"Klara e o Sol" | O que faz de nós seres humanos?
“Quando éramos novas, Rosa e eu estávamos a meio da loja, ao lado da mesa das revistas, e conseguíamos ver mais de metade da montra.” É na monotonia de um dia comum que tem início Klara e o Sol, de Kazuo Ishiguro. Klara e Rosa são Amigas Artificiais (AA), androides situados algures entre o boneco e o robô, concebidos com o objetivo de acompanhar o dia-a-dia de uma criança. A narrativa parece-nos familiar, relembrando Nunca Me Deixes (2019), em que a protagonista é um clone destinado a doar os seus órgãos até morrer, e Os Despojos do Dia (2017), uma narrativa sobre um mordomo que pondera sobre a sua vida ao serviço de um lorde. A partir do olhar desses protagonistas, percebemos que as diferenças entre a nossa realidade e a ficção de Ishiguro não são mais do que ímanes que se atraem um ao outro.