Há quem diga que amar é uma arte, mas Erich Fromm propôs-se a teorizá-la. No seu ensaio fundamental de 1956 que regressa agora às livrarias, A Arte de Amar, o conceituado psicanalista reflete sobre as diversas formas de amor, definindo-o como uma prática que exige esforço e conhecimento. Traduzido para mais de vinte e oito idiomas e com mais de seis milhões de exemplares vendidos só nos Estados Unidos, este clássico da psicologia continua a ser uma leitura essencial para compreender a complexidade das relações humanas e os nossos próprios anseios, desejos e frustrações. Neste mês dedicado ao amor, destacamos duas ou três ideias desta obra intemporal, que nos desafia a refletir: saberemos nós como amar verdadeiramente?
O amor requer conhecimento
“Aquele que nada conhece, nada ama”. A frase é do médico e filósofo suíço Paracelso, mas vai de encontro à teoria de Fromm. Em A Arte de Amar, o psicanalista defende que o amor não é apenas um sentimento espontâneo e inato, mas uma habilidade que se aprende e aperfeiçoa, como um artista aprimora a sua arte. Para isso, é preciso conhecer a teoria e a prática do amor, e dedicarmo-nos ao seu estudo, da mesma forma que faríamos para aprender qualquer outra arte. Nas suas palavras: “há poucas atividades ou empreendimentos que comecem com esperanças e expectativas tão elevadas e que fracassem tão frequentemente como o amor. Se isto se passasse com qualquer outra atividade, as pessoas estariam ansiosas por descobrir as razões do fracasso e por aprender a fazer melhor – ou então desistiriam da atividade. Já que esta última alternativa é impossível no caso do amor, parece que só há uma maneira de ultrapassar o fracasso amoroso – analisar as razões deste fracasso e estudar o significado do amor.”
Todas as formas de amor são essenciais para uma vida plena
Para Fromm, o amor não é uma emoção unidimensional, mas uma experiência multifacetada que se manifesta de diferentes formas, todas essenciais para uma vida plena. Enquanto o amor fraterno é a base da conexão humana, fundamentado na compaixão e no respeito por todos, o amor maternal oferece o cuidado incondicional e a proteção necessários para o desenvolvimento emocional e a segurança. Igualmente importante é o amor erótico que, para Fromm, vai muito além da atração física e requer uma ligação emocional profunda e respeito mútuo. E ainda o amor-próprio que não tem a ver com narcisismo ou egoísmo, mas com a compreensão do nosso valor, a aceitação das nossas falhas e o cultivo da capacidade de partilhar esse amor com os outros. E ainda o espiritual, que representa o nosso desejo de nos transcendermos, encontrando um significado e um objetivo para além do ganho individual. É o amor que nos liga a todas as pessoas, independentemente da sua origem ou circunstância.
O consumismo matou o amor
Uma das reflexões mais críticas de Fromm no livro é a forma como a sociedade moderna distorceu o amor, particularmente no contexto do capitalismo e do consumismo. Fromm argumenta que a sociedade contemporânea mercantilizou o amor, transformando-o em algo transacional, superficial e egoísta. Num mundo onde o sucesso é medido pela riqueza material e pela realização individual, o amor torna-se muitas vezes algo a ser procurado para ganho pessoal - quer seja o desejo de estatuto, validação ou prazer, levando a relações superficiais e possessivas em que as pessoas veem os outros como objetos que devem ser possuídos ou controlados. Em contraste, Fromm defende uma abordagem humanista do amor – uma abordagem que enfatiza a ligação, o cuidado mútuo e o respeito. Este tipo de amor não é motivado por recompensas externas, mas pelo valor intrínseco das relações humanas e pelo desejo genuíno de cuidar e compreender os outros. “O amor, vivido desta forma, é um desafio constante: não é um refúgio mas antes um movimento, um crescimento, um trabalho em conjunto."