Da geração de Brandão à de Pessoa: 40 anos do Livro do Desassossego

Por: Jerónimo Pizarro a 2022-11-23

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Livro do Desassossego
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O Crepúsculo dos Ídolos
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O Desassossego, esse conjunto de trechos que Pessoa postulou Livro, e que foi escrevendo ao longo de duas décadas, em duas fases diferentes (1913-1920, 1929-1934), foi publicado pela primeira vez em 1982 e considerado, em relativo pouco tempo, uma obra-prima. Este ano, 2022, celebram-se os 40 anos dessa publicação — uma das maiores revelações do séc. XX — pela qual foi responsável a editora Ática. 


Num dos trechos da obra, Pessoa declara: "Este livro é um só estado de alma, analisado de todos os lados, percorrido em todas as direções". Um estado de alma, ou vários afins, porque o "maior esforço" artístico destinar-se-ia a atravessar "diversos estados" de alma, embora admitindo que "o esforço nunca chega a parte nenhuma". Mas o intuito de Pessoa era, e sempre foi, mesmo que fosse inútil, "Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma"; e, para tal, procurou, no caso do Livro, dar corpo, mente e espírito a uma certa sensação de spleen, de inutilidade, de convalescência.  
 

Uma das formas inesperadas que tenho tido de celebrar o Livro do Desassossego tem sido a de acompanhar uma nova tradução para o espanhol de Húmus, de Raul Brandão, uma notável e inclassificável obra injustamente esquecida, que, a meu ver, devia ser iniludível no caminho de leitura do Desassossego pessoano. Húmus foi publicada em 1917 e nas suas páginas lê-se: "Compreendo a inutilidade de todos os esforços e faço pela mentira, o esforço que fazia pela verdade. Tenho de te manter [Deus] á custa de desespero." Pessoa, numa carta de 12 de novembro de 1914, escreve: "Compenetrei-me celularmente da absoluta inutilidade de qualquer esforço e da ridícula incongruência do acto fundamental de escrever". Não refere Deus, mas sabe que Nietzsche afirmou que Deus estava morto e percebe o desespero. Sabe que Deus, "a maior conquista do homem", para voltar a citar Húmus, “desapareceu para sempre", desaparecendo também a morte, e que agora é preciso pôr os pontos nos is: "Ponhamos a questão: façamos tábua rasa. Está tudo em terra, o dever, a honra, as fórmulas e as regras. Ponhamos a questão por uma vez, nítida, clara e sem subterfúgios. Ponhamos a questão e todas as questões..."   

Brandão (1867-1930) e Pessoa (1888-1935) foram contemporâneos e parece-me pertinente evocar o primeiro para dar voz ao que Pessoa pensava da sua geração, que sucedeu à de Brandão. Num trecho intitulado "O Sensacionista", Pessoa parece evocar O Crepúsculo dos Ídolos, obra publicada no ano do seu nascimento: "Neste crepúsculo das disciplinas, em que as crenças morrem e os cultos se cobrem de pó, as nossas sensações são a única realidade que nos resta. [...] Pertenço a uma geração — ou antes a uma parte de geração — que perdeu todo o respeito pelo passado e toda a crença ou esperança no futuro. [...] Convalescemos. [...] A minha vida é uma febre perpetua, uma sede sempre renovada". A geração de Pessoa — ou antes uma parte dessa geração — teria abdicado do esforço e curvado-se "sobre o livro das sensações com um grande escrúpulo de erudição sentida".
 

Para Pessoa, falar da sua geração era uma declaração de princípios e daí que um texto que começa "Quando nasceu a geração, a que pertenço", esteja encimado pela indicação "1st article". Nesse texto, a descrição é precisa: "O trabalho destrutivo das gerações anteriores fizera que o mundo, para o qual nascemos, não tivesse segurança que nos dar na ordem religiosa, esteio que nos dar na ordem moral, tranquilidade que nos dar na ordem política. Nascemos já em plena angústia metafísica, em plena angústia moral, em pleno desassossego político". Este trecho terá sido escrito por volta de 1917, no decurso da Primeira Guerra Mundial, e nele o autor se descreve como herdeiro da destruição e dos seus resultados.
 

Brandão terá sido um dos responsáveis por dita erosão e Pessoa, na esteira do escritor portuense, parece prolongar os seus próprios "devaneios sem propósito nem dignidade". Como Brandão, Pessoa desconfia do esforço, mas entende que "Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real", e não desiste, pelo menos, desta última ação. Lembrem-se algumas das imagens com que o faz:  "Com um grande esforço ergo-me do sono em que me molho e sacudo, como um cão, os húmidos da treva de bruma"; “Ergo-me da cadeira com um esforço monstruoso, mas tenho a impressão de que levo a cadeira comigo, e que é mais pesada, porque é a cadeira do subjectivismo". Reais ou não, estas frases vão dotando de realidade um estado de alma... Afinal, a literatura, como toda a arte — disse Pessoa, em Erostratus —  "é uma confissão de que a vida não basta". E através de uma profissão de fé inserida no Livro do Desassossego, acrescenta: "A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano".
 

Regressemos a Brandão e imaginemos Pessoa a sonhar o seu livro e a sua cidade e a sua geração através de Brandão: "Eis enfim a vila sonho, a vila fantasma. [...] Em tudo isto há uma mescla de inutilidade, de fé e de sonho. [...] Entro na catedral. Silêncio e um cheirinho a floresta apodrecida. As lajes estão gastas de um lado pelos passos dos vivos, do outro pelo contacto dos mortos. [...] Nos alicerces uma geração, outra geração, todos apodrecendo juntos na mesma terra misturada e revolvida. A parte exterior é maravilhosa, a parte subterrânea é mais maravilhosa ainda. É a única raiz que se conserva intacta". Quem reler o Livro do Desassossego, quer primeiro fragmento revelado ("Na floresta do alheamento", em 1913), quer outros, vai encontrar múltiplos restos, despojos e paisagens mortas que povoam a obra. Para a geração de Brandão, tal como para a de Pessoa, a morte de Deus pairava sobre o mundo, sobre um mundo em que a morte já subjaz à vida, porque a todos nos cerca o abismo. Pessoa imaginou a sua geração — ou antes a uma parte dela — como sendo uma "Raça do Fim", um "limite espiritual da Hora Morta". Brandão também. 
 

Quem escreveu estas linhas? Brandão? Pessoa? Poderia ter sido qualquer dos dois: "Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos".

 


Jerónimo Pizarro é professor, tradutor, crítico e editor, responsável por mais de 30 edições de e sobre Fernando Pessoa. Professor da Universidade dos Andes, titular da Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões e Prémio Eduardo Lourenço (2013), Pizarro voltou a abrir as arcas pessoanas e redescobriu A Biblioteca Particular de Fernando Pessoa ou como Ler Pessoa, para citar alguns títulos da sua bibliografia. Foi comissário da visita de Portugal à Feira Internacional do Livro de Bogotá e coordena há vários anos a visita de escritores de língua portuguesa à Colômbia. É coeditor da revista Pessoa Plural e diretor da Coleção Pessoa, na Tinta-da-china. 

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