60 anos de Mafalda em 6 curiosidades

Por: Beatriz Sertório a 2024-04-01

Quino

Quino

Autor de banda desenhada (BD), caricaturista e ilustrador argentino, Quino, pseudónimo de Joaquín Salvador Lavado ((Mendoza, Argentina, 17 de julho de 1932 - 30 de setembro de 2020), sendo filho de imigrantes espanhóis originários de Fuengirola (Málaga).
Uma vez terminados os estudos em Belas-Artes, Quino tentou a sua sorte como desenhador na capital argentina, Buenos Aires, quando tinha 18 anos. Não conseguindo trabalho, regressou a casa e fez diversos cartazes publicitários nos seus primeiros anos de trabalho, até que se mudou para Buenos Aires, em 1954, onde o seu trabalho acabaria por, a pouco e pouco, ser devidamente reconhecido.
Começou a trabalhar como ilustrador para títulos tão diversos como Avivato, Esto Es, Que, Siete Dias, Tia Vicenta, Vea y Lea, entre outros, fazendo abundante número de caricaturas. Nos seus primeiros trabalhos nota-se que sofreu influências plásticas de Walt Disney e do argentino Guillermo Divito.
Mundo Quino, título do seu primeiro livro, foi editado em 1963.
Em 1964 surgiu a sua personagem emblemática, Mafalda, a contestatária, série de banda desenhada publicada nos jornais em tiras (curta sequência de quadradinhos), que inicialmente tinha sido imaginada para uma campanha publicitária a eletrodomésticos e que, entretanto, acabou por ser recusada. Inicialmente, Mafalda foi publicada no suplemento de humor da revista Leoplán, com três tiras, passando a surgir regularmente em Primera Plana (1964), depois no El Mundo (1965) e finalmente no Siete Dias (1967), terminando em 1973, apesar do grande sucesso alcançado em diversos países. Esta decisão prendeu-se com o desejo do autor de se dedicar inteiramente ao desenho de humor, à caricatura, por um lado, e de não cair na sempre dificilmente inevitável armadilha da repetição de ideias. A popularidade e atualidade da Mafalda continuam, apesar da BD desta personagem ter terminado há décadas. Para além disso, está associada a séries de desenhos animados e a diversos produtos derivados.
A obra de Quino é muito vasta, encontrando-se editada nas principais línguas. Os seus Cartoons, aparentemente tão simples, retratam como poucos os inacreditáveis meandros da burocracia, a sempre surpreendente estupidez humana, a prepotência dos mais fortes sobre os mais fracos, entre outras célebres evocações que são recorrentes da sua obra, marcada por um humor e um grafismo sem igual.
O autor, que em Portugal tem um grande número de livros editados pela Dom Quixote, Bertrand e Teorema, já se deslocou ao nosso país para encontros com os jornalistas e os leitores portugueses em 2001 e em 2003.
Foi distinguido várias vezes, destacando-se: o Troféu Palma de Ouro do Salão Internacional de Humorismo de Bordighera (1978), "Desenhista do Ano" a nível mundial (1982), o Prémio B' nai B' rith Derechos Humanos (1998) e o Prémio Quevedos de Humor Gráfico (2001).
Foi distinguido com o Prémio Príncipe das Astúrias na categoria de Comunicação e Humanidades em 2014.

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Ativista, feminista, contestatária. Odeia sopa e adora os Beatles. Há alguém que não conheça Mafalda? Para o seu criador, o argentino Quino (1932-2020), que sempre recusou a fama, podia ser só mais um desenho, mas para gerações e gerações de leitores, esta menina de seis anos tornou-se um verdadeiro ícone, símbolo da luta pela paz, pela igualdade e pela justiça num mundo cada vez mais doente. 

No ano em que comemoramos o 60º aniversário da criação de Mafalda, e em que foi publicada uma nova compilação das suas tiras feministas (Feminino Singular, pela editora Iguana), convidamo-lo a descobrir seis curiosidades sobre esta personagem icónica.


1. Mafalda foi criada para uma campanha publicitária

Sendo Mafalda uma crítica acérrima do capitalismo, parece difícil acreditar que esta personagem foi criada com o intuito de vender eletrodomésticos. Depois do sucesso de Mundo Quino, o primeiro livro de banda desenhada publicado por Joaquín Salvador Lavado Tejón (o nome de batismo de Quino), o cartoonista foi convidado para criar uma história sobre uma família que utilizava os eletrodomésticos Mansfield, na qual todas as personagens teriam nomes começados por “M”. No entanto, a campanha nunca chegou a ver a luz do dia e Mafalda ficou guardada numa gaveta durante alguns meses. Finalmente, a 29 de setembro de 1964, foi publicada a primeira tira de Mafalda no semanário Primera Plana, na Argentina.

 

Imagem: As primeiras tiras de Mafalda, nas quais a pequena contestatária já questionava o pai e tecia críticas ao país.
As primeiras tiras de Mafalda, nas quais a pequena contestatária já questionava o pai e tecia críticas ao país.


2. O nome de Mafalda teve inspiração literária

Cumprindo o requisito imposto pela campanha publicitária de uma personagem com um nome começado por “M”, Quino foi buscar o nome “Mafalda” a um romance do escritor e historiador argentino David Viñas, intitulado Dar La Cara. Uma das personagens, uma bebé chamada Mafalda, foi a inspiração para o nome desta que se tornou uma das personagens mais populares da história da banda desenhada, e figura na adaptação cinematográfica homónima do romance, realizado em 1962.


3. O prédio de Mafalda existe e pode visitá-lo

Embora os livros de Mafalda não revelem muito sobre o apartamento onde ela vivia com os pais e o irmão mais novo, um prédio no bairro de San Telmo, próximo da casa onde vivia Quino, é considerado a residência verídica desta personagem fictícia que conquistou fãs por todo o mundo. Fica na rua Chile 371, em Buenos Aires, e está identificado com uma placa onde se pode ler: "Mafalda viveu aqui". No mesmo bairro, pode ainda visitar a famosa estátua de Mafalda, acompanhada dos seus grandes amigos Susanita e Manolito.


4. As tiras de Mafalda foram alvo de censura

A sátira mordaz da pequena Mafalda nem sempre foi bem recebida. Em Espanha, a censura da ditadura franquista (1939-1975) obrigou editores a colocarem um aviso na capa do primeiro livro de Mafalda a advertir os leitores de que se tratava de uma obra "para adultos". Já em países como Brasil, Chile ou Bolívia algumas tiras foram mesmo proibidas. Para Quino, esta repressão começou como uma forma de autocensura. "Na Argentina tive de me censurar porque quando comecei a desenhar em Buenos Aires, disseram-me claramente 'sem militares, sem religião, sem sexo'. E então, falei sobre tudo isso, mas de outra forma” (Sapo Mag). Em 1973, em plena ditadura militar na Argentina, Quino acaba por dar um ponto final às aventuras de Mafalda.



5. Umberto Eco e José Saramago eram leitores assíduos

Para Umberto Eco, filósofo e escritor italiano mais conhecido por O Nome da Rosa, mais do que uma personagem de BD, Mafalda era “a heroína do nosso tempo”. Fã assumido das suas tiras, dedicou-lhe um texto intitulado Mafalda ou a Recusa, datado de 1969, que acabou por ser publicado no prefácio do volume Mafalda, a Contestatária. Por sua vez, o Nobel da Literatura português acreditava que “a leitura de Mafalda deveria ser obrigatórias nas escolas, mas não nas primárias, e, sim, nas universidades.”


6. Mafalda tornou Quino num dos cartoonistas mais populares do mundo

Embora Quino garantisse que não sentia qualquer favoritismo em relação a Mafalda, em comparação com os seus outros desenhos, é ela a grande responsável do seu legado na banda desenhada e na cultura popular. As tiras de Mafalda foram editadas em 16 idiomas e publicadas em mais de 30 países, e as homenagens à pequena contestatária extrapolam as fronteiras da Argentina.

Em 2016, numa entrevista à agência Efe, Quino afirmou que gostaria de ser recordado como "alguém que fez pensar as pessoas sobre as coisas que acontecem" e admitiu que o mundo atual seria para a personagem Mafalda "um desastre e uma vergonha" (Diário de Notícias). Morreu em 2020, aos 88 anos, vítima de um AVC.

Homenagem feita após a morte de Quino, pelo cartoonista Gilmar Fraga.
Homenagem feita após a morte de Quino, pelo cartoonista Gilmar Fraga.

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