Mártir!, de Kaveh Akbar — Um mártir refinado

Por: João Morales a 2025-06-11

Kaveh Akbar

Nascido a 15 de janeiro de 1989, Kaveh Akbar é um poeta, romancista e editor iraniano-americano. É autor das coletâneas de poesia Calling a Wolf a Wolf e Pilgrim Bell. O seu romance Mártir!, bestseller do The New York Times, foi finalista do National Book Award e um dos livros favoritos do ano de Barack Obama. Akbar é fundador do Divedapper e editor de poesia da revista The Nation. Em 2018, a NPR denominou-o «o maior incentivador da poesia». Em 2024 recebeu uma bolsa Guggenheim e foi incluído pela Time na lista TIME100 Next 2024.

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Mártir!
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Cyrus Shams quer escrever um livro, desvendar a vida e interpretar o significado da sua morte. Por esta ordem e com a convicção de que o álcool, as drogas, a erudição, as perdas pessoais e uma intuição espiritual apurada lhe permitem. Mártir, talvez, mas refinado.

Cyrus Shams sintetiza o seu pressuposto vital da seguinte forma: “A minha mãe morreu por nada. Um erro de arredondamento. Teve de partilhar a sua morte com outras trezentas pessoas. O meu pai morreu anónimo, depois de décadas a limpar merda de galinha numa exploração avícola qualquer. Eu quero que a minha vida — a minha morte — tenha mais importância do que isso”. Em julho de 1988 (Cyrus nascera em março do mesmo ano), um míssil americano atingiu, por lapso, um avião de comercial da Iran Air onde seguia Roya, a sua mãe. Pouco tempo depois, com Ali, seu pai, aterra nos Estados Unidos, dois iranianos em solo americano, dupla condição que irá nortear uma boa parte das suas dúvidas e incompreensões. Partilham a dor da perda e uma hereditária relutância perante sonos perlongados: “os dois Shams começaram a sua vida na América acordados, anormalmente vigilantes, como duas janelas com os estores arrancados”.

Mártir!, romance de estreia de Kaveh Akbar (cuja poesia recolheu aplausos vários), chegou a Portugal em novembro de 2024 (ano da edição original) pela mão da Relógio D’Água, com tradução de José Miguel Silva. A narrativa assenta na odisseia pessoal de Cyrus, assombrado pela sua relação conturbada com as drogas e o álcool ("primeiro bebes um copo, depois o copo bebe um copo, depois o copo bebe-te a ti"), empenhado em que a sua própria morte tenha um significado (seja lá o que isso for), habitado por fantasmas pessoais, autor de um livro em construção, O LIVRO DOS MÁRTIRES.

A estrutura narrativa do romance de Akbar, que partilha a origem iraniana e a própria atividade literária com o seu protagonista, constrói-se através de capítulos assumidos pelas diferentes personagens, por fragmentos desse “livro por vir” (roubando a mítica expressão do francês Maurice Blanchot), poemas e… sonhos. Um desses capítulos oníricos é o inesquecível encontro entre Roya e… Lisa Simpson (sim, da série de Matt Groening), páginas onde cabem referências a Adélia Prado ou Ray Bradbury.

Os diálogos inventados são um elemento constante na imaginação de Cyrus, desde muito novo. Uma espécie de embrião da necessidade obsessiva de reinventar a realidade. "Foi assim que começou a falar com Xerazade, o Homem-Aranha, Rimbaud. Que se reencontrou com o seu pai. Que voltou a falar com a sua mãe, após anos de um silêncio sem sonhos." Xerazade vem bem a propósito de toda a sucessão de histórias, a articulação entre elas e a oscilação entre tempos, evocando a estratégia basilar em que assentam as Mil e uma Noites, narrativa fabular que adia a morte e distende o tempo.

A minha mãe morreu por nada. Um erro de arredondamento. Teve de partilhar a sua morte com outras trezentas pessoas. O meu pai morreu anónimo, depois de décadas a limpar merda de galinha numa exploração avícola qualquer. Eu quero que a minha vida — a minha morte — tenha mais importância do que isso.

A galeria de figuras integra também Zee, colega “colorido” que divide o quarto (e não só) com Cyrus (“apenas dois homens semidecentes a partilhar um cobertor”). Ou variações sobre o conceito de mártir, como a história de Arash Shirazi, o tio, um anjo negro que percorre a frente de batalha no Irão, ostentando uma túnica negra, de rosto fantasmagoricamente iluminado por uma lanterna, com a missão de impedir o suicídio dos moribundos, assegurando que os mais elevados desígnios místicos beneficiarão do seu sacrifício. Ou ainda Orkideth.

Orkideth, artista plástica internacionalmente aclamada, criou a instalação FALA-MORTE, no Museu de Brooklyn, assumindo um pressuposto radical sobre as consequências e o poder da arte, ou da sua capacidade de sublimação da existência. A viver os seus últimos dias, diagnosticada com um cancro letal e irreversível, instalou-se permanentemente no museu, apelando a quem quer que ali se dirija, para falar consigo, ao sabor das palavras. Até que a morte lhe aconteça. Ela e Cyrus vão cruzar-se e terão a conversa mais importante desta odisseia radical.

Um livro com várias formas de ser encarado, assim se coloque a tónica dominante em cada um dos assuntos que aqui surgem elencados. Uns, de forma mais evidente, como a importância da forma como se decide morrer; o ambiente belicista e aterrorizante que enformou a Pérsia em Irão ou o conflito no Médio-Oriente (“fomos nós que a inventámos, a esta língua em que um homem se chama iraquiano, outro se chama iraniano e por isso se matam um ao outro”), a importância do amor verdadeiro ou a verdade que a arte pode transportar, quando assumida como extensão da vida do seu criador. Outros, mais discretamente, como a dúvida sobre o que será “a graça”, elemento dificilmente discernível, mas inerente a uma condição humana feliz ou, pelo menos, equilibrada.

Uma coisa é certa, o primeiro romance deste iraniano crescido e feito homem nos Estados Unidos não nos deixa indiferentes, explorando os matizes da alma humana e a certeza de que ninguém será absolutamente bom ou mau, realçando um sistema de causas e consequências, por muito dissimulado que nos surja: “as histórias de Deus pareciam ser todas assim. Enviesadas, intrincadas. Como uma daquelas complexas máquinas de reacção em cadeia construídas da forma mais disparatada, em que se usa um carril, uma mola, uma vela e um balão para e acionar uma sineta».
 


Kaveh Akbar

Um iraniano-americano. Este é o primeiro romance do poeta e editor Kaveh Akbar, iraniano, nascido em Teerão, em Janeiro de 1989, que chegou aos Estados Unidos com apenas dois anos, passou por New Jersey, Pensilvânia, Wisconsin e Indiana. Em 2017, publicou um pequeno livro de poesia, Portrait of the Alcoholic e, ainda no mesmo ano, Calling a Wolf a Wolf, que chegou à short list dos Forward Prizes for Poetry, mas, mais do que isso, venceu três outros galardões: Ploughshares (do jornal literário homónimo), John C. Zacharis First Book Award (para obras de estreia) e Levis Reading Prize (atribuído pela Virginia Commonwealth University). Com este Mártir!, tornou-se finalista do National Book Award esteve entre os melhores livros do ano para a New York Times, Amazon ou Time, e integrou as escolhas de Barack Obama em 2024.

 

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