Pensar o que vemos, hoje, é simultaneamente um enorme desafi o e umaurgência. Os dias correm-nos por entre os dedos e, à mesma velocidade, saltam-nos imagens pelos olhos dentro. Do prato ao café, do livro ao quadro, dos pés às nuvens, do vazio à multidão, da intimidade à comunidade. Tudo se fotografa e tudo se partilha, acabando por cansar o verbo ver. Diz-nos António Mega Ferreira, na abertura do seu Mais Que Mil Imagens (Sextante), que o aforismo, atribuído a Confúcio, “Uma Imagem vale mais que mil palavras”, acabou por se banalizar, sobretudo entre os fotojornalistas da segunda metade do século XX. Nem a imagem ocupa o lugar insubstituível das palavras, nem as palavras se substituem à imagem, assevera.
"Para um escritor, uma emoção estética demasiado forte (seja ela poética, visual ou musical), tem o condão de atear a escrita e, invariavelmente, há-de acabar em texto." — António Mega Ferreira
Neste livro, que deve ser entendido como resultado de impulsos literários desencadeados por estímulos visuais, o autor apresenta-nos uma forma (a sua) de olhar e uma forma de pensar o que se vê. São trinta os exemplos apresentados. Trinta pontos de partida para as palavras.
No final, fica o desafio — “Criar e experienciar novos estados de visão. Ver com o corpo todo. Emocionar-se. Comover-se. E pensar, sempre pensar,” — e a certeza de que este é um livro que, por mérito próprio, conquista o seu espaço no território dos imprescindíveis.