A cantiga é uma arma: sete músicas que mudaram o curso da história

Por: Marta Ribeiro a 2024-04-29

Em 1973, José Mário Branco compôs A cantiga é uma arma. Começa assim: “A cantiga é uma arma / Eu não sabia / Tudo depende da bala / E da pontaria”. A palavra cantada pode mover multidões e, entre as linhas de cada partitura, há muitas mensagens que se podem passar. Embora seja impossível dar como certa a relação simbiótica entre a música de intervenção portuguesa e o 25 de Abril, é certo que as mensagens veiculadas por Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto, entre outros, eram o espelho de um descontentamento que quebrava as fronteiras da música. E isso é e sempre foi verdade: em Portugal e no mundo, há melodias que não saem da memória coletiva e continuam a ser ecoadas por multidões em protesto.
 



Grândola, Vila Morena
De Zeca Afonso

Foi a senha escolhida pelo Movimento das Forças Armadas para dar início à Revolução dos Cravos. Desde o final dos anos 60, em Portugal, vários artistas perceberam que através da canção podiam chegar ao povo, a literatura estava reservada para as elites. Começaram a escrever, produzir e lançar músicas que despertaram a consciência política de uma classe menos escolarizada. A música de intervenção tornou-se num dos grandes movimentos de oposição ao Estado Novo. Grândola, Vila Morena foi gravada em França, com produção de José Mário Branco, em 1971. Zeca Afonso cantou-a pela primeira vez em Santigo de Compostela e, em 1973, foi publicada pela editora Orfeu. Continua a ser um símbolo da luta popular e um marco nacional, entoado nas marchas anuais do 25 de Abril e noutras alturas de manifestação.



Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores 
De Geraldo Valdré

Geraldo Valdré ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1968 com Pra não dizer que não falei das flores. Anos depois, o então diretor-geral da Rede Globo de Televisão, transmissora do festival, admitiu ter recebido ordens do comando do I Exército para que a música não se sagrasse vencedora; outro responsável disse não ter sofrido nenhuma pressão. A rima simples facilitava o processo de decorar a letra e a cadência de hino fortalecia a mensagem. Rapidamente, começou a ser cantada nas ruas. Durante anos, a transmissão da música foi proibida por se ter tornado num hino de resistência à ditadura militar brasileira. A justificação foi a “ofensa” às instituições nos versos “Há soldados armados / Amados ou não / Quase todos perdidos de armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam / Uma antiga lição / De morrer pela pátria / E viver sem razão”.



A Marselhesa 
De Claude Joseph Rouget De Lisle

O atual hino francês começou por ser um pedido do presidente da Câmara de Estrasburgo, Philippe-Frédéric de Dietrich, a Rouget de Lisle, oficial do exército francês e músico autodidata, em 1792. O objetivo era encorajar as tropas francesas na guerra contra a Áustria. No entanto, a melodia ultrapassou o pedido e tornou-se especialmente popular entre as unidades do exército de Marselha que, na deslocação até Paris, em julho desse ano, cantaram o hino em cada povoação por onde passaram. Certa ocasião, um general escreveu ao ministro: “Ganhei a batalha, A Marselhesa combatia comigo”. Mas, até subir a hino nacional de forma permanente, o caminho foi tumultuoso: Napoleão Bonaparte vetou-o e voltou a ser vetado durante a Restauração dos Bourbon. Regressou em 1830, mas logo veio Napoleão III que o descartou de novo. Só em 1879, com a Terceira República, foi elevado à categoria de “hino nacional”, depois de outro momento de sucesso com a Comuna de Paris.



F*** Tha Police 
De N.W.A

Hoje, a frase que dá título à música é usada múltiplas vezes em obras de arte, expressões políticas e até T-shirts. A expressão ficou popular graças ao grupo N.W.A, que a lançou como protesto contra a brutalidade policial e discriminação racial, nos Estados Unidos. Depois da morte de George Floyd, em 2020, voltou a ser tocada repetidamente e F*** tha police voltou aos cartazes nas manifestações. No videoclipe, Dr. Dre, Ice Cube, MC Ren e Eazy-E parodiam um julgamento: ali, os réus são os polícias. Dr. Dre, o juíz, pede aos outros três que testemunhem e cada um descreve a brutalidade e a perfilagem racial a que é sujeito. No final, o departamento da polícia é considerado culpado e um dos polícias lança violentos insultos a Dr.Dre, que decidiu a sentença. Em 2021, a Rolling Stone considerou esta uma das 500 melhores músicas de todos os tempos — ficou em 190.º.



Do You Hear The People Sing?
De Claude-Michel Schönberg, Alain Boubil, And Jean-Marc Nate

Quando muitas vozes se juntam para a cantar, é como se se ouvisse uma mudança à porta, mas esta música tem um percurso peculiar. Tudo começou com a estreia do renomeado musical Os Miseráveis, composto por Claude-Michel Schönberg, com letra de Alain Boubil e Jean-Marc Natel, na versão francesa, (e Herbert Kretzmer, na versão inglesa), em 1980. Desde então, foi traduzido para mais de 20 línguas e a mensagem de Do you hear the people sing? ecoou por todo o mundo. Na Turquia, em 2013, e na Ucrânia, em 2014, milhares de pessoas repetiam as palavras de ordem em protestos. Em 2019, estalou aquele que é, provavelmente, o maior protesto na história de Hong Kong — os organizadores estimam que tenham saído à rua cerca de dois milhões de pessoas. Mais uma vez, as palavras de ordem que dão início à Revolução Francesa n’Os Miseráveis, voltaram a ecoar. Na mesma altura, numa assembleia escolar, os alunos cantaram Do you hear the people sing? em vez do hino nacional chinês.



Imagine 
De John Lennon


É impossível ouvir a palavra “imagine” e não começar imediatamente a trautear a mais icónica música de John Lennon. Sonhar com a paz, projetá-la, é revolucionário, ainda mais quando a Guerra Fria é o pano de fundo. Foi lançada em 1971 e Lennon e Yoko Ono escreveram-na para transmitir um desejo pela paz mundial, sem barreiras nem divisões nacionais ou religiosas. Recebeu inúmeros prémios e distinções, foi interpretada por cantoras e cantores de todo o mundo e tornou-se num clássico quase instantaneamente. Depois da morte do cantor, subiu aos tops das músicas mais tocadas, tendo alcançado o primeiro lugar no Reino Unido. Até hoje, Imagine mantém-se um hino de paz que vai sendo reinterpretado e partilhado por todas as gerações. 



The Times They Are A Changing
De Bob Dylan


Várias das músicas de Bob Dylan podiam facilmente entrar nesta lista — Blowin’ In The Wind, Hurricane ou A Hard Rain’s a-Gonna Fall são algumas —, mas “The times they are a changing” é, sem dúvida, incontornável. É um apelo aos políticos e a todo o público que se coloque do “lado certo” durante o Movimento dos Direitos Civis, nos Estados Unidos. Insta quem ouve para que não seja complacente e inativo perante a injustiça. Sobre a canção, Dylan escreveu: “Eu sabia exatamente o que queria dizer e a quem queria dizê-lo”. Foi composta com influência de baladas irlandesas e escocesas e o objetivo era transformar-se num hino de mudança. Segundo o site oficial do cantor e compositor, entre 1963 e 2009, tocou The times they are a changing 633 vezes.

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