E agora, o que fazer com esta solidão?

Por: Marisa Sousa a 2021-07-16

Noreena Hertz

Noreena Hertz, nascida em 1967 em Londres, é uma conceituada economista, professora e comunicadora, considerada pelo The Observer «uma das principais pensadoras a nível mundial» e pela Vogue «uma das mulheres mais inspiradoras do mundo». Os seus bestsellers - The Silent Takeover (2001), IOU: The Debt Threat (2004) e Eyes Wide Open (2013) — foram publicados em mais de 20 países, e os seus artigos de opinião aparecem nas páginas de The New York Times, The Washington Post, The Wall Street Journal, The Guardian, The Financial Times, El Pais, Die Zeit e South China Morning Post. Teve um programa na maior estação de rádio da América, SiriusXM, apresentou documentários nos britânicos Channel 4 e ITV e discursou nas TED Talks, no Fórum Económico Mundial em Davos e no Google Zeitgeist. Mestre pela Wharton School da Universidade da Pensilvânia, doutorou-se na Universidade de Cambridge. Desde 2014 é professora honorária do Institute for Global Prosperity do University College London.

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“O mais fascinante livro de poesia escrito em português”

“Uns meses atrás, um amigo perguntou-me qual era o mais fascinante livro de poesia escrito em português. Respondi-lhe sem hesitar que seria o livro de sonetos de Camões escolhidos por mim. Sucedeu então uma coisa curiosa: eu que jamais pensara fazer tal livro, fui inteiramente dominado pela ideia, e passados três ou quatro dias tinha em cima da mesa de trabalho várias edições da lírica camoniana.” É assim que Eugénio de Andrade, explica a génese de Sonetos de Luís de Camões (Assírio & Alvim, 2020), eleito Melhor reedição de poesia, pelos leitores Bertrand, no âmbito da 5.ª edição do Prémio Livro do Ano Bertrand. Partilhamos consigo três desses sonetos e convidámo-lo/a a descobrir uma obra que se lê de um fôlego.

O spleen baudelairiano, um mal do século XXI?

Spleen, énui, ou, nas palavras de Fernando Pessoa, um supremíssimo cansaço, íssimo, íssimo, íssimo ... Todas estas expressões foram utilizadas por poetas do século XIX para expressar aquilo que sentiam como, mais do que uma angústia individual, um verdadeiro mal do século (mal du siècle, como também ficou conhecido). 

"As Mulherzinhas", (ainda) uma obra essencial

Louisa May Alcott foi escritora de ficção e poesia. No seu longo currículo, constam também a profissão de governanta, costureira, professora e, inclusive, enfermeira. Ficou para sempre conhecida pela obra "As Mulherzinhas", publicada em 1869. 

”Com o tempo não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros.”


— Mário Quintana

 

“Não defino solidão apenas como sentirmo-nos privados de amor, companhia ou intimidade. Nem é apenas uma questão de nos sentirmos ignorados, invisíveis ou negligenciados por aqueles com quem interagimos regularmente (…). Também tem que ver com sentirmos a falta de apoio e de atenção dos nossos concidadãos, dos nossos empregadores, da nossa comunidade, do nosso governo. Tem que ver com sentirmo-nos desligados, não apenas daqueles de quem deveríamos ser íntimos, mas também de nós mesmos.” Noreena Hertz é uma conceituada economista, professora e comunicadora, considerada pelo The Observer “uma das principais pensadoras a nível mundial”. No seu mais recente livro, O Século da Solidão (Temas e Debates), traça o retrato e a dimensão da nossa solidão e lança uma semente de esperança, propondo soluções para a combater. Partilhamos consigo alguns dados e curiosidades que servirão, certamente, como desassossego para que possa integrar este livro na lista das suas leituras prioritárias.


 

  • O sítio na internet da empresa Rent-a-Friend, ou “aluga-um-amigo”, fundada por Scott Rosenbaum, que testemunhou a ascenção deste conceito no Japão, a operar agora em dezenas de países em todo o mundo, dispõe de mais de 620 mil amigos platónicos para aluguer.
     
  • No Reino Unido, o problema tornou-se tão significativo que o primeiro-ministro, em 2018, nomeou um ministro da Solidão.
     
  • Esta não é apenas uma crise de saúde mental; tem implicações físicas: a investigação mostra que a solidão é pior para a nossa saúde do que não praticar exercício físico, tão nociva como o alcoolismo e duas vezes mais prejudicial do que a obesidade. Estatisticamente, a solidão equivale a fumar quinze cigarros por dia. Isto acontece independentemente do dinheiro que ganhamos, do sexo, da idade ou da nacionalidade.
     
  • Os nossos smartphones e, em particular, as redes sociais desempenharam um papel determinante: roubando a nossa atenção e afastando-a das pessoas em volta, alimentando o que há de pior em nós, pelo que nos tornámos cada vez mais zangados e tribais, comportando- nos de forma cada vez mais exibicionista e compulsiva em busca de gostos, retuítes e seguidores, erodindo a nossa capacidade de comunicar eficazmente ou com empatia.
     
  • Se formos pessoas solitárias, teremos um risco 29% superior de doença coronária, 32% de AVC e 64% de desenvolver demência clínica. A probabilidade de morte prematura é quase 30% superior para quem se sente sozinho. Um estudo de 2010, com pessoas que tinham passado por um período de solidão causado por um acontecimento específico, como a morte de um companheiro de vida ou a mudança para uma cidade nova, determinou que, apesar de a solidão ter sido delimitada no tempo (neste caso, durou menos de dois anos), a esperança de vida era mais reduzida. Considerando o período de isolamento forçado a que a maioria de nós foi sujeita em 2020 e em 2021, ouvem-se as campainhas de alarme.
     
  • Já antes de o novo coronavírus atacar, o conceito “sem contacto” estava a tornar-se o nosso modo de vida, a nossa escolha ativa. “Alguma vez caminhou na floresta e deu um salto para trás por, ao ver um galho no chão, ter pensado que era uma cobra?”, pergunta a Dra. Stephanie Cacioppo, diretora do Laboratório de Dinâmica Cerebral da Universidade de Chicago. “A mente solitária vê cobras a toda a hora.” Existem atualmente inúmeros estudos científicos que associam a solidão nos humanos a sentimentos de hostilidade para com os demais. Hannah Arendt, um dos titãs do pensamento intelectual do século XX, foi das primeiras a escrever sobre o elo entre solidão e a política da intolerância.
     
  • Cada vez mais jovens abordam cirurgiões plásticos com fotografias das suas pessoas “photoshopadas”, filtradas e digitalmente alteradas, para que as reproduzam.
     
  • À medida que os robôs se tornam mais sofisticados, empáticos e inteligentes, surge o risco de que possam ajudar-nos a combater a solidão num plano pessoal e individual, mas que, ao fazê-lo, estejam a encorajar-nos a distanciarmo-nos dos outros humanos.
     
  • Em França, os trabalhadores das empresas com mais de cinquenta colaboradores têm o “direito de se desligar” legalmente garantido desde 1 de janeiro de 2017. Na prática, o que isto significa é que as empresas têm de negociar com os colaboradores a sua disponibilidade fora de horas e enfrentar multas se exigirem que os colaboradores respondam a comunicações fora do horário regular ou estipulado (…). Mais recentemente, em janeiro de 2021, o Parlamento Europeu considerou o “direito a desligar” um direito fundamental, apesar de ter adiado em três anos o compromisso da Comissão Europeia de produzir uma diretiva.
     
  • Precisamos de nos apressar menos e de parar mais para conversar (…). Temos de encorajar os nossos filhos a perguntarem à criança que se senta sozinha ao almoço se não quer companhia e temos de fazer o mesmo por aquele colega de trabalho que almoça sempre sozinho na secretária. O antídoto para o Século da Solidão, em última análise, é apenas estarmos sempre disponíveis para o outro, independentemente de quem esse outro seja.


Por agora, feche esta revista e cumprimente o funcionário do café, diga bom dia ao vizinho, telefone à sua mãe, sorria à pessoa que se sentou ao seu lado no metro, marque aquele jantar que anda a adiar há meses, guarde o telemóvel, acene ao idoso que está todos os dias sozinho à janela, cumprimente a senhora que, no mercado, a atende sempre com um sorriso nos lábios. Estamos muito perto de não estarmos longe de mais.

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