Se acha que só as crianças podem apreciar uma história contada através de desenhos, ainda não deu uma oportunidade às novelas gráficas. Antes de passar para as grandes telas de projeção, os filmes também são uma espécie de banda desenhada – e agradam a pessoas de todas as idades. Talvez a analogia seja melhor no sentido contrário: a banda desenhada é uma espécie de cinema partido em frames. São artes separadas, mas ambas se tocam na capacidade de envolver quem as vê (e lê) numa atmosfera que só existe dentro daqueles retângulos (os limites da tela de cinema e os limites das vinhetas). Em Portugal, este género tem crescido bastante. Inicialmente, era o manga que atraía mais fãs, mas hoje há bandas desenhadas e novelas gráficas para todos os gostos: ficção, não ficção, estrangeira e nacional.
Estas cinco sugestões vão deliciá-lo e abrir uma porta que pode nunca mais querer fechar.
1. Mulher Vida Liberdade, de Marjane Satrapi
Para marcar o aniversário da morte da iranaiana Mahsa Amini e o começo do movimento Mulher Vida Liberdade, um livro com a visão de dezassete ilustradores reconhecidos mundialmente e três especialistas sobre o Irão, sob a coordenação de Marjane Satrapi.
Em 16 de Setembro de 2022, Mahsa Amini, uma jovem estudante iraniana, foi detida e espancada até à morte pela polícia religiosa em Teerão. O seu único crime foi não usar o lenço imposto às mulheres pela República Islâmica. O destino desta mulher de 22 anos desencadeou uma onda de protestos sem precedentes que rapidamente se espalhou por todo o país.
Por ocasião do primeiro aniversário do movimento, Marjane Satrapi reuniu alguns peritos e cartoonistas. Juntos, querem mostrar o que não pôde ser fotografado ou filmado devido à censura.
2. Mau Género, de Chloé Cruchaudet
Paul e Louise conhecem-se, apaixonam-se e pouco depois casam-se. Mas a Primeira Guerra Mundial irrompe e Paul é forçado a separar-se de Louise para ir combater. Nas trincheiras, Paul vive um verdadeiro inferno e deseja escapar de lá a qualquer custo, acabando por desertar e reencontrar a mulher em Paris. Está são e salvo, mas condenado a permanecer escondido num quarto de hotel.
Para pôr fim à sua clandestinidade, Paul encontra uma solução: mudar de identidade, travestindo-se. A partir desse momento passará a chamar-se Suzanne. Entre a confusão da mudança de género e o trauma da guerra, o casal terá um destino extraordinário. Quando por fim é concedida amnistia aos desertores, Suzanne poderá voltar a ser Paul, e a vida de ambos poderá retomar a normalidade.
Mas será isso de facto uma boa notícia?
3. Género Queer, de Maia Kobabe
Em Género Queer, Maia Kobabe criou uma autobiografia intensamente catártica sobre a sua jornada para se identificar como pessoa não binária e assexual, e para se assumir perante a sua família e a sociedade.
Ao abordar questões sobre identidade de género — o que significa e como deve ser pensada —, a história também assume o papel de um guia muito necessário e comovente.
4. Balada para Sophie, de Filipe Melo e Juan Cavia
A vida de Julien Dubois, pianista de sucesso, confunde-se com a história da Europa do século XX. Desencantado e misantropo, vive a reforma numa velha mansão, com um gato e uma governanta por companhia.
Um dia, é visitado por uma jovem jornalista que o incita a contar a sua verdadeira história. Nas paredes da casa, saturadas de fumo de cigarro e de velhas memórias, ressoa a confissão de uma vida feita de rivalidade, desamor e arrependimento.
Balada para Sophie é uma deslumbrante novela gráfica de uma das duplas mais consagradas da Banda Desenhada em Portugal.
5. Pardalita, de Joana Estrela
Quando Raquel nos começa a contar a sua história, Pardalita já entrou na sua vida. Não de rompante, mas lenta e subtilmente, primeiro nos corredores da escola, depois nos ensaios do teatro.
Raquel só a conhece de vista, mas conta os dias para a voltar a encontrar e começa a reparar em pequeníssimas coisas — como a etiqueta da camisola de Pardalita que lhe toca a pele do pescoço.
Raquel começa a perguntar-se: "Qual é a distância a que se pode estar de alguém sem dar a entender que não se quer distância nenhuma?"