Biblioteca de Livros Banidos de Lula Dean, da autora norte-americana Kirsten Miller, publicado pela Topseller, é um romance de leitura leve, mas nem por isso ligeiro. Tão provocador quanto inteligentemente divertido, fala das consequências do preconceito na literatura, na liberdade de escolha e na vida; este livro, com cerca de 350 páginas, lê-se de forma quase compulsiva. A história prende e a prosa discorre num tom crítico, irónico, por vezes, genuinamente comovente e engraçado; e aí reside o talento e inventividade da autora. A tradução, de Ana Bárbara Pedrosa (também escritora e crítica literária), está no ponto certo, como se percebe logo nas primeiras linhas, mantendo esse registo ora leve, ora sério na linguagem que aplica.
Beverly é uma mulher progressista e moderna, que pertence à assembleia local responsável pelo sistema educativo público. Lula, conservadora e defensora dos bons costumes, passou de nulidade a celebridade, depois de embarcar numa missão: livrar as bibliotecas públicas de tudo o que considera serem leituras impróprias; embora, pasme-se, nunca tenha lido nenhum daqueles livros. Para tal, Lula criou uma lista de livros que considera inadequados para que fossem retirados das estantes e proibidos nas bibliotecas e nas escolas.
"O que ninguém sabe é que, sob as sobrecapas dos livros, a filha de Beverly colocou as obras banidas, que gera o caos e mudará a vida da comunidade de Troy de formas inesperadas."
A pacata cidade de Troy, no estado da Georgia, vê-se, assim, no centro de um confronto, aparentemente rocambolesco. Contudo, subjaz à intriga muito de verdade, até mesmo na questão da estátua a derrubar. Contra esses livros "pornográficos", onde se incluem obras clássicas, romances gay, crítica feminista, história negra, romances distópicos, Lula Dean criou a sua própria biblioteca, um pequeno armário com portas de vidro e três prateleiras cheias da literatura de que, a seu ver, a cidade necessita.
O que ninguém sabe é que, sob as sobrecapas dos livros, a filha de Beverly colocou as obras banidas, o que gera o caos e mudará a vida da comunidade de Troy de formas inesperadas. Troy representa, assim, uma alegoria dos Estados Unidos da América e da febre revisionista que assolou o país. Os temas abordados, como a proibição de livros, o nacionalismo branco, o antissemitismo, não são exclusivos do Sul. Diz-nos a autora, numa nota final: "Cresci numa pequena cidade no interior da Carolina do Norte e, independentemente de onde eu viver, considerar-me-ei sempre sulista. Penso na minha relação complicada com o Sul todos os dias. Há tanto para amar nos estados do sudeste dos Estados Unidos — e tanto que me magoa." (p. 345) E defende que os problemas tratados no seu livro são problemas americanos: "fingir que só ocorriam no Sul permitiu que se espalhassem sem controlo pelo resto dos Estados Unidos".
A génese do romance é, afinal, esse perigo de se censurar livros porque alguém nos incute a ideia de que são perigosos, o que leva, insidiosamente, à brilhante peripécia que serve de base à intriga: trocar as sobrecapas dos livros, dispondo obras que são o oposto do que se pretendia e que, aos leitores, serve de antídoto para o seu desconhecimento e intolerância feita de ignorância.
"No início de 2023, a minha brilhante editora (também ela sulista), Rachel Kahan, visitou o Texas, onde proibir livros se tornara comum, e viu ativistas locais a lutar contra as proibições. Quando voltou ao trabalho, fez-me uma pergunta: o que achas de um romance sobre uma pequena biblioteca grátis cheia de livros proibidos?" (p. 347)
Daí, resultou este romance, com 35 capítulos, em que praticamente todos são designados com base num título de um livro dessa "biblioteca imaginária" que se instaurou como embrião do romance de Kirsten Miller. Alguns títulos foram inventados ou são apenas citados, para conferir um efeito cómico. Contudo, infelizmente, a maior parte dos livros mencionados existe e foram, de facto, proibidos em algumas partes dos Estados Unidos, como Beloved, de Toni Morrison; O Diário de Anne Frank, de Anne Frank; Género Queer, de Maia Kobabe; A História de Uma Serva, de Margaret Atwood…
"O que achas de um romance sobre uma pequena biblioteca grátis cheia de livros proibidos?"
Sobretudo no início do livro, sente-se como, ao longo dos vários capítulos, a ação se descentra, com diversas personagens, cujas vidas desfilam rapidamente. Até que, a dada altura, são tocadas por um livro que magicamente lhes vai parar às mãos — ainda que ludibriadas por capas erróneas, pois o conteúdo é outro. Depois, gradualmente, torna-se óbvio quem são as personagens centrais, enquanto outras vão recuando para um cenário de fundo. Embora a autora tente centrar-se, logo no primeiro capítulo, em jovens personagens, como Lindsay, a filha de Beverly, ou os irmãos Elijah e Isaac, ou a jovem Nahla, aspirante a escritora, é sobretudo na geração mais velha, a dos pais, que incide a ação. É para os pais, afinal, que o romance parece ter sido escrito, o que nos permite, também, citar novamente a própria autora quando, no fim do livro, remete para esta conclusão. "Convencer os pais de que os livros com protagonistas LGBTQ+ podem fazer com que os filhos deles se tornem gays vai distraí-los do facto de que as crianças americanas continuam a morrer devido à violência com armas e de as nossas escolas continuarem vergonhosamente subfinanciadas."
Ainda que as personagens tomem todo o palco, e a história se conte através das suas interações, há momentos em que a voz autoral irrompe em passagens nas quais se denota um tom mais crítico e veemente: "Os instigadores do ódio diziam aos seus seguidores que lutar contra essas forças do mal — fossem negros, gays, feministas ou pessoas fabulosas — exigiria medidas drásticas. Seria preciso proibir livros e infringir leis. Talvez certas partes da Constituição não se aplicassem a todos. E havia secções da Bíblia que teriam de ignorar, começando por ama o próximo." (p. 178)
Uma leitura comprometida politicamente, e que chega a todo o género de leitores, tanto mais necessária quanto mais irrealista se torna o estado da nação e do mundo.
Kirsten Miller
Autora norte-americana nascida numa pequena cidade nas montanhas da Carolina do Norte. Foi estudar para Nova Iorque aos 17 anos, cidade onde ainda vive. The Change foi o seu primeiro romance para adultos. É autora de mais de uma dúzia de romances para o público juvenil e de leitura intermédia, incluindo os aclamados livros Kiki Strike e How to Lead a Life of Crime. Kiki Strike na Cidade das Sombras é outra obra da autora publicada em Portugal, em 2007, pelas Edições Asa, com tradução de Odete Martins. Nesse livro, atualmente esgotado, a protagonista Ananka descobre a lendária Cidade das Sombras sob as agitadas ruas de Manhattan e conhece a misteriosa Kiki Strike, uma rapariga que veste de negro, conduz uma Vespa, e aparece e desaparece como por magia.