Quebrar silêncios – "Querido pai", de Joana Pontes e Ana Vargas

Por: Paulo Nóbrega Serra a 2025-08-01

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Querido Pai, Uma conversa entre ausentes — Cartas da guerra, 1961–1975, de Joana Pontes e Ana Vargas, chegou às livrarias em julho com selo da Tinta-da-china. O leitor que aqui se aventure pode presumir de forma errónea, tratar-se tão simplesmente de uma antologia de cartas. No índice, surgem elencados 14 nomes de homens que correspondem a capítulos ou secções, e um capítulo adicional: "XV. Outras famílias" (no qual se evocam histórias isoladas de outras tantas famílias). As autoras contactaram 14 famílias e conseguiram até falar com 4 dos militares envolvidos.

Quando iniciamos a leitura, depressa se percebe que aqui se vai muito além de uma antologia de cartas. O livro reparte-se em 14 "histórias familiares, com as suas especificidades e com o que têm comum, as preocupações transversais relacionadas com a ausência do pai."

Ana Vargas nasceu em Díli (Timor-Leste). Licenciada em Direito, pós-graduou-se em Artes da Escrita. Joana Pontes, doutorada em História, publicou (também na Tinta-da-china) Sinais de Vida: Cartas da Guerra, 1961–1974, em 2019 (Prémio Fundação Calouste Gulbenkian para a História Moderna e Contemporânea da Academia Portuguesa da História). As autoras conheciam-se apenas circunstancialmente. Unia-as, contudo, um laço geracional: partilhavam o serem filhas de militares mobilizados para a Guerra.

Nos 13 anos de Guerra do Ultramar, de Angola para Portugal, de Portugal para Moçambique, de Moçambique para a Guiné, entre namorados, pais e filhos, amigos e camaradas de armas, circularam milhares de cartas. O correio entre as colónias e a metrópole atingia dez toneladas por dia — estima-se que o total de correspondência ronde as 21 000 toneladas.
 

Escreve Aniceto Afonso, no Prefácio, que [todas] "As guerras, de uma forma geral, são inúteis. E, no entanto, parecem inevitáveis.


Joana Pontes relembra que, ao preparar Sinais de Vida, leu cerca de 5 000 cartas. Do resgate dessas missivas, representadas por 16 acervos, com cerca de 4 000 cartas e aerogramas, construíram-se estes sinais de vida dos homens enviados até paragens distantes para continuar a alimentar uma guerra voraz que consumia a vida da nação. Estima-se que tenham sido 600 000 militares durante os 13 anos e 1 mês que durou o conflito, entre março de 1961 e abril de 1974.

Ana Vargas, no entanto, deu por falta das outras vozes silenciadas: "lendo [Sinais de Vida], ficamos a saber o que pensavam e sentiam os militares mobilizados e aqueles com quem se correspondiam: a família, os amigos, as noivas e as namoradas. Mas os filhos não estavam lá". Nasce assim a ideia deste estudo, incluir um pequeno universo nunca abordado das cartas trocadas entre os pais ausentes na guerra e os seus filhos e/ou filhas deixados na metrópole, ou que vieram a nascer depois. Projeto esse que chega agora sob a forma de um magnífico objecto-livro (como é usual nas edições da Tinta-da-china). 

Querido Pai é um apelo, uma mensagem lançada ao futuro desconhecido. Um título que remete para algo tão individual e familiar quanto universal: uma criança à procura de ser ouvida, apesar da distância geográfica e temporal que compunham as comunicações, longe de serem instantâneas.

Numa nota pessoal, Ana Vargas descreve como, encostada ao fundo da sala, permanece "uma caixa de madeira" onde guarda a "correspondência, cartas e postais recebidos, sobretudo durante a minha infância e juventude. (…). Tenho por isso guardadas na caixa conversas que tive com o meu pai, a uma só voz, porque o que lhe escrevi perdeu-se". 

Esta preciosa recolha de correspondência, entre pais e filhos menores, sobretudo mediante contacto pessoal, através de amigos, familiares, conhecidos, permitiu "recolher um número relevante de testemunhos escritos e orais e um número considerável de acervos (cartas, aerogramas, fotografias, gravações, entre outros materiais) que constituíram o arquivo deste projecto", permitindo, assim, dar corpo a estas 300 páginas, onde se incluem ainda imagens a cores.

Escreve Aniceto Afonso, no Prefácio, que [todas] "As guerras, de uma forma geral, são inúteis. E, no entanto, parecem inevitáveis". Afirma ainda o autor, lucidamente, que o tempo que aqui se reconstrói parece "um tempo muito longínquo que não voltará a repetir-se, mas não deixade nos inquietar, porque, afinal, estas cartas são testemunhos de um tempo que muitos portugueses actuais viveram e do qual guardam memórias difíceis".

Como se afirmou de início, Querido Pai vai muito além de uma antologia, pois as cartas compiladas representam cambiantes prismáticas da época, apresentadas no seu enquadramento. Da mesma forma que as autoras contactaram as famílias, os arquivos familiares aqui abertos ao público procuram dar-se a ver num contexto, provocando a necessidade de se alargar o estudo para se poder "considerar o ambiente geral envolvente, tanto das frentes de guerra, como da sociedade que a suportava, assim como das fases que a guerra atravessou e da sua evolução". A história de cada uma destas famílias compreende ainda outro devir, isto é, "o que se passou após o regresso, com os seus silêncios e omissões", fossem eles impostos pelo poder ou voluntários, como forma de sobreviver ao trauma, ao medo, à dor. Até porque a memória da guerra também persiste nas gerações mais novas que com ela conviveram.

As autoras contradizem, afinal, a ideia de que "uma guerra só acaba quando o último soldado desaparecer". Querido Pai constitui-se como uma conversa entre ausentes, para quebrar "silêncios magoados e tristes", reafirmando a importância das cartas de guerra enquanto fontes documentais "porque nos transmitem, dentro das suas limitações, versões e visões muito díspares, mas muito próximas do dia-a-dia da guerra e da sociedade em geral".

Querido Pai, como obra de não ficção, remete-nos ainda para leituras como Cartas da Guerra, de António Lobo Antunes, ou A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, porque é no olhar sobre as coisas ínfimas do quotidiano que se esconde o universal.

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