Autor de mais de 60 livros publicados em todo o mundo e traduzidos em mais de 20 idiomas, o norte-americano Todd Parr esteve recentemente em Portugal para promover o seu mais recente livro, Não Faz Mal Errar, e para conhecer os seus leitores portugueses. Dono de três pitbulls resgatados, que aparecem frequentemente nos seus livros, é, para além de escritor e ilustrador, um ativista pelos direitos dos animais e um amante da culinária, principalmente de macarrão com queijo. Antes de uma sessão muito especial na livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa, sentámo-nos à mesa do café da livraria mais antiga do mundo em funcionamento para uma conversa com o autor — sobre livros, comida e como tornar o mundo um lugar melhor.
Viajou pela primeira vez para Portugal há vinte anos, em 2004. Quais foram as suas impressões do nosso país nessa altura e agora, pela segunda vez, em 2024?
Muito boas, porque quando me pediram para vir eu nem hesitei, disse "Sim, vou a Portugal, sem problema", sabia que queria voltar.
Sabemos que para além de escrever e desenhar, também adora cozinhar. Já conhece algumas receitas portuguesas?
Estou a aprender. Vou recriar algumas das coisas que comi aqui, tenho-me sentido inspirado e alguns dos sítios onde comemos deram-me ideias. Já não me lembro dos nomes [dos pratos que experimentei] mas havia um que estava empilhado com beringela e curgete, e tinha um molho à volta…
Uma francesinha vegetariana, talvez?
Provavelmente sim, era um prato famoso no sítio onde estávamos. Preciso que os meus intérpretes me relembrem do nome de tudo o que comemos, porque comemos tantas refeições boas em tantos sítios… mas adoro tirar fotografias a todos os pratos e saber que os vou tentar recriar. Depois de ter estado no Brasil pela primeira vez, voltei para casa, comprei as panelas de barro tradicionais e fiz uma refeição brasileira inteira só de memória, portanto é isso que vou fazer.
Ao longo desta semana tem visitado várias escolas. Como é que tem sido conhecer os seus leitores portugueses?
Semelhante a como tem sido em todo o mundo, parece que a reação é sempre a mesma. A única diferença é a tradução. Quando estou a apresentar, é uma coisa muito rápida e enérgica, mas com um tradutor temos de fazer pausas e isso demora o dobro do tempo. E as crianças mais pequenas não têm muita paciência para isso. Mas tirando isso tem sido ótimo, tem sido muito bom.
Talvez não saiba, mas Portugal é o segundo país da Europa com os piores hábitos de leitura. Como podemos inverter esta tendência e mostrar às crianças e aos adolescentes como a leitura pode ser divertida?
Penso que é uma questão de envolvimento, de fazer da leitura um processo envolvente. Chumbei na segunda classe porque não conseguia ler e, mais tarde, descobri que era porque tinha dislexia, o que significava que não era capaz de juntar as palavras. Mas na altura não sabiam isso, só sabiam que eu não conseguia ler. No entanto, uma coisa que me ajudou muito foi ler com a minha avó, noite após noite, um livro chamado Go dog go (de P. D. Eastman). E não era simplesmente ela a ler o livro e eu calado a ouvir. Ela fazia-me perguntas como "Porque é que gostas tanto dos cães azuis?" ou "Porque é que preferes os cães com chapéus?". Para as crianças, não se trata apenas de lhes ler um livro, mas sim de as envolver no processo e falar sobre as páginas. Penso que isso as mantém interessadas para além do livro que lhes está a ser lido.
Essa experiência de chumbar na segunda classe devido à dislexia foi a razão pela qual escreveu Não faz mal ser diferente, o seu primeiro livro. Acha que tem tendência para escrever os livros de que precisava quando era criança?
Sim, sinto que se tivesse tido alguns destes livros as coisas poderiam ter sido mais fáceis para mim. Eu tinha muito receio e vergonha por não conseguir ler, então nunca levantava a mão nas aulas com medo de cometer algum erro, o que me impedia de aprender. É por isso que o título do meu novo livro, que acabou de ser editado em Portugal, é Não faz mal errar, para que as crianças saibam que é assim que aprendemos, cometendo erros. Muito do que faço é baseado em quando eu era criança e em como posso fazer a diferença agora para ajudar outras crianças como eu.
Escreve muito sobre temas como a diversidade, a tolerância e a bondade, mas os seus livros são também muito divertidos. Como é que encontra esse equilíbrio entre ensinar uma lição aos seus pequenos leitores e entretê-los ao mesmo tempo?
Acho que é através do humor e da imprevisibilidade, mas também do meu estilo de arte simples. Porque parece que foi uma criança de 6 anos que desenhou as ilustrações nos meus livros, e os miúdos são automaticamente atraídos por isso, e pensam: "Eu consigo fazer melhor". E eu encorajo-os a isso. Penso que, a partir do momento em que os cativamos com as ilustrações simples, fazemos humor, como o cão que usa meias ou o miúdo com as cuecas na cabeça (na capa do livro), elas não se sentem tão intimidadas. E depois a imprevisibilidade, pensar em como podemos dar a volta a algo que alguém diria "Oh, já esperava isso", mas depois criar algo completamente diferente que as obriga a pensar. Acho que essa é a chave para manter as crianças envolvidas e também para poder falar sobre algumas destas coisas que são tão difíceis de compreender para as crianças pequenas. Portanto, o humor, a imprevisibilidade e desenhar como uma criança de seis anos.
Um dos seus livros mais populares é O Livro da Família, que foi banido em algumas escolas dos EUA por afirmar que "algumas famílias têm duas mães ou dois pais". Qual é a sua opinião sobre este movimento de proibição de livros e como é que lida com isso?
Quando entrou pela primeira vez para a lista de livros proibidos nos Estados Unidos, pensei: "Não sei o que pensar sobre isso", mas não demorou muito para eu perceber que não havia outra maneira de escrever aquele livro. Porque não se pode fazer o que eu faço, escrever um livro sobre famílias e dizer que um certo tipo de família não pode aparecer nele porque pode ofender alguém. Acho que é muito importante que as crianças se vejam a si mesmas nos livros, e se uma criança se identificar com um livro que tem duas mães ou dois pais, acho que isso as torna mais confiantes e mais fortes. Por isso, para mim foi como se não houvesse outra opção, nunca escreveria um livro desse género e excluiria um tipo de família. E, portanto, não me incomoda, só me incomoda quando ouço que outras pessoas partilharam o livro e receberam reações negativas ou que se meteram em sarilhos quando estavam simplesmente a tentar fazer com que os seus filhos se sentissem bem.
Mas já se passaram mais de 15 anos desde que o livro entrou na lista de livros proibidos, por isso não é nada de novo. No ano passado, com a pressão mediática sobre os livros proibidos e tudo o mais, houve uma maior sensibilização para o assunto, e, em dezembro, a cantora P!nk disse que ia oferecer 3.000 cópias do livro no estado da Flórida, e pensei "Fixe!". Não lhe pedi para o fazer, mas é muito bom, especialmente porque vai acontecer no estado que tem estado à frente de muitas dessas proibições.
Num outro livro seu chamado O livro da Paz, escreve: "O mundo é um lugar melhor por tua causa". É esse o seu desejo enquanto escritor, criar um mundo melhor ao ensinar as gerações futuras a serem mais gentis?
Sim, e é uma coisa muito complicada, a paz. Mas penso que inspirar as crianças a serem melhores e a perceber que não somos tão diferentes como possam pensar é um bom começo.
Escreve sempre uma mensagem no final dos seus livros. Gostaria de deixar alguma mensagem aos seus leitores portugueses, enquanto se encontra na livraria mais antiga do mundo em funcionamento?
Acho que só o facto de estar nesta livraria já é suficientemente inspirador, e há tanta coisa para vir aqui ver… Mas, volto à ideia de que se as crianças se conseguirem ver a si mesmas nos livros, isso torna-as mais confiantes, mais fortes e melhores seres humanos. Podem aprender tanta coisa que torna a vida muito mais fácil. É como viajar, se as crianças puderem começar a viajar desde tenra idade, veem que o mundo não é assim tão grande, aprendem sobre outras culturas e coisas diferentes. Para além disso, lembrem-se sempre de acreditar em vocês, de serem vocês mesmos, de serem gentis e de aprenderem o máximo que puderem sobre o mundo…. e de comerem muita comida portuguesa boa. Fim. Com amor, Todd.