, em maior número tal como o crescimento económico capitalista exige. Critica assim o conceito de decoupling, popular no campo da economia contemporânea, que considera possível um desvincular do crescimento económico em relação aos impactos ambientais e sociais: para Saito, utilizando a doutrina marxista, o crescimento implica sempre mais extração, algo que nunca poderá ser sustentável.

O filósofo japonês não deixa, no entanto, de considerar o argumento de que o decrescimento pode levar a estagnação, especialmente no contexto dos países ditos em desenvolvimento, propondo um decrescimento livre, igualitário e justo. Para o autor, “o que precisa de ser reduzido são os SUV, a carne bovina e a fast fashion, não a educação, a segurança social ou as artes”,

 

O capitalismo produz escassez

“O capitalismo, que gera escassez ao mesmo tempo que obtém lucros, é o que traz escassez para as nossas vidas. O comunismo de decrescimento, que reconstrói o ‘comum’ que foi desmantelado pelo capitalismo, deve tornar possível viver uma vida mais humana e abundante.”

Saito pega no argumento de que o capitalismo gera riqueza material, não negando que esta afirmação possua alguma verdade, mas para debatê-la com a ideia de que, para 99% de nós, a expansão deste sistema económico tem historicamente gerado mais e mais escassez. Para explicar esta aparente contradição, emprega a crítica marxista para demonstrar que o aumento da riqueza privada diminui a riqueza pública, utilizando como exemplo a crise da habitação. Especialmente nas grandes cidades, os imóveis são adquiridos por valores progressivamente mais elevados, para efeitos de especulação – o que gera imensa riqueza, em termos absolutos. A consequência, no entanto, é a proliferação das casa vazias, que não estão a ser usadas para o fim devido da habitação, assim como das casas com rendas ou custos fora das capacidades económicas duma maioria crescente da população. Para Saito, esta escassez artificial adquire dimensões escandalosas de injustiça social, especialmente quando coexiste com a realidade das muitas pessoas que vivem em situações precárias, inadequadas ou até sem acesso a abrigo algum.

O autor desenvolve esta ideia utilizando o conceito da acumulação intrínseca, que descreve o processo histórico de “cercamento” e privatização das terras que antes eram exploradas coletivamente. Este processo ocorreu inicialmente na Inglaterra do século XVI, e, segundo Saito, é analisada por Marx como o processo de desmantelamento da abundância natural da Terra, permitindo o crescimento do modelo capitalista à custa do empobrecimento e despojamento das populações.

 

Marx continua mal compreendido

As ideias de Kohei Saito fazem parte de uma quebra com o marxismo tradicional, concretamente o seu enlaçe com ideias produtivistas, algo incompatíveis com a noção de decrescimento. O autor japonês apoia-se na sua própria interpretação dos manuscritos de Marx, escritos perto do fim da sua vida, para argumentar que Friedrich Engels, quando publicou os dois últimos volumes de O Capital, não integrou as ideias mais radicais, relacionadas com ecologia, que Marx desenvolveu tardiamente. Considera assim a edição final desta obra, a mais significativa do pensamento de Marx, como inacabada ou mesmo revisionista, e tenta fazer a ponte entre as interpretações mais tradicionais e o que considera ser a tardia transformação teórica do filósofo, realçando as ideias que na sua ótica são as mais importantes para lidar com os problemas do antropoceno.

Adicionalmente, Saito critica o eurocentrismo em O Capital, expresso numa concepção de desenvolvimento económico que projeta a história europeia sobre o resto do mundo. Ecoa assim a crítica original de Edward Said, uma das principais figuras dos estudos anti-coloniais, para desenvolver o seu próprio desafio a certas vertentes do marxismo. Propõe, assim, que enfrentar o modelo imperial de produção é essencial para uma sociedade livre, igualitária e justa.

 


Independentemente do que achamos sobre as ideias de Kohei Saito, o importante é não esquecer a nossa própria agência, e não deixar de pensar e agir sobre o mundo de acordo com as nossas próprias ideias. Nas palavras de Marx"Os filósofos apenas interpretam o mundo, de diversas formas. O objetivo, no entanto, é mudá-lo".

 

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