"Para quê tudo isto?" Biografia de Manuel António Pina| Um ato de amor

Por: Marisa Sousa a 2021-10-21

Manuel António Pina

Manuel António Pina

Jornalista e escritor, Manuel António Pina nasceu no ano de 1943, no Sabugal, na Beira Alta, e faleceu a 19 de outubro de 2012, no Porto. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, em 1971, exerceu a advocacia e foi técnico de publicidade. Abraçou a carreira de jornalista no Jornal de Notícias, onde passou a editor. A sua colaboração nos media também se distribui pela rádio e pela televisão.
Autor de livros para a infância e juventude e de textos poéticos, a sua obra apresenta uma grande coesão estrutural e reflete uma grande criatividade, exige do leitor um profundo sentido crítico e descodificador."Brincando" com as palavras e os conceitos, num verdadeiro trocadilho, Manuel António Pina faz da sua obra um permanente "jogo de imaginação", tal labirinto que obriga a um verdadeiro trabalho de desconstrução para se encontrar a saída.
Afirmou-se como uma das mais originais vozes poéticas na expressão pós-pessoana da fragmentação do eu, manifestando, sobretudo a partir de Nenhum Sítio, sob a influência de T. S. Elliot, Milton ou Jorge Luis Borges, uma tendência para a exploração das possibilidades filosóficas do poema, transportando a palavra poética "quer para a investigação do processo de conhecimento quer para a investigação do processo de existência literária" (cf. MARTINS, Manuel Frias - Sombras e Transparências da Literatura, Lisboa, INCM, 1983, p. 72).
Transmissora de valores, muita da sua obra infantil e juvenil é selecionada para fazer parte dos manuais escolares, sendo também integrada em antologias portuguesas e espanholas.
Os seus textos dramáticos são frequentemente representados por grupos e companhias de teatro de todo o país e a sua ficção tem constituído o suporte de alguns programas de entretenimento televisivo, de que é exemplo a série infantil de doze episódios Histórias com Pés e Cabeça, 1979/80.
Como escritor, é autor de vários títulos de poesia, novelas, textos dramáticos e ensaios, entre os quais: em poesia - Nenhum Sítio (1984), O Caminho de Casa (1988), Um Sítio Onde pousar a Cabeça (1991), Algo Parecido Com Isto da Mesma Substância (1992); Farewell Happy Fields (1993), Cuidados Intensivos (1994), Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança (1999), Le Noir (2000), Os Livros (2003); em novela - O Escuro (1997); em texto dramático - História com Reis, Rainhas, Bobos, Bombeiros e Galinhas (1984), A Guerra Do Tabuleiro de Xadrez (1985); no ensaio - Anikki - Bóbó (1997); na crónica - O Anacronista (1994); e, finalmente, na literatura infantil - O País das Pessoas de Pernas para o Ar (1973), Gigões e Anantes (1978), O Têpluquê (1976), O Pássaro da Cabeça (1983), Os Dois Ladrões (1986), Os Piratas (1986), O Inventão (1987), O Tesouro (1993), O Meu Rio é de Ouro (1995), Uma Viagem Fantástica (1996), Morket (1999), Histórias que me contaste tu (1999), O Livro de Desmatemática e A Noite, obra posta em palco pela Companhia de Teatro Pé de Vento, com encenação de João Luís.
A sua obra tem merecido, frequentemente, destaque, tendo sido já homenageado com diversos prémios, como, por exemplo, o Prémio Literário da Casa da Imprensa, em 1978, por Aquele Que Quer Morrer; o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens e a Menção do Júri do Prémio Europeu Pier Paolo Vergerio da Universidade de Pádua, em 1988, por O Inventão; o Prémio do Centro Português de Teatro para a Infância e Juventude, em 1988, pelo conjunto da obra; o Prémio Nacional de Crónica Press Clube/Clube de Jornalistas, em 1993, pelas suas crónicas; o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários, em 2001, por Atropelamento e Fuga; e o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava e o Grande Prémio de Poesia da APE/CTT, ambos pela obra Os Livros, recebidos em 2005. Em 2011 foi-lhe atribuído o Prémio Camões. Já a título póstumo foi ainda galardoado com o Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes, pelo livro «Como se Desenha uma Casa», e com o Prémio Especial da Crítica dos Prémios de Edição Ler/Booktailors 2012, pelo livro Todas as Palavras – Poesia Reunida.

Manuel António Pina. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011.

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Álvaro Magalhães

Álvaro Magalhães

Álvaro Magalhães nasceu no Porto, em 1951, e publicou o seu primeiro livro em 1982.
A sua obra para crianças e jovens, que integra poesia, conto, ficção e textos dramáticos, repartindo-se por mais de 120 títulos, caracteriza-se pela originalidade e invenção, quer na escolha dos temas quer no seu tratamento.
Foi várias vezes premiado pela Associação Portuguesa de Escritores e pelo Ministério da Cultura. Em 2002, O limpa-palavras e outros poemas foi integrado na Honour List do Prémio Hans Christian Andersen, em 2004, Hipopóptimos – Uma história de amor foi distinguido com o Grande Prémio Calouste Gulbenkian e, em 2014, O senhor Pina recebeu o prémio Autores, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores ao melhor livro infantojuvenil publicado nesse ano.
Várias das suas publicações integram o Plano Nacional de Leitura e constam da lista e obras das Aprendizagens Essenciais de Português.
Parte da sua obra está publicada em Espanha, França, Brasil, Coreia do Sul e Itália.

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“A minha biografia não tem nada de extraordinário.

Ou talvez tenha, sem eu saber. Hei de perguntar a alguém que me conheça.”

Manuel António Pina

 

“Como acontece com o amor, a poesia de Manuel António Pina

é uma portentosa máquina de criar desconhecimento.”

Álvaro Magalhães

 

Quando lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande, respondia - sempre em verso - que queria ser santo, bombeiro, detetive e “Salazar” (pensando que se tratava de uma profissão). Tinha poucos brinquedos em casa, mas os preferidos eram as palavras: “E outros brinquedos que eu tinha, de facto, eram as palavras. E descobri isso quando era muito novo. Com as palavras inventava coisas. Sempre gostei muito das palavras…” As palavras viveram também uma história de amor com Manuel António Pina. “As palavras, todas as palavras, adoravam-no – e voam, deslumbradas, para ele”, diz-nos Álvaro Magalhães, companheiro de longa data do poeta e autor da biografia que acaba de chegar às livrarias.

Costumava sentar-se à mesa com um livro aberto em frente ao prato da sopa, acabando por ser repreendido por isso. Aos 7 anos de idade, aconteceu uma das leituras mais emocionantes da sua vida: os dois volumes de A Vida Sexual, de Egas Moniz, que leu às escondidas. Acabaria por figurar, para sempre, na lista dos favoritos, acompanhado de Alice no País das Maravilhas, Joanica-puff, a Bíblia ou a Ilíada. Lia tudo o que apanhava, incluindo entradas avulsas da Enciclopédia Verbo. Dos poetas, Pessoa ficou-lhe para sempre: “Apanhei então alguma daquela poesia (…), como se apanha uma doença.”

Tinha 17 anos quando se mudou para o Porto: “Nasci no Sabugal, mas costumo dizer que me nasci a mim mesmo no Porto.” Além das tertúlias no café Orfeu, havia um grupo mais restrito que acabava por desaguar em casa de Manuel António Pina, aí continuando as conversas sobre literatura. Era um exímio conversador e contador de histórias. Até quando narrava um drama ou uma desgraça, ele corria o risco de ser engraçado, esclarece Álvaro Magalhães. Foi professor, advogado, guionista, publicitário, ator de teatro, praticante de artes marciais, revolucionário, adepto de futebol e jogador de póquer.  E foi poeta, único e inimitável, “um poeta que já nasceu feito”, nas palavras de Álvaro Magalhães, relativamente ignorado, desde que começou a publicar, em 1974, até 1999, quando tinha quase 60 anos e viu a sua poesia ser publicada pela Assírio & Alvim.

Certa vez, uma professora da Escola Secundária Maria Lamas, no Porto, que havia sido aconselhada a ensinar a sua poesia nas suas aulas, recusou-se a fazê-lo alegando que não a entendia. Tendo conhecimento deste episódio, o poeta respondeu: “É natural, eu também não entendo aquilo que escrevo.” Num outro momento, durante uma visita escolar, um aluno pergunta-lhe por que escolhera ser poeta e escritor: “A literatura é que me escolheu a mim.” Em 2011, recebe “a coisa mais inesperada que podia esperar”: o Prémio Camões.  Dizia “Para quê tudo isto? Para quê tudo isto?” (o “quê” precedido por um profundo suspiro) sempre que era assaltado pela melancolia, que um dia apelidou de “vazio privado”, essa espécie de eterna busca do sentido das coisas e, simultaneamente, como lhe chama Álvaro Magalhães, a “manifestação da desnecessidade de tudo.”

Acreditava que não vale a pena fazer grandes planos para a eternidade porque esta “está-se nas tintas” para os nossos planos. Fez apenas um pedido: “Fazei com que alguma coisa permaneça. Um verso, um poema.” “A ideia de reforma, que é horrível, aterroriza-me. Quero trabalhar até morrer.”, disse em 2000, quando, então com 57 anos, deixou o jornal onde trabalhara como jornalista durante trinta anos. Morreu no dia 19 de outubro de 2012. Cerca de um ano depois da sua morte, Álvaro Magalhães, juntamente com mais nove amigos, que costumavam encontra-se com Manuel António Pina no Café Convívio (e que passavam a vida à sua espera), fundaram o Clube dos Amigos à Espera do Pina, que assumia como missão a preservação da memória e da literatura do poeta.  Talvez continuemos todos à espera do Pina. Enquanto ele não regressa, mergulhamos a saudade nesta biografia que é um ato de amor. Como diria o poeta (usando um verso do seu poema As Escadas): “Tomai, este é o meu corpo”.

 

“Fazei com que alguma coisa permaneça.

Um verso, um poema.”

Manuel António Pina

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