Gabriel García Márquez nasceu a 6 de março de 1927 em Aracataca, uma pequena cidade da Colômbia, e tornou-se um dos escritores mais lidos e celebrados de todos os tempos. O mestre do realismo mágico não foi apenas o autor de Cem Anos de Solidão: foi jornalista, contador de histórias e um homem cuja vida foi tão rica em episódios surpreendentes quanto a sua ficção.
Para assinalar o aniversário do seu nascimento, reunimos dez curiosidades que revelam o homem por detrás do mito e a magia que moldou a sua obra.
1. Cem Anos de Solidão: a obra que mudou a sua vida
Em janeiro de 1965, García Márquez ia a caminho de Acapulco com a mulher e os dois filhos quando, a meio da estrada, sentiu que sabia exatamente como escrever o livro que tinha na cabeça há mais de uma década. Parou o carro, voltou para a Cidade do México e fechou-se no escritório. Durante os 18 meses seguintes, Mercedes Barcha tratou das crianças, pagou as contas, resolveu problemas com o senhorio e não o interrompeu. Gabo (como era carinhosamente apelidado por todos) escrevia das nove da manhã às três da tarde, todos os dias, sem falta. Quando entregou o manuscrito à editora, a família estava com uma dívida equivalente a seis meses de rendimento.
O livro foi publicado pela Editorial Sudamericana em Buenos Aires a 30 de maio de 1967. A primeira edição de 8.000 exemplares esgotou em dias. Em poucas semanas, chegaram cartas de toda a América Latina. Gabriel García Márquez tinha 40 anos e nunca mais precisou de trabalhar para outra pessoa.
2. Mercedes Barcha: a mulher que tornou tudo possível
García Márquez conheceu Mercedes Barcha quando ela tinha 13 anos, numa dança em Mompox, e disse-lhe imediatamente que ia casar com ela. Ela respondeu que era "uma ideia idiota". Casaram em março de 1958, em Barranquilla, e estiveram juntos até à morte de Gabo, em abril de 2014, aos 56 anos. Durante a escrita de Cem Anos de Solidão, foi Mercedes quem sustentou a família com engenho: vendeu o carro, penhorou a televisão, o rádio e um secador de cabelo. Quando o manuscrito ficou pronto e apenas tinham dinheiro para enviar metade das páginas para a editora, foi ela quem decidiu enviar a segunda metade primeiro, porque achava que era a mais forte.
Nas décadas seguintes, negociou contratos, filtrou pedidos de entrevista, administrou os direitos de autor em múltiplos idiomas e protegeu o espaço criativo do marido com uma disciplina notável. García Márquez disse sobre ela, em mais do que uma ocasião: "Mercedes é a única pessoa de quem nunca me separei, porque ela é a única que me suporta."
3. O último livro foi publicado contra a sua vontade
Vemo-nos em Agosto é um romance curto sobre Ana Magdalena Bach, uma mulher casada que viaja todos os anos até à ilha onde está sepultada a mãe e que, nessas viagens, vive um caso de amor diferente com um desconhecido. García Márquez trabalhou no livro durante anos, mas nunca ficou satisfeito com ele. Nos últimos anos de vida, com a memória a deteriorar-se por efeito de um linfoma no cérebro e de demência, Gabo pediu expressamente aos filhos Rodrigo e Gonzalo que destruíssem o manuscrito. Disse que o livro "não funcionava" e que não queria que fosse publicado.
Os filhos decidiram ignorar o pedido. Em março de 2024, no 97.º aniversário do nascimento do pai, Vemo-nos em Agosto foi publicado simultaneamente em espanhol e em dezasseis outras línguas. A decisão gerou um debate sério sobre ética editorial, os limites da vontade póstuma dos artistas e o papel das famílias na gestão de legados literários.
4. O discurso do Nobel foi sobre a América Latina
Quando García Márquez subiu ao pódio em Estocolmo, a 8 de dezembro de 1982, para receber o Prémio Nobel de Literatura, o mundo esperava um discurso literário: reflexões sobre a criação, sobre Macondo, sobre realismo mágico... mas receberam outra coisa.
O discurso intitulou-se A Solidão da América Latina. Durante cerca de vinte minutos, falou de um continente que a Europa continuava a tentar compreender com categorias que não eram as suas, que era julgado por padrões de desenvolvimento que não tinham em conta a sua história, os seus ritmos, as suas feridas coloniais. Defendeu o direito dos povos latino-americanos a construírem o seu próprio futuro sem interferência externa.
Foi um gesto deliberado e político. García Márquez chegou à cerimónia vestido com uma liqui-liqui branca (uma roupa tradicional da Colômbia e Venezuela) em vez de um fato formal. Em entrevistas posteriores, explicou que quis que o seu corpo dissesse o mesmo que as suas palavras: "Não vim até aqui ser outro. Vim como o que sou."
5. A professora Rosa Elena: o seu primeiro amor
Rosa Elena Fergusson tinha 16 anos quando começou a ensinar na Escola Montessori de Aracataca, nos anos 30. Foi com Rosa Elena que Gabo aprendeu a ler e a escrever com cuidado. Ela ensinava-o a prestar atenção às palavras, não apenas ao seu significado, mas ao seu peso, ao seu ritmo, à forma como se encaixavam umas nas outras. García Márquez manteve-a na memória durante toda a vida.
Após receber o Nobel, García Márquez procurou Rosa Elena Fergusson e agradeceu-lhe pessoalmente, dizendo que foi ela quem o ensinou o caminho para a literatura.
6. Macondo nasceu em Aracataca
Gabriel García Márquez nasceu em Aracataca, uma pequena cidade da região Caribe da Colômbia, no corredor bananeiro controlado pela United Fruit Company, a empresa norte-americana que dominava a economia da região e grande parte das suas decisões políticas.
Em dezembro de 1928, quando Gabo tinha pouco mais de um ano, soldados do exército colombiano abriram fogo sobre os trabalhadores das bananeiras em greve numa estação de comboio em Ciénaga, a poucos quilómetros de Aracataca. O número de mortos nunca foi apurado com rigor e o governo negou o massacre durante décadas. Anos mais tarde, este episódio ressurgiu nas páginas de Cem Anos de Solidão como o massacre dos trabalhadores das bananeiras: um dos momentos mais poderosos do romance.
A infância em Aracataca, com o avô coronel, com as histórias da avó, com o calor e a violência latente da região, foi a matéria-prima de toda a sua obra.
7. Realismo Mágico: não o inventou, mas tornou-o eterno
O termo Realismo Mágico foi usado pela primeira vez pelo crítico de arte alemão Franz Roh, em 1925, para descrever uma corrente da pintura pós-expressionista. Aplicado à literatura, o conceito foi desenvolvido na América Latina por autores como Alejo Carpentier, que preferia falar de "real maravilhoso", e Miguel Ángel Asturias, que ganhou o Nobel em 1967 (o mesmo ano em que Cem Anos de Solidão foi publicado).
Em várias entrevistas, atribuiu as origens do seu realismo mágico à tradição oral da parte caribenha da Colômbia (e à forma como a sua avó lhe contava histórias sobrenaturais com a mesma serenidade com que descrevia o tempo que ia fazer). "Ela dizia as coisas mais espantosas com a cara mais séria do mundo", recordou.
8. Proibido de entrar nos EUA
Durante muitos anos, García Márquez enfrentou dificuldades em obter um visto para entrar nos Estados Unidos. As autoridades do Departamento de Estado suspeitavam das suas simpatias políticas e das suas ligações à Revolução Cubana, bem como da sua amizade com Fidel Castro. Só em meados da década de 1990, após o fim da Guerra Fria, lhe foi finalmente concedido o visto, permitindo-lhe viajar livremente.
9. A amizade com Fidel Castro
García Márquez conheceu Fidel Castro no início dos anos 60, enquanto trabalhava em Nova Iorque para a Prensa Latina, a agência de notícias criada pela Revolução Cubana. A amizade desenvolveu-se ao longo de décadas. Castro disponibilizou-lhe uma mansão em Havana, onde Gabo passava períodos a escrever. Falavam sobretudo de literatura, de política e de futebol.
Intelectuais como Mario Vargas Llosa, Guillermo Cabrera Infante e Susan Sontag criticaram García Márquez por não usar a sua influência para pressionar o regime cubano a libertar presos políticos ou a respeitar a liberdade de imprensa. Gabo respondeu invariavelmente que preferia o diálogo privado à declaração pública e que tinha conseguido a libertação de vários presos por esse meio.
10. Jornalista até ao fim
García Márquez começou a publicar crónicas no jornal El Universal de Cartagena em 1948, aos 20 anos, enquanto ainda estudava Direito. Nunca terminou o curso, mas continuou a escrever para jornais: no El Heraldo de Barranquilla, no El Espectador de Bogotá, onde em 1954 inaugurou uma das primeiras colunas de crítica cinematográfica da Colômbia, e depois em Bogotá, Caracas, Paris e Nova Iorque como correspondente. Fundou a revista Cambio, em Bogotá, onde escreveu reportagens sobre o narcotráfico, sobre a guerra, sobre o poder.
"O jornalismo é o melhor ofício do mundo", disse numa conferência em Los Angeles em 1996. "Mas só quando se faz com amor."