Ativista, feminista, contestatária. Odeia sopa e adora os Beatles. Há alguém que não conheça Mafalda? Para o seu criador, o argentino Quino (1932-2020), que sempre recusou a fama, podia ser só mais um desenho, mas para gerações e gerações de leitores, esta menina de seis anos tornou-se um verdadeiro ícone, símbolo da luta pela paz, pela igualdade e pela justiça num mundo cada vez mais doente.
No ano em que comemoramos o 60º aniversário da criação de Mafalda, e em que foi publicada uma nova compilação das suas tiras feministas (Feminino Singular, pela editora Iguana), convidamo-lo a descobrir seis curiosidades sobre esta personagem icónica.
1. Mafalda foi criada para uma campanha publicitária
Sendo Mafalda uma crítica acérrima do capitalismo, parece difícil acreditar que esta personagem foi criada com o intuito de vender eletrodomésticos. Depois do sucesso de Mundo Quino, o primeiro livro de banda desenhada publicado por Joaquín Salvador Lavado Tejón (o nome de batismo de Quino), o cartoonista foi convidado para criar uma história sobre uma família que utilizava os eletrodomésticos Mansfield, na qual todas as personagens teriam nomes começados por “M”. No entanto, a campanha nunca chegou a ver a luz do dia e Mafalda ficou guardada numa gaveta durante alguns meses. Finalmente, a 29 de setembro de 1964, foi publicada a primeira tira de Mafalda no semanário Primera Plana, na Argentina.

As primeiras tiras de Mafalda, nas quais a pequena contestatária já questionava o pai e tecia críticas ao país.
2. O nome de Mafalda teve inspiração literária
Cumprindo o requisito imposto pela campanha publicitária de uma personagem com um nome começado por “M”, Quino foi buscar o nome “Mafalda” a um romance do escritor e historiador argentino David Viñas, intitulado Dar La Cara. Uma das personagens, uma bebé chamada Mafalda, foi a inspiração para o nome desta que se tornou uma das personagens mais populares da história da banda desenhada, e figura na adaptação cinematográfica homónima do romance, realizado em 1962.
3. O prédio de Mafalda existe e pode visitá-lo
Embora os livros de Mafalda não revelem muito sobre o apartamento onde ela vivia com os pais e o irmão mais novo, um prédio no bairro de San Telmo, próximo da casa onde vivia Quino, é considerado a residência verídica desta personagem fictícia que conquistou fãs por todo o mundo. Fica na rua Chile 371, em Buenos Aires, e está identificado com uma placa onde se pode ler: "Mafalda viveu aqui". No mesmo bairro, pode ainda visitar a famosa estátua de Mafalda, acompanhada dos seus grandes amigos Susanita e Manolito.
4. As tiras de Mafalda foram alvo de censura
A sátira mordaz da pequena Mafalda nem sempre foi bem recebida. Em Espanha, a censura da ditadura franquista (1939-1975) obrigou editores a colocarem um aviso na capa do primeiro livro de Mafalda a advertir os leitores de que se tratava de uma obra "para adultos". Já em países como Brasil, Chile ou Bolívia algumas tiras foram mesmo proibidas. Para Quino, esta repressão começou como uma forma de autocensura. "Na Argentina tive de me censurar porque quando comecei a desenhar em Buenos Aires, disseram-me claramente 'sem militares, sem religião, sem sexo'. E então, falei sobre tudo isso, mas de outra forma” (Sapo Mag). Em 1973, em plena ditadura militar na Argentina, Quino acaba por dar um ponto final às aventuras de Mafalda.
5. Umberto Eco e José Saramago eram leitores assíduos
Para Umberto Eco, filósofo e escritor italiano mais conhecido por O Nome da Rosa, mais do que uma personagem de BD, Mafalda era “a heroína do nosso tempo”. Fã assumido das suas tiras, dedicou-lhe um texto intitulado Mafalda ou a Recusa, datado de 1969, que acabou por ser publicado no prefácio do volume Mafalda, a Contestatária. Por sua vez, o Nobel da Literatura português acreditava que “a leitura de Mafalda deveria ser obrigatórias nas escolas, mas não nas primárias, e, sim, nas universidades.”
6. Mafalda tornou Quino num dos cartoonistas mais populares do mundo
Embora Quino garantisse que não sentia qualquer favoritismo em relação a Mafalda, em comparação com os seus outros desenhos, é ela a grande responsável do seu legado na banda desenhada e na cultura popular. As tiras de Mafalda foram editadas em 16 idiomas e publicadas em mais de 30 países, e as homenagens à pequena contestatária extrapolam as fronteiras da Argentina.
Em 2016, numa entrevista à agência Efe, Quino afirmou que gostaria de ser recordado como "alguém que fez pensar as pessoas sobre as coisas que acontecem" e admitiu que o mundo atual seria para a personagem Mafalda "um desastre e uma vergonha" (Diário de Notícias). Morreu em 2020, aos 88 anos, vítima de um AVC.

Homenagem feita após a morte de Quino, pelo cartoonista Gilmar Fraga.