Os lugares vivos onde o tempo se eterniza.

Por: Plano Nacional de Leitura a 2022-04-22 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

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Onde os livros nos levam

Um dia, há um livro que muda tudo — a nossa perceção da vida, de nós mesmos, do mundo. Entramos num livro de uma forma e saímos invariavelmente de outra. Afonso Cruz descreve esta metamorfose própria da leitura: "Cada vez que lemos, saímos da leitura como um novo indivíduo que resulta da combinação anímica entre o livro e o leitor.". Umas vezes, essa alteração é subtil, quase impercetível, mas sempre presente. Outras, é verdadeiramente transformadora.

Livros curtos e vidas boas

Numa tarde em que estava sentada numa esplanada a beber um café e a ler um livro, fui interpelada por uma antiga colega de trabalho que apareceu sem eu dar conta: disse-me, em tom jocoso, que eu tinha uma boa vida, pois estava ali, sem fazer nada, "a ler um livrinho ao sol". Achei interessante esta ideia de que uma pessoa que está a ler ao ar livre tem uma vida ótima, porque eu estava de rastos nesse dia, exausta, a ter os meus primeiros trinta minutos sozinha depois de ter sido mãe. 

A demora do livro na rapidez dos dias

À ausência de ruído, chamamos silêncio. Permanecem apenas as oportunidades de redescobrir os sons há muito esquecidos. E, perante o sossego, conseguimos escutar. “Às vezes, o vento traz frases inteiras” — quando foi a última vez que ouvimos o que tem para dizer? Ler estas palavras de Carla Louro, com as quais arranca a sua estreia na poesia, Entra-se na casa pelo pátio, é ser recordada de que o silêncio também pode ser ensurdecedor. Mais do que tudo, é desejar voltar a ser atormentada por ele.

“Cada livraria condensa o mundo. Não é uma rota aérea, mas um corredor de estantes o que une o teu país e as suas línguas com regiões extensas nas quais se falam outros idiomas. Não é uma fronteira internacional, mas uma passagem – uma simples passagem.” - Jorge Carrión 



Há espaços inesquecíveis. Onde gostamos de voltar frequentemente, sozinhos ou acompanhados. São lugares vivos, onde o tempo se eterniza, onde a memória, o refúgio, a paixão e a aventura marcam presença, onde o conhecimento habita e a curiosidade é saciada.  Falamos de livrarias. 
Por esse mundo fora, encontramos livrarias para todos os gostos e interesses: generalistas, infantis, de banda desenhada, de viagens, de livro antigo e raro, alfarrabistas e até espaços especializados em poesia.  O importante é visitá-las, percorrer as suas estantes para descobrir e conhecer o mundo. 

Para comemorar os 290 anos da Livraria Bertrand, a mais antiga em funcionamento, sugerimos leituras que elogiam estes espaços, os livros e a leitura, mas também livreiros, editores, autores e leitores. 

O jornalista catalão Jorge Carrión oferece-nos uma ode ao livro num elogioso ensaio sobre livrarias. Ao longo do livro é criada uma cronologia, a possível, da história das livrarias e de como se transformaram em espaços culturais e de tertúlia, mas também de resistência política.  

Livrarias (Quetzal, 2017) é dedicado a todos aqueles que amam os livros e aos viajantes bibliógrafos, sempre em busca dos espaços mais belos e eruditos. Carrión afirma que uma “livraria não só tem de ser antiga como deve parecê-lo. (…) Quando entramos na Livraria Bertrand, no n.º 73 da Rua Garrett, em Lisboa (…) em pleno coração do Chiado (…) Na primeira sala tudo aponta para esse passado venerável patente na data: a vitrine de livros em destaque; as escadas deslizantes ou o banco- escadote que permite aceder às prateleiras mais altas de estantes vetustas.” 

Há livros empolgantes. Arrebatadores. Encantadores. Apaixonantes. Inesquecíveis. Por isso, voltamos sempre para (re)ler e descobrir mais um detalhe precioso. O Infinito num Junco (Bertrand Editora, 2020) convida-nos a embarcar numa viagem à Grécia e a Roma para descobrir histórias deslumbrantes sobre esse artefacto fascinante: o livro. Viajamos no tempo para conhecer o junco enquanto embrião do livro, acompanhar o surgimento da escrita e do papel, a vida dura e solitária dos escribas, mas também para entrar na Biblioteca de Alexandria e tomar consciência de que a profissão de livreiro já foi (ou será que ainda continua a ser?) um ofício de risco. 
Irene Vallejo narra-nos, de forma magnífica, a evolução do livro ao longo de trinta séculos e dos diferentes suportes em que a palavra foi, e continua a ser, registada: desde os livros de fumo, pedra, argila, papiro, seda, pele, até aos de plástico, papel e aos suportes mais tecnológicos. 
Este é um livro sobre a história dos livros, sobre uma “fabulosa aventura coletiva, a paixão calada de tantos seres humanos.”. Um livro sobre livros, muitos livros. Um verdadeiro elogio ao livro e ao amor que nutrimos por ele. 

 

 

O Vício dos Livros reúne cerca de trinta textos sobre a leitura e o amor aos livros, mas também sobre curiosidades literárias, reflexões e memórias pessoais. Por vezes num tom autobiográfico e confessional, dá ao leitor a liberdade de pular de texto em texto, vagueando por diferentes geografias, livros, escritores e leitores. A paixão pelos livros, o prazer de ler é transversal a todos os textos, não esquecendo a referência a esses espaços incríveis que são as bibliotecas, ao poder da leitura, entre outras matérias afins. Parece que este vício, o dos livros, é o único aceitável - e até louvável! Há quem o considere virtuoso, por isso, estimado leitor, vá à livraria mais perto de si e desfrute deste vício. 
 

Ler o mundo: Experiências de transmissão cultural nos dias de hoje (Faktoria K de Livros, 2020) é um livro sobre formação de leitores e, neste sentido, interessa a professores, pais, bibliotecários, agentes culturais e a todos aqueles que amam os livros e acreditam nos poderes da leitura. Um manifesto lúcido e necessário. Para que serve ler? Porquê ler hoje? Porquê incitar as crianças a fazê-lo? Estas são algumas das questões que a autora aborda. Devemos ler e dar a ler o livro de Michèle Petit, para que cada leitor, desde a mais tenra idade, seja um cidadão competente, atento, reflexivo e crítico, que desempenhe um papel ativo na criação de sociedades que se querem livres e democráticas. Cidadãos leitores que sejam capazes de ler o mundo.  

 Em silêncio, a pares ou em voz alta são algumas das formas possíveis de ler. Não importa como se lê, o que importa é ler, ler bem, com fluência, com gosto e entusiasmo. A leitura em voz alta requer treino, implica falar “quer em tom solene, quer em tom intimista, quer em tom declarativo, entre outros, permite dar vida nova ao texto escrito, ou melhor, libertar a vida que as mesmas palavras transportam.” Ler também é ouvir. Se ler em voz alta pressupõe ler devagar, articular bem as palavras, “ser económico e significante nos gestos”, respeitar o ritmo (fazer bem as pausas e os silêncios, e interpretar bem as interjeições), é bem certo que também supõe saber escutar. Quem ouve lê noutro formato. O ouvinte é simultaneamente leitor. A escuta amplia a descoberta de autores, palavras, textos e livros.



 

Em 1931, Walter Benjamin escreveu um ensaio no qual falava da experiência de desencaixotar a sua biblioteca, sobre a “arte de colecionar”. Em 2018, chega até nós uma reflexão inversa, intitulada Embalando a Minha Biblioteca (Tinta da China, 2018), de Alberto Manguel, que se lê como um manifesto de amor aos livros, à leitura e às bibliotecas.
A biblioteca de Manguel é privada, intimista e humanista. Espaço povoado por “criaturas espantosas”, de “silêncio mediativo”, de leituras apaixonadas e oníricas. Homero, Calímaco, Platão, Dante, Shakespeare, Kafka, Gabriel García Márquez, Borges e muitos outros continuam vivos nas estantes da biblioteca. Este é um lugar de afetos, encontros, amores e desamores, habitado por fantasia e realidade, entre o caos e a ordem, numa busca incessante de identidade. Ao embalar os 35 mil livros, o bibliógrafo argentino reflete sobre a sua relação com os escritores, a literatura e os livros. 

Opinião dos leitores

pois é, lugares magicos
maria sousa | 28-04-2022
Muito bom. adorei.
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Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.