10 autores universais

Por: Bertrand Livreiros a 2023-04-20 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Quando Claude Lévi-Strauss, no fim da década de 1960, cunha o slogan “o objetivo último das ciências humanas não é constituir o homem, mas dissolvê-lo”, autores como Roland Barthes, Michel Foucault e Jacques Derrida vieram declarar a “morte do autor”, apelando à ‘literariedade’ da literatura ou mesmo ao foco direto da palavra no texto. Fizeram-no pela universalidade da literatura e pela forma como a nossa leitura de um livro não se deve basear na biografia do seu autor.

Mais do que nunca, a ideia ressoa perante um manifesto cosmopolita, de um mundo aberto, livre e sem fronteiras, onde a arte a todos pode e deve pertencer. Também aí a literatura deixa de ter passaporte, nem se divide em nacionalidades ou fronteiras. Estas não confinam o escritor — que muitas vezes escolhe outra “pátria literária” ou até pátria nenhuma — nem o leitor que pode escolher os seus familiares e entes queridos na literatura de forma livre.

Entre os muitos autores possíveis, que pela sua obra passaram a conhecer um leitor também ele universal, existem situações várias que apontam para esta circunstância brilhante e singular. Quer pelas diferentes línguas em que escreveram — como é o caso de Nabokov ou Kundera — pelos países que foram adotando — como fez Canetti ou Hannah Arendt — ou apenas pelo facto de terem escrito as suas obras a pensar numa ideia de mundo que ultrapassava o local físico onde habitavam, a arte da escrita deixou (e assim continuará a ser) de estar restringida a uma latitude geográfica. A todos pertence. Recordamos por isso dez desses cimeiros nomes autorais que escreveram para todos e para cada um de nós, e cujas obras estão hoje traduzidas um pouco por todo o mundo.



ELIAS CANETTI

A certa altura da sua vida, o Prémio Nobel da Literatura de 1981 tinha nacionalidade búlgara e britânica, mas optara por escrever em língua alemã, outra das suas pátrias adotadas. Tendo nascido em Ruse, na Bulgária, em 1905, cedo viajou para a Inglaterra, passando depois pela Áustria, Suíça e Alemanha. Autor sem pátria, escreveu grande parte dos seus livros como exercício de um nómada em busca do seu próprio lugar. Numa das suas obras mais importantes, de cunho biográfico, dividida entre A Língua Resgatada — História de uma Juventude e os volumes O Archote no Ouvido — História de uma vida 1921-1931 e O Jogo de Olhares — História de Vida 1931-1937 (publicadas em Portugal pela Cavalo de Ferro), Canetti alcançou um patamar ímpar ao despontar uma das mais originais e perspicazes reflexões sobre a condição humana em sociedade. Combinou erudição com fulgor narrativo, encarando a escrita como ofício criativo que continuou até à sua morte.
 

HANNA ARENDT

O seu nome está entre os dos grandes pensadores do século XX. A obra extensa que deixou no domínio da filosofia política, mas também noutros campos do ensaio e da literatura, tornou-a uma das escritoras mais influentes do seu tempo, tendo mantido uma condição de apátrida, até obter nacionalidade norte-americana. Hannah Arendt nasceu na Alemanha, no seio de uma família judia, e devido à perseguição judaica pelo regime nazi, deixou o seu país. Nos anos seguintes trabalhou em Paris, tendo antes passado por cidades como Praga e Genebra. Quando a França foi ocupada pelos alemães, Arendt foi presa e retida no campo de concentração de Gurs. Em 1941 conseguiu escapar e fugir para os Estados Unidos, através de Espanha e Portugal. Nos anos que se seguiram, e já numa condição de exílio, produziu algumas das suas obras mais célebres, com ênfase na análise aos regimes totalitários, mas também sobre a situação dos refugiados, reflexões que se mantêm plenamente atuais.
 

JOSEPH BROSKY

Com uma obra descrita como pornográfica e antissoviética, o Prémio Nobel da Literatura de 1987 foi interrogado e preso, colocado duas vezes em instituições para pessoas com doenças mentais, antes de deixar definitivamente o seu país de origem, a Rússia, onde nascera em 1940. Com a ajuda de W. H. Auden e de outros autores refugiou-se nos Estados Unidos, onde lecionou em várias universidades, passando a adotar a língua inglesa. A sua obra, marcadamente filosófica, tratou de temas universais como a condição humana e o sentido da existência. De forma singular, Brodsky enfatizou o poder da literatura de afetar positivamente os leitores, em prol do desenvolvimento da linguagem e da cultura em que estes se situam. Não deixou de ser crítico face ao regime vigente no seu país de origem e pelo facto de as autoridades soviéticas nunca terem concedido autorização aos seus pais para o visitar no exílio. No caso de Brodsky pode afirmar-se como a dissidência se tornou fundamental para dar forma à sua perspetiva, através da literatura, sobre a tirania de certos países, delineando um itinerário bibliográfico que soma conhecimento e desilusão.
 

AGOTA KRISTOF

Só aos 21 anos é que aprendeu a escrever e a falar em francês, língua que iria adotar a partir de então, na sua escrita literária. Foi em Neuchâtel, na Suíça, onde trabalhou por alguns anos numa fábrica de relojoaria e já em condição de exílio. Agota Kristof, escritora de origem húngara, tinha deixado o seu país após a sangrenta repressão soviética ocorrida em 1956. Nas suas obras, sobretudo no romance de 1986, Trilogia da cidade de K., que reúne na verdade três livros (também conhecidos como A trilogia dos gémeos), aborda a ideia de uma Europa marcada pela guerra, pelas privações e pelas injustiças. Os seus livros falam-nos da desolação que os conflitos bélicos provocaram no século XX e das divisões que estes fenómenos originaram. Aborda-se a ideia de perda de identidade e desenraizamento, perpetrados pelas sociedades marcadamente autoritárias. Aspetos e características literárias que fizeram da sua escrita um profundo exercício de autorreflexão, em que as fronteiras físicas deixam de ser relevantes e se esbatem perante o prospeto futuro de um mundo mais pacífico e ligado por laços de igualdade e fraternidade.
 

VLADIMIR NABOKOV 

Escreveu em russo, inglês e francês. Ainda hoje reconhecido pelos seus enredos complexos, jogos de palavras e metáforas ousadas, Nabokov é tido como um dos mais notáveis escritores do século XX. Como romancista, poeta, tradutor e entomologista russo-americano, este autor trilingue viu na sua condição de exílio uma oportunidade de ir mais longe através da literatura. Os seus primeiros nove romances foram escritos em russo, mas conseguiu proeminência internacional ao adotar a língua inglesa, que o próprio acaba por desenvolver e transformar, somando-lhe contemporaneidade. Antes de se fixar nos Estados Unidos, passou pela Inglaterra, França e Alemanha. Foi o autor de Lolita, um dos romances mais aclamados do seu tempo, marcado pelo estilismo da sua prosa, elemento que se junta ao domínio linguístico — presente em vários livros seus — e que teve uma profunda influência na forma como construiu a sua obra. Não deixou por isso, mesmo depois da sua morte, de ser um autor de inspiração para muitos outros romancistas um pouco por todo o mundo que, seguindo o seu exemplo, procuraram fazer da escrita um ofício sem nacionalidade ou língua adquirida.
 

MILAN KUNDERA

Resumiu a sua biografia em duas frases: “Milan Kundera nasceu na antiga Checoslováquia. Em 1975, instalou-se na França.” O resto não importa: o que conta são os seus textos. Nascido em Brno, em 1929, Kundera naturalizou-se francês em 1981, e foi autor de alguns dos romances mais aclamados do último século. Com uma obra que se debruça sobre as escolhas e deceções inerentes à vida humana, é recorrente a sua crítica aos regimes repressivos, como foi o caso do regime soviético, que provocou o seu exílio depois da chamada Primavera de Praga. Só em 2019 é que Milan Kundera recuperou a nacionalidade checa, com o apoio da embaixada em Paris e um pedido de desculpa por parte do embaixador checo, em nome do seu governo, pelas perse guições de que o autor foi alvo durante anos. A verdade é que foi também pelo rumo da sua vida, por esta deslocação, que a sua literatura se tornou universal, traduzida em todo o mundo. A Insustentável Leveza do Ser é a sua obra mais aclamada pelos leitores e pela crítica e em muito contribuiu para o tornar um autor reconhecido mundialmente.
 

SUSAN SONTAG

Foi uma das mais prolíficas autoras norte-americanas do seu tempo. Susan Sontag destacou-se como escritora, ensaísta, cineasta, filósofa, professora, crítica de arte e ativista. Escreveu de forma extensa sobre fotografia, cultura e media e foi uma voz reconhecida nas causas antiguerra, em prol dos direitos humanos e pelas campanhas de sensibilização sobre o vírus da sida. Conhecida pelo seu ativismo, viajou para áreas de conflito, incluindo a Guerra do Vietname e o Cerco de Sarajevo, durante a Guerra da Bósnia. Não conheceu fronteiras físicas e os seus ensaios revelaram-na como uma autora atenta e crítica perante o mundo, sem tomar partidos. Em virtude da sua inteligência analítica, deixou um legado polémico, fruto da sua postura interventiva perante as lógicas de trabalho dos órgãos de comunicação, os aparatos bélicos e as ideologias políticas. Dessa forma, não deixou de moldar novos limites para a cultura ocidental. Mesmo depois da sua morte, continua a ser amplamente lida e traduzida em todo o mundo. A sua escrita, concisa e fervorosa, atrai novos leitores ainda hoje, impressionados também pela sua persona e voz descomplexada, que tanto soube ser crítica e condenatória, como elogiosa e singular, mantendo um olhar original sobre matérias ainda por desbravar.
 

STEFAN ZWEIG

É, porventura, o autor desta lista para quem o sentimento de perda de identidade nacional mais marcou a escrita. Zweig foi um notável escritor, romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo austríaco de origem judaica, reconhecido e aclamado ainda em vida pela sua extensa obra. A ascensão do regime nazi na Alemanha e, logo depois, no seu país de origem levou-o a optar por uma condição de exílio. Não obstante, manteve-se fiel ao pensamento pacifista, defendendo a unificação da Europa como solução para os problemas do continente. Os seus escritos revelaram-no como um verdadeiro escritor humanista, de cariz memorialista, característica que deixou plasmada na obra O Mundo de Ontem. Pela sua perspetiva foi perseguido, mas nunca deixou de denunciar a tirania daqueles que escolheram a opressão como instrumento político. Em 1942 morreu no exílio no Brasil, cometendo suicídio, face à barbárie durante a Segunda Guerra Mundial, e perante a destruição de um mundo a que pertencera, mas que deixara de existir diante dos seus olhos.
 

CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu na Nigéria, em 1977, tendo ido estudar para os Estados Unidos aos dezanove anos. Ainda cedo, os seus contos apareceram em diversas publicações e receberam inúmeras distinções, como o prémio BBC Short Story Competition, em 2002, e o O. Henry Short Story Prize, em 2003. Com uma obra traduzida em mais de trinta línguas, a autora tem sido uma das vozes prolíficas da literatura africana, contribuindo para a desmitificação desse mesmo rótulo que sempre recusou. Através dos seus livros, mas também das suas reconhecidas e participadas palestras, Chimamanda Ngozi Adichie tem dado protagonismo às paisagens, cores e ritmos da sua herança e partilhado a sua experiência como mulher, africana e feminista, e a sua visão sobre construção de género e sexualidade. A sua escrita tem atraído uma nova geração de leitores um pouco por todo o mundo, na desconstrução plena daquilo que são os estereótipos referentes à nacionalidade ou local de origem de um escritor contemporâneo.
 

SAMUEL BECKETT

É um dos escritores e dramaturgos mais influentes de todos os tempos. Em simultâneo, Beckett é também um dos únicos autores desta lista a ter deixado a sua terra natal, a Irlanda, e a sua língua materna, o inglês. Por opção própria, fixa-se em França a partir da Segunda Guerra Mundial e adota a língua francesa, orientando as suas próprias traduções entre francês e inglês. Questionado em 1954 sobre por que razão decidiu escrever noutro idioma, respondeu simplesmente: "Pela necessidade de estar mal equipado." Recebeu o Prémio Nobel de Literatura de 1969. Nas suas obras, traduzidas em mais de trinta línguas, Beckett recorre a uma riqueza metafórica incomensurável, privilegiando uma visão pessimista acerca da natureza humana. As suas peças deixaram de conhecer uma língua materna e chegaram aos palcos de todo o mundo, sendo ainda hoje amplamente revisitadas. Tornou-se por isso um autor de cunho universal e que continua a inspirar novos criadores em todo o mundo.
 

Este artigo foi publicado na Revista Somos Livros (edição abril 2023).

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