Já é conhecido o vencedor de um dos mais prestigiados prémios literários no Reino Unido e internacionalmente, o International Booker Prize 2025: Heart Lamp: Selected Stories, uma antologia de contos da autoria de Banu Mushtaq. A decisão coube aos 5 membros do júri, que integra autores previamente nomeados, editores e outras figuras de destaque do mundo editorial, foi anunciada numa cerimónia muito especial em Londres, sucedendo a Orbital de Samantha Harvey, o vencedor do ano passado.
Este prémio foi criado em 1969 e inicialmente abrangia apenas autores de países pertencentes à Commonwealth britânica, sendo que atualmente inclui escritores de qualquer nacionalidade, tendo como objetivo reconhecer o melhor da produção literária a nível global. Desde 2016 que é atribuído exclusivamente a obras de ficção traduzidas para inglês, sendo que desde esse ano o prémio monetário de 50.000 libras é dividido igualmente entre o autor e o tradutor do livro vencedor. Esta particularidade torna o Booker Prize único pelo seu reconhecimento do trabalho de tradução necessário para fazer chegar os livros a uma audiência internacional.
O vencedor desta edição não é excepção, com o texto original em canarês – língua falada em algumas regiões da Índia e na diáspora, por mais de 65 milhões de pessoas – traduzido para o inglês por Deepa Bhasthi. Heart Lamp foi o primeiro livro escrito neste idioma a ganhar o Booker Prize, tendo sido também a primeira coleção de contos a conquistar o prémio. Reúne 12 contos escritos entre 1990 e 2023, que retratam a vida de mulheres e jovens inseridas num contexto patriarcal, em comunidades do sul da Índia. Esta escolha temática da autora, uma advogada e ativista pelos direitos das mulheres e das minorias face à opressão religiosa e de castas vivenciada nesta região, foi inspirada pelas experiências de mulheres que conheceu e ajudou no decorrer do seu trabalho.
As histórias, escritas num estilo coloquial rico, não carecem de um traço de humor mordaz mas cheio de sensibilidade, e retratam com perspicácia a natureza humana e as relações familiares e comunitárias através de uma variedade de personagens. Alguns dos contos encaram temas difíceis, habilmente e com profundidade. Por exemplo, a história titular 'Heart Lamp' aborda um incidente na vida da própria autora em que, derrotada pela repressão que sentia na sua experiência do casamento, maternidade e domesticidade, se cobre de gasolina. A ignição é impedida pelo seu marido, sendo que na versão contada no livro, são os filhos que impedem a personagem principal de continuar a sua intenção, relembrando-a do amor e compreensão que nutrem por ela. Neste livro escrito por Deepa Bhasti ao longo de 30 anos, as mães, avós e filhas estão no centro da narrativa, mas os irmãos, pais, maridos e outros intervenientes não são um mero contraponto, com a autora a ser aplaudida pela veracidade e complexidade emocional que concede a todas as personagens.
O júri enaltece a qualidade da tradução, considerada inovadora na sua abordagem à linguagem - criando “uma pluralidade de inglês”, nas palavras do jurado Max Porter, que considera que o livro oferece uma perspetiva inédita para leitores de língua inglesa. Nas suas palavras, “Estas histórias belas, movimentadas e afirmativamente vitais, surgem do canarês, intercalado com a extraordinária riqueza sociopolítica de outras línguas e dialetos. Fala da vida das mulheres, dos direitos reprodutivos, da fé, das castas, do poder e da opressão.”. Fiammetta Rocco, a administradora do prémio, considera que este livro, que fala de e para os nossos tempos e sobre a forma como muitos são silenciados, deve ser lido por homens e mulheres em todo o mundo.