Auto Biografia Não Autorizada é um retrato de Mário Viegas pelos olhos e mãos do próprio

Por: Marta Ribeiro a 2023-12-06 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

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Mário Viegas
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“O teatro foi sempre a minha vida e a minha morte”. Ao longo da sua — demasiado curta — vida, Mário Viegas repetiu esta frase várias vezes. Incontornável ator, um dos mais importantes do pós-25 de Abril, foi também um aclamado dizeur e mostrou ao grande público vários poetas do séc. XX como António Gedeão, Fernando Pessoa, Guerra Junqueiro, Cesário Verde, entre outros, através de discos e programas de televisão como “Palavras Ditas” e “Palavras Vivas”.

Deixou um extenso legado, entre teatro, cinema e uma sensibilidade poética acima da média. Ao longo da vida, escreveu um livro — que intitulou de Auto Biografia Não Autorizada — que contém fotografias, recortes e desenhos para mostrar e tentar decifrar quem foi e o que pensou. As alegrias, as tristezas, amores e desamores de Mário Viegas podem agora ser lidas por todos, nas palavras do próprio, numa viagem desde a infância aos últimos dias que foram cedo demais. Este livro foi confiado à irmã Maria Hélia Viegas que o confiou para edição no ano em que o ator completaria 75 anos. Auto Biografia Não Autorizada é uma homenagem e celebração de Mário Viegas, do que fez e de quem foi. Contém ainda quatro CDs inéditos, dois deles gravados pelo pai quando tinha apenas 9 anos. Nos outros dois, ouve-se um café-concerto realizado em janeiro de 1986 no espaço Rez do Chão, no Porto.

Mário Viegas nasceu a 10 de novembro de 1948 e faleceu no dia 1 de abril de 1996, mas a sua vida vai muito para além do período em que pisou a Terra. Influenciou gerações inteiras de atores (continua a influenciar) e a forma como dizia as palavras prendia qualquer ouvido ao poema que declamava. A vida sempre se confundiu muito com o teatro. Estreou-se profissionalmente no Teatro Experimental de Cascais e passou pelo Teatro Universitário do Porto, mas acabaria por voltar à casa de Carlos Avillez.

Foi um dos elementos fundadores da companhia teatral A Barraca, criada por Maria do Céu Guerra e Mário Alberto, que foi extremamente relevante na cena cultural de Lisboa no pós-25 de Abril, quando começaram a surgir vários polos de criação independente e experimental. Também passou pelo cinema — era um dos atores mais requisitados por José Fonseca e Costa, que realizou filmes como “Kilas, o Mau da Fita” (1980) e “Sem Sombra de Pecado” (1983). Fundou a Companhia Teatral do Chiado, numa colada ao Teatro São Luiz. Até hoje, mantém-se a Sala-Estúdio Mário Viegas. Quando foi inaugurada, o autor já estava muito doente no hospital, mas quando viu as fotografias, disse: “Esta já não me tiram”.

A política também foi parte da sua vida — sempre foi abertamente de esquerda, mas sem filiação partidária. Em 1995, foi integrou a lista das legislativas da UDP e, no mesmo ano, foi candidato à Presidência da República pelo mesmo partido. No decorrer da pré-candidatura a este último cargo, o ator apresentou o seu último espetáculo “Europa Não! Portugal Nunca!” — o excerto que se segue é a parte inicial dessa peça.

 

 

Sobre Mário Viegas, José Saramago escreveu nos Cadernos de Lanzarote: “Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. (...) Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto”.

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