Sessenta anos depois, o mundo ainda precisa de Hesse

Por: Cláudia Oliveira a 2026-07-02

Hermann Hesse

Hermann Hesse

PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 1946

Romancista e poeta alemão, Hermann Hesse nasceu em 1877 na pequena cidade de Calw, na orla da Floresta Negra e no estado de Wüttenberg. Como os pais depositavam esperanças no facto de Hermann Hesse poder vir a seguir a tradição familiar em teologia, enviaram-no para o seminário protestante de Maulbronn, em 1891, mas acabou por ser expulso. Passando a uma escola secular, o jovem Hermann tornou a revelar inadaptação, pelo que abandonou os seus estudos.
Hermann Hesse começou depois a trabalhar, primeiro como aprendiz de relojoeiro, como empregado de balcão numa livraria, como mecânico, e depois como livreiro em Tübingen, onde se teria juntado a uma tertúlia literária, "Le Petit Cénacle", que teria, não só grandemente fomentado a voracidade de leitura em Hesse, como também determinado a sua vocação para a escrita. Assim, em 1899, Hermann Hesse publicou os seus primeiros trabalhos, Romantischer Lieder e Eine Stunde Hinter Mitternacht , volumes de poesia de juventude.
Depois da aparição de Peter Camenzind, em 1904, Hesse tornou-se escritor a tempo inteiro. Na obra, refletindo o ideal de Jean-Jacques Rousseau do regresso à Natureza, o protagonista resolve abandonar a grande cidade para viver como São Francisco de Assis. O livro obteve grande aceitação por parte do público.
Em 1911, e durante quatro meses, Hermann Hesse visitou a Índia, que o teria desiludido mas, em contrapartida, constituído uma motivação no estudo das religiões orientais. No ano seguinte, o escritor e a sua família assentaram arraiais na Suíça. Nesse período, não só a sua esposa começou a dar sinais de instabilidade mental, como um dos seus filhos adoeceu gravemente. No romance Rosshalde (1914), o autor explora a questão do casamento ser ou não conveniente para os artistas, fazendo, no fundo, uma introspeção dos seus problemas pessoais.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Hesse demonstrou ser desfavorável ao militarismo e ao nacionalismo que se faziam sentir na altura e, da sua residência na Suíça, procurou defender os interesses e a melhoria das condições dos prisioneiros de guerra, o que lhe valeu ser considerado pelos seus compatriotas como traidor.
Finda a guerra, Hesse publicou o seu primeiro grande romance de sucesso, Demian (1919). A obra, de caráter faustiano, refletia o crescente interesse do escritor pela psicanálise de Carl Jung, e foi louvada por Thomas Mann. Assinada nas primeiras edições com o nome do seu narrador, Emil Sinclair, Hesse acabaria por confessar a sua autoria. Deixando a sua família em 1919, Hermann Hesse mudou-se para o Sul da Suíça, para Montagnola, onde se dedicou à escrita de Siddharta (1922), romance largamente influenciado pelas culturas hindu e chinesa e que, recriando a fase inicial da vida de Buda, nos conta a vida de um filho de um Bramane que se revolta contra os ensinamentos e tradições do seu pai, até poder eventualmente encontrar a iluminação espiritual. A obra, traduzida para a língua inglesa nos anos 50, marcou definitivamente a geração Beat norte-americana.
1919 foi também o ano em que Hesse travou conhecimento com Ruth Wenger, filha da escritora suíça Lisa Wenger e bastante mais nova que o autor. O escritor renunciou à cidadania alemã, em 1923, optando pela suíça. Divorciando-se da sua primeira esposa, Maria Bernoulli, casou com Ruth Wenger em 1924, tendo o casamento durado apenas alguns meses. Dessa experiência teria resultado uma das suas obras mais importantes, Der Steppenwolf (1927). No romance, o protagonista Harry Haller confronta a sua crise de meia-idade com a escolha entre a vida da ação ou da contemplação, numa dualidade que acaba por caracterizar toda a estrutura da obra.
Em 1931 voltou a casar, desta feita com Ninon Doldin, de origem judaica. Com apenas quatorze anos, havia enviado, em 1909, uma carta a Hermann Hesse, e desde então a correspondência entre ambos não mais cessou. Conhecendo-se acidentalmente em 1926, foram viver juntos para a Casa Bodmer, estando Ninon separada do pintor B. F. Doldin, e a existência de Hesse ter-se-à tornado mais serena.
Durante o regime Nacional-Socialista, os livros de Hermann Hesse continuaram a ser publicados, tendo sido protegidos por uma circular secreta de Joseph Goebbels em 1937. Quando escreveu para o jornal pró-regime Frankfürter Zeitung, os refugiados judeus em França acusaram-no de apoiar os Nazis. Embora Hesse nunca se tivesse abertamente oposto ao regime Nacional-Socialista, procurou auxiliar os refugiados políticos. Em 1943 foi finalmente publicada a obra Das Glasperlernspiel, na qual Hesse tinha começado a trabalhar em 1931. Tendo enviado o manuscrito, em 1942, para Berlim, foi-lhe recusada a edição e o autor foi colocado na Lista Negra Nacional-Socialista. Não obstante, a obra valer-lhe-ia o prémio Nobel em 1946.
Após a atribuição do famoso galardão, Hesse não publicou mais nenhuma obra de calibre. Entre 1945 e 1962 escreveria cerca de meia centena de poemas e trinta e dois artigos para os jornais suíços.
A nove de agosto de 1962, Hermann Hesse veio a falecer, aos oitenta e cinco anos, durante o sono, vítima de uma hemorragia cerebral.

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Nascido em Calw, na Alemanha, a 2 de julho de 1877, e falecido em Montagnola, na Suíça, a 9 de agosto de 1962, Hermann Hesse atravessou duas guerras mundiais e uma longa busca espiritual que o levou até à Índia, ao Sri Lanka e à Indonésia antes de se tornar, em 1946, Prémio Nobel da Literatura. Mas o verdadeiro prémio do seu percurso não foi o galardão: foi a forma como a sua escrita continuou a ecoar muito depois do seu desaparecimento.

O que torna Hesse um autor tão singular é a maneira como ele transformou esse desconforto pessoal em literatura universal. Nascido no seio de uma família de missionários pietistas e formado para seguir um caminho religioso (do qual ele se afastou num ato de rebeldia), escreveu sempre a partir das suas próprias feridas. A vida pessoal foi turbulenta, marcada por três casamentos, depressões e crises repetidas, e é precisamente esse material humano bruto que alimenta a sua escrita com uma honestidade difícil de ignorar. Em Hans - Sob o Peso das Rodas, denunciou um sistema educativo que esmaga a singularidade dos jovens; em Demian, escrito durante uma depressão profunda e sob forte influência da psicanálise junguiana, traçou o caminho doloroso de um rapaz em busca de si mesmo.

Esta ideia que atravessa toda a sua obra, de que a literatura mais honesta nasce do confronto direto com as próprias sombras, viria a inspirar inúmeros escritores depois dele.

O seu posicionamento político foi igualmente claro: numa época em que muitos preferiam o silêncio, Hesse criticou abertamente o militarismo alemão durante a Primeira Guerra Mundial, e quando o nazismo tomou o poder, recusou qualquer conivência. Assim, a sua obra foi menosprezada e praticamente apagada pelo regime, tendo ele inclusive chegado a acolher em sua casa refugiados alemães, entre os quais figuras como Thomas Mann e Bertolt Brecht. Num tempo em que era perigoso ser o que era, Hesse não se desviou.

Em 1922, depois de uma viagem à Índia em busca de respostas espirituais que, confessadamente, não encontrou da forma que esperava, publicou Siddhartha, um romance lírico sobre a procura individual da sabedoria, livre de qualquer doutrina fechada. Cinco anos depois surge O Lobo das Estepes, talvez a sua obra mais célebre, na qual o solitário Harry Haller trava um combate feroz contra os valores de uma sociedade burguesa em decadência.

Estes dois livros tornaram-se, mais tarde, símbolos de uma forma de literatura existencial e espiritual, que recusa respostas fáceis e convida o leitor a fazer o seu próprio caminho, em vez de lhe entregar conclusões prontas.

Em meados da década de 1960, os seus romances tornaram-se autênticos bestsellers entre a geração da contracultura. Os temas da busca espiritual presentes em Siddhartha, Viagem ao País da Manhã e O Jogo das Contas de Vidro encontraram eco nos ideais dessa nova geração. Foi este reencontro tardio que consolidou Hesse como uma referência incontornável para escritores que viriam a explorar, nas décadas seguintes, temas como a procura de identidade, a espiritualidade não dogmática e a crítica aos valores estabelecidos.

E é precisamente aí que reside o seu legado mais visível nos dias de hoje: a influência de Hesse continua presente sempre que uma obra explora a crise de identidade do protagonista como o verdadeiro enredo, mais do que qualquer ação exterior. O seu interesse pelo budismo, pelo taoísmo e pelo gnosticismo, sem nunca aderir formalmente a nenhuma dessas tradições, abriu espaço para uma literatura que encara a espiritualidade como pergunta, não como resposta fechada, num território que continua a ser explorado por autores de várias línguas e gerações.

Mais de sessenta anos depois da sua morte, Hermann Hesse continua traduzido em dezenas de idiomas e continua a ser uma porta de entrada para leitores jovens em busca de algo que os ajude a pensar sobre quem são. Para os escritores deste tempo, fica sobretudo uma lição simples e exigente: a de que a literatura pode ser, acima de tudo, um espaço de procura honesta, onde as perguntas valem tanto, ou mais, do que as respostas.

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