“Cada livraria condensa o mundo. Não é uma rota aérea, mas um corredor de estantes o que une o teu país e as suas línguas com regiões extensas nas quais se falam outros idiomas. Não é uma fronteira internacional, mas uma passagem – uma simples passagem.” - Jorge Carrión
Há espaços inesquecíveis. Onde gostamos de voltar frequentemente, sozinhos ou acompanhados. São lugares vivos, onde o tempo se eterniza, onde a memória, o refúgio, a paixão e a aventura marcam presença, onde o conhecimento habita e a curiosidade é saciada. Falamos de livrarias.
Por esse mundo fora, encontramos livrarias para todos os gostos e interesses: generalistas, infantis, de banda desenhada, de viagens, de livro antigo e raro, alfarrabistas e até espaços especializados em poesia. O importante é visitá-las, percorrer as suas estantes para descobrir e conhecer o mundo.
Para comemorar os 290 anos da Livraria Bertrand, a mais antiga em funcionamento, sugerimos leituras que elogiam estes espaços, os livros e a leitura, mas também livreiros, editores, autores e leitores.
O jornalista catalão Jorge Carrión oferece-nos uma ode ao livro num elogioso ensaio sobre livrarias. Ao longo do livro é criada uma cronologia, a possível, da história das livrarias e de como se transformaram em espaços culturais e de tertúlia, mas também de resistência política.
Livrarias (Quetzal, 2017) é dedicado a todos aqueles que amam os livros e aos viajantes bibliógrafos, sempre em busca dos espaços mais belos e eruditos. Carrión afirma que uma “livraria não só tem de ser antiga como deve parecê-lo. (…) Quando entramos na Livraria Bertrand, no n.º 73 da Rua Garrett, em Lisboa (…) em pleno coração do Chiado (…) Na primeira sala tudo aponta para esse passado venerável patente na data: a vitrine de livros em destaque; as escadas deslizantes ou o banco- escadote que permite aceder às prateleiras mais altas de estantes vetustas.”
Há livros empolgantes. Arrebatadores. Encantadores. Apaixonantes. Inesquecíveis. Por isso, voltamos sempre para (re)ler e descobrir mais um detalhe precioso. O Infinito num Junco (Bertrand Editora, 2020) convida-nos a embarcar numa viagem à Grécia e a Roma para descobrir histórias deslumbrantes sobre esse artefacto fascinante: o livro. Viajamos no tempo para conhecer o junco enquanto embrião do livro, acompanhar o surgimento da escrita e do papel, a vida dura e solitária dos escribas, mas também para entrar na Biblioteca de Alexandria e tomar consciência de que a profissão de livreiro já foi (ou será que ainda continua a ser?) um ofício de risco.
Irene Vallejo narra-nos, de forma magnífica, a evolução do livro ao longo de trinta séculos e dos diferentes suportes em que a palavra foi, e continua a ser, registada: desde os livros de fumo, pedra, argila, papiro, seda, pele, até aos de plástico, papel e aos suportes mais tecnológicos.
Este é um livro sobre a história dos livros, sobre uma “fabulosa aventura coletiva, a paixão calada de tantos seres humanos.”. Um livro sobre livros, muitos livros. Um verdadeiro elogio ao livro e ao amor que nutrimos por ele.
O Vício dos Livros reúne cerca de trinta textos sobre a leitura e o amor aos livros, mas também sobre curiosidades literárias, reflexões e memórias pessoais. Por vezes num tom autobiográfico e confessional, dá ao leitor a liberdade de pular de texto em texto, vagueando por diferentes geografias, livros, escritores e leitores. A paixão pelos livros, o prazer de ler é transversal a todos os textos, não esquecendo a referência a esses espaços incríveis que são as bibliotecas, ao poder da leitura, entre outras matérias afins. Parece que este vício, o dos livros, é o único aceitável - e até louvável! Há quem o considere virtuoso, por isso, estimado leitor, vá à livraria mais perto de si e desfrute deste vício.
Ler o mundo: Experiências de transmissão cultural nos dias de hoje (Faktoria K de Livros, 2020) é um livro sobre formação de leitores e, neste sentido, interessa a professores, pais, bibliotecários, agentes culturais e a todos aqueles que amam os livros e acreditam nos poderes da leitura. Um manifesto lúcido e necessário. Para que serve ler? Porquê ler hoje? Porquê incitar as crianças a fazê-lo? Estas são algumas das questões que a autora aborda. Devemos ler e dar a ler o livro de Michèle Petit, para que cada leitor, desde a mais tenra idade, seja um cidadão competente, atento, reflexivo e crítico, que desempenhe um papel ativo na criação de sociedades que se querem livres e democráticas. Cidadãos leitores que sejam capazes de ler o mundo.
Em silêncio, a pares ou em voz alta são algumas das formas possíveis de ler. Não importa como se lê, o que importa é ler, ler bem, com fluência, com gosto e entusiasmo. A leitura em voz alta requer treino, implica falar “quer em tom solene, quer em tom intimista, quer em tom declarativo, entre outros, permite dar vida nova ao texto escrito, ou melhor, libertar a vida que as mesmas palavras transportam.” Ler também é ouvir. Se ler em voz alta pressupõe ler devagar, articular bem as palavras, “ser económico e significante nos gestos”, respeitar o ritmo (fazer bem as pausas e os silêncios, e interpretar bem as interjeições), é bem certo que também supõe saber escutar. Quem ouve lê noutro formato. O ouvinte é simultaneamente leitor. A escuta amplia a descoberta de autores, palavras, textos e livros.

Em 1931, Walter Benjamin escreveu um ensaio no qual falava da experiência de desencaixotar a sua biblioteca, sobre a “arte de colecionar”. Em 2018, chega até nós uma reflexão inversa, intitulada Embalando a Minha Biblioteca (Tinta da China, 2018), de Alberto Manguel, que se lê como um manifesto de amor aos livros, à leitura e às bibliotecas.
A biblioteca de Manguel é privada, intimista e humanista. Espaço povoado por “criaturas espantosas”, de “silêncio mediativo”, de leituras apaixonadas e oníricas. Homero, Calímaco, Platão, Dante, Shakespeare, Kafka, Gabriel García Márquez, Borges e muitos outros continuam vivos nas estantes da biblioteca. Este é um lugar de afetos, encontros, amores e desamores, habitado por fantasia e realidade, entre o caos e a ordem, numa busca incessante de identidade. Ao embalar os 35 mil livros, o bibliógrafo argentino reflete sobre a sua relação com os escritores, a literatura e os livros.